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Escrevo, depois apago

Não fui eu, foi meu eu-lírico

mês

junho 2010

Quando tiver algo a dizer

Por Ana Carolina Pereira
"Poderia ser cena de filme, mas chega a ser patético aos olhos de quem nada entende"

Estranhos. Ouso dizer ‘engraçados’ aqueles encontros no meio da multidão. Um rosto conhecido, há muito não visto. Uma lembrança vaga que acarreta em um sorriso.

O nome, o cheiro, os sentidos. Tudo volta à lembrança em segundos e nem se percebe os esbarrões. Entre nós e a nossa vergonha ou temor de aproximação abre-se um caminho de pessoas apressadas, bravas, agitadas, focadas em seus afazeres. O barulho dos carros, dos passos, do vento parece calar. Poderia ser cena de filme, mas chega a ser patético aos olhos de quem nada entende. As pessoas transformam-se em borrões e de tempos em tempos é possível enxergar ao outro do outro lado. É como uma dança. E estamos lá, estáticos, a espera de algo que nem sabemos o que é.

Naquele espaço, aquele caminho, aquele vão feito entre duas pessoas assim, no meio da rua, há uma história. Uma não, duas. Histórias que se cruzaram e formaram uma só, comum. E que depois se desfez, formando duas novamente. Conheceu-se tanto e agora não se conhece nada. Estranho como as coisas são. E tudo isso passa pela cabeça em segundos que parecem eternos. Uma vontade enorme de correr e pular naqueles velhos conhecidos braços e contar a vida inteira num café charmoso até que fique tarde o suficiente para não medir consequências e não responder pelos próprios atos.

Mas ainda é cedo, poucas horas da manhã. O dia ainda nem começou. A vontade que a milésimos de segundos nos parecia coerente, expressada no brilho dos olhos que nunca soube e nada consegue esconder, agora se reprime em um baixar de cabeça, meio sem graça, meio sem jeito, nada novo para ambos.

Nossa conversa foi feita de expressões, cada diferente sorriso era uma palavra. Não precisamos de mais nada para entender e seguimos o fluxo, nosso caminho. Dois rostos se apagando no meio da multidão.

Um dia em Xangai

 

" É perceptível a névoa que se instala sobre a cidade, onde as fotos saem embaçadas"

Por Ana Carolina Pereira

Depois de 26 horas de viagem cheguei à China, mais precisamente em Xangai, no moderno aeroporto de Pu dong. No desembarque, a fila do táxi era enorme. Mas, para não correr o risco de cair no golpe de extorsão aos turistas – em que se paga quase 500 dólares por uma corrida que custaria apenas 20 – a dica é esperar pelo táxi oficial. Optei pelo trem bala. O Maglev leva sete minutos até o centro velho de Xangai ao custo de sete dólares, sem contar a experiência no trem flutuante, com o veículo ligado ao trilho através de ímãs na velocidade de 430 km/h.

Na China, poucos falam inglês e quase ninguém entende o alfabeto ocidental. Para pegar um táxi, por exemplo, é preciso se programar no hotel. A recepcionista escreve o nome do local em Pinyin, e pronto, a comunicação está feita.

Ao contrário do que esperava, não descobri por lá a tecnologia a custo acessível. Porém, existem as ruas dos produtos típicos. Nesse tipo de comércio, tudo é negociado. Com gestos, é só perguntar o preço e a festa começa. Em uma calculadora, o vendedor mostra o primeiro valor: 1000 Yuans. Nada feito. Minha oferta? 10! E assim continuamos, até chegarmos em um consenso. Resultado: uma camisa de seda por 80 Yuans (o equivalente a 10 dólares).

As ruas tradicionais fazem parte da velha China. Mas andando alguns quarteirões chega-se à Nanjing Road, a Times Square de Xangai, em que ficam os iluminados shopping centers. Prepare-se: o trânsito e a construção civil são caóticos e frequentes, trazendo beleza, novidade e muito pó. É perceptível a névoa que se instala sobre a cidade, onde as fotos saem embaçadas. Após o passeio, resolvi explorar a culinária local.

Quem associa comida chinesa àquela caixinha com arroz colorido que comemos assistindo à televisão, vai levar um belo susto. Nos restaurantes, banquetes servem pratos típicos. A comida é impecável e pode-se provar de tudo, sem pudor alimentar. Para dar ao cliente a certeza de alimentos frescos, é possível escolher o prato enquanto ele está ainda vivo! É quase como um menu-zoológico.

