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"Apesar de descontente com seu sexo desde os onze anos de idade, Rogéria foi Vitório até os vinte e só então resolveu sair de casa e fazer aquilo que mais tinha vontade: ser mulher"
Nunca sei como me referir, só sei que eles (ou seriam elas?) têm como ponto a rua em que trabalho. Com roupas justas e curtíssimas, as travestis do bairro do Butantã começam a jornada às onze da manhã e não têm hora para acabar.
De longos cabelos loiros, muito bem tratados e escovados, Rogéria trabalha na esquina de duas conhecidas ruas e, faça chuva ou faça sol, lá está ela esperando o cliente do dia. E enquanto este não aparece, passa o tempo conversando alto com duas amigas com quem divide a esquina. “Antes cada uma tinha seu espaço e dava muita briga quando alguém roubava o programa da outra, mas hoje não temos mais esse tipo de problema, porque, gata, você nem imagina o tanto de bofe que aparece por aqui. Já virou ponto famoso, então a gente fica tudo junto, conversando, é até mais legal”, conta ela. O horário de maior movimento é entre meio dia e duas da tarde. Carros luxuosos ou caindo aos pedaços, vez por outra até motos, pilotados por quarentões, velhos, moços, casados, solteiros, bonitos, feios, gordos, magros. Clientes de todo o tipo aparecem todos os dias, impreterivelmente. Rogéria nunca fica sem trabalho: “já até me acostumei com essa vida, chega a ser até cômodo, sabe? Ganho minha grana, tenho minhas amigas, moro com dignidade, dessa parte de custos não tenho muito do que reclamar, não”.
Mas a história de Rogéria vai muito além dos seis anos em que trabalha como garota de programa. Seus 75 quilos distribuídos em um porte alto entre seios fartos (550 ml de silicone em cada lado), pernas tonificadas e barriga tanquinho são de dar inveja em muita mulher. Os ombros largos se devem à natação, esporte que praticava quando criança. Uma criança chamada Vitório. “Seria mais lógico mudar meu nome para Vitória, né? Mas eu sou assim, não gosto de ser previsível” conta a loira que se passa facilmente por mulher em baladas e bares noturnos.
Apesar de descontente com seu sexo desde os onze anos de idade, Rogéria foi Vitório até os vinte e só então resolveu sair de casa e fazer aquilo que mais tinha vontade: ser mulher. “É muito difícil pros meus pais. Faz nove anos que saí de casa e faz oito que não vejo minha mãe. É o preço que tenho que pagar”. Rogéria, que escolheu seu novo nome inspirada no famoso ator transformista, começou a se travestir e chegou a cogitar a possibilidade de fazer a cirurgia para a mudança de sexo. Foi assim que entrou para o mundo da prostituição: “Para tirar meu ‘bingulim’ fora, precisava de dinheiro. Para conseguir dinheiro, tinha que trabalhar. Para trabalhar, tinha que ter estudado. E isso eu não fiz direito, nunca gostei e não quis ir pra faculdade, não. Aí conheci umas travestis que me ofereceram um canto na esquina delas. Foi simples assim. Aí quando a gente tá assim na rua, eles (os clientes) procuram menina (mulher) ou boneca (travesti). Não dá para ser ex-boneca. Então resolvi adiar um pouco a cirurgia, sabe? Melhor assim”.
O começo foi muito difícil. Rogéria chorava todas as noites depois de um dia cheio de clientes e chegou a pensar em voltar para casa e desistir da vida nas ruas, a única vida que conhece como mulher. “Não voltei, não. Não voltei. Não dava, se voltasse, tinha que voltar a ser um menino e isso eu não queria ser, não mais”. Rogéria até hoje não se acostumou com o mundo da prostituição, mas estabeleceu alguns limites para cuidar de si: “só pego um cliente por dia. Mais que isso não dá. Por isso cobro muito caro mesmo, sem dó. Aí não caio na onda das drogas também. Tem colega minha que pra aguentar o tranco de cinco, seis programas por dia, começou a se encher de drogas e isso para mim eu não quero não. Já não basta tudo que a gente passa na mão desses ogros, eu tenho meus limites, tem coisa que não dá”.
Nas horas livres, Rogéria vai à academia, cuida do cabelo, compra roupas novas e assiste a novelas e filmes no aconchego de sua casa, único lugar em que pode ser quem é de verdade, Rogéria com alma de Vitório: “Agora que moro sozinha pintei algumas paredes de rosa e nelas coloquei algumas fotos de minha mãe. É uma maneira de eu não esquecer de onde vim”. Seus olhos se enchem de água e todo aquele exagero de gestos e sotaque, de gargalhadas e berros de repente se esvaem e a imagem de travesti descolada e atrevida dá lugar à menina desamparada que faz bico a fim de engolir o choro e manter a pose no alto dos 15 centímetros de seu salto agulha.
Muito lentamente, um moderno e luxuoso carro faz a volta no final da rua e, como quem não quer nada, se aproxima da esquina. Rogéria logo percebe. Rapidamente enxuga o ensaio de lágrima, joga os belos cabelos para o lado, aumenta consideravelmente o decote e com muita simpatia cochicha: “’Menine’, tenho que ir. Mas depois te conto mais sobre essa loucura toda e te mantenho informada se vou cortar fora ou não o meu ‘rogerinho’, tá?”. Com muita classe e quase-glamour, Rogéria se vira, derrama os falsos seios na janela do carro e a última coisa que ouço é “não, gatinho, isso aí eu não faço, não. Mas deixe de frescura, você não vai se arrepender”.
Sigo meu caminho e, observando todas aquelas Rogérias, Vitórias, Wanessas e Simones – que um dia foram Vitórios, Brunos, Marcos, Pedros e Josés -, me pego imaginando que minha caminhada de todo o dia até o ponto de ônibus nunca mais será a mesma. Minha maneira de pensar também.