Por fim, é indispensável uma visita à Oriental Pearl Tower – que, com os seus 420 metros de altura, é um dos edifícios mais altos do mundo. A subida até o último de seus 88 andares é estonteante, em um elevador que se locomove 9 metros por segundo. De lá, é possível observar a cidade dividida pelo rio Huangpu que comporta, de um lado, o cenário histórico e, do outro, os arranha-céus.

Ufa! Um dia e tanto. Uma experiência maravilhosa nesta cidade que mistura o que há de mais moderno com a milenar cultura chinesa

Sonho americano

"Faz as malas. Enchê-as de arrependimento e desesperança. De realidade ao invés de sonhos."

Por Ana Carolina Pereira

Como a vida é injusta! Já dizia o ditado: “Uns com tanto, outros com tão pouco”.

Cansou disso tudo, queria uma vida melhor. Sua patria é o Brasil, país tropical, país do carnaval, de belas morenas. País do samba, de belezas naturais, da mpb. Para quem quer felicidade e diversão, eis o lugar. Brasil. A vida real é mais cruel que isso. País corrupto, de muita gente e poucas oportunidades. A ambição é difícil de ser alcançada. Para “se dar bem” é preciso ralar muito, mas muito mesmo. Escola, colégio, graduação. Pós-graduação, mestrado, doutorado. Isso tudo combinado com muita sorte, boas decisões e, no mínimo, inglês obrigatório. Mas nem assim o futuro é garantido. Já dizia o ditado que “a oportunidade é uma velha careca que passa por você correndo e é precisso agarrá-la pelos cabelos”.

Quer fazer igual à vizinha de sua prima, que “se deu muito bem”. Quer ir para o tão falado e muito famoso Estados Unidos. País das oportunidades, das novidades e da tecnologia. País das cidades famosas, da boa economia, do inglês fluente. Lá, a oportunidade se transforma em charmosos taxis amarelos, restaurantes fast-food, diversão em parques temáticos, compras e filmes superproduzidos. Lá a vida é fácil, é bela e o orgulho de se ter nascido numa pátria de promessas está presente em bandeiras asteadas em todos os bairros, em frente à maioria das casas, representando a felicidade que não tem a ver com música, dança ou natureza. Representando o orgulho de ser um cidadão norte-americano com direito a escolas públicas de excelente qualidade, segurança policial extremamente confiável e cidadania invejável.

Faz sua mala cheia de sonhos e expectativas e vontade de se encontrar, de encontrar um lugar melhor, uma vida melhor, oportunidades. O destino: Nova York. Oito horas de viagem com direito a duas refeições de mesmo gosto, um pacotinho de amendoim e uma barrinha de cereal. Um terço na mão, pelo medo de morrer, do avião cair, e perder assim a chance de conhecer a vida que finalmente começará. Recomeçará. É como se reencarnasse, nascesse de novo. Vai aprender a andar, a falar. Outra cultura, outras pessoas, outras histórias. Sua única certeza é o visto no seu passaporte nunca antes carimbado, que expirará em três anos. Três anos: tempo suficiente para arrumar um trabalho, se estabelecer e conseguir o green card, garantindo assim visitas esporádicas à família, aos amigos, ao país, à vida que deixou para trás.

Aeroporto de Nova York. Ao pisar em solo Americano, sem nem ao menos o enxergar, já sente a diferença. Aquele cheiro, aquelas pessoas, aquela lingua. Passar pela alfândega, a parte mais difícil. O oficial, com cara de quem comeu e não gostou o fita como quem desconfia de suas intenções e com palavras secas, não fazendo a minima questão de se fazer entender, questiona o motivo de sua visita. O medo e a insegurança aparecem novamente, mas passada essa parte é só alegria!

As portas do aeroporto se abrem e para muitos, aquela situação é a volta para casa, a visita muito esperada ou a correria para terminar logo as reuniões de trabalho. Para ele, era a porta de abertura para a vida, para o começo, para o sonho.

Tudo é muito bonito e moderno. A sede de conhecer seu novo lugar, seu novo lar e patria é quase insaciável e digo “quase” pois após duas lentas semanas já se sabe direitinho aonde e por onde ir e quais caminhos pegar. É chegada a hora de contar o dinheiro que ainda lhe resta e buscar a velha careca que alí lhe parece bem cabeluda. As oportunidades tão visíveis e táteis parecem fugir a cada tentativa e as intensões de arrumar um cargo bom, em uma boa empresa, explorando todo o seu potencial, já não lhe causa mais tamanha expectativa. Já se contenta com um emprego mais simples, um cargo mais baixo, quase como um estagiário e, mesmo assim, difícil de conseguir.

Na realidade do seu lugar dos sonhos, as pessoas são sizudas, apressadas, emburradas. Todos são estilosos, as mulheres andam de tênis e levam nas mochilas seus sapatos de salto alto, mas a beleza da estética não reflete a personalidade. Para quem está acostumado com a simpatia de cidadãos brasileiros solícitos, tentar puxar assunto com um gringo metido é quase como tomar um soco no estômago.
As semanas vão se passando e as oportunidades, riscadas com caneta vermelha nos classificados dos jornais, viram pó. Já sente saudades de casa. Não tem amigos, não tem família, não tem trabalho.

O dinheiro acaba e, já sem escolhas, aceita um dos únicos empregos que lhe é oferecido. “Na falta de tu, vai tu mesmo”, já dizia o velho ditado. E percebe que ninguém mais ri dos seus velhos ditados. Alí, os ditados são outros, a língua é outra e as pessoas também. Ninguém o entende e nem quer entender. Ele é um simples imigrante, com muitos e muitos outros, que foi tentar tomar o lugar dos americanos no mercado de trabalho. É assim que pensam e é pensando assim que olham para ele na rua, no mísero prédio em que alugou um mísero apartamento. 
O jeito é aceitar a oportunidade nada promissora no restaurantezinho sujo do chinês. Lá, apenas imigrantes ilegais e esperançosos, assim como ele, vão comer o ensopado – que só Deus sabe do que é feito – por apenas 2 dólares. Ele ainda sonha com as oportunidades que insistem em não aparecer. Ele ainda vê magia no Central Park.

Central Park. Um dos mais famosos parques do mundo. Todos os dias muito bem frequentado: turistas, trabalhadores, pessoas se exercitando, fazendo pique-nique aos finais de semana. É como nos filmes, é mágico. Mas após alguns meses é só mais um parque. Aquele não é o seu lugar. Faz muito frio. As pessoas encapotadas na rua andam elegantemente, ele não se acostumou: sente suas mãos congelarem a cada vez que precisa tirá-las do bolso, sente o queixo tremer a cada passo, o nariz parece que vai cair. Isso não é vida.

A vida vira um pesadelo. As luzes da quinta avenida começam a incomodar, com anúncios de produtos, espetáculos, amigos, bares, bebidas. Uma visão um tanto quanto ilusória. E o ditado, que nunca o abandona, diz: “Se arrependimento matasse…”

Lembra da segurança que tinha no país da cocanha. Da família, dos amigos, do dinheirinho que, mesmo pouco, garantia o pão com manteiga. Lá, ele nunca estava sozinho. Entende que tomou uma decisão errada. 
Aquele que ia buscar uma nova vida, ser uma melhor pessoa, agora liga pedindo ajuda, quer voltar. Com uma vaquinha, feita por aqueles que o querem de volta, compra uma passagem.

Faz as malas. Enchê-as de arrependimento e desesperança. De realidade ao invés de sonhos. Deixa aquela cidade que nunca o acolheu. A realidade é fria como a neve que cai sobre cabeças e lá só tem lugar para quem é de lá. Para os outros é bonito quando distante, quando diferente, quando sonhado.

Aeroporto de Salvador. Só de pisar em solo soteropolitano já reconhece. Aquele cheiro, aquele clima, aquelas pessoas. O aconchego, a dificuldade e a felicidade. Está em casa, meio humilhado, meio cabisbaixo, mas em casa. Alí é seu lugar, aquela é a sua gente. Voltou. Mas não para sua velha vida, agora é diferente, cresceu, amaduresceu, aprendeu a dar valor.
A velha oportunidade continua careca e correndo. Nenhum lugar é perfeito, mas no seu lugar, naquele a qual pertence, com o qual se identifica, a esperança não morre e assim, cercado de sua gente, sua família e sua vida é que ele não só esperará a velha passar, mas correrá atrás dela com afinco. 
 
Seu sonho agora é outro: voltará a cidade de Nova York como turista para aproveitar a paisagem, a agitação, as compras e o frio. 
 
E então, lembra do velho ditado que diz: “quem canta seus males espanta” e alí todos sabem do que ele está falando. As dificuldades que os perseguem na vida viram letras de samba, cantadas com sofrimento e sorriso, sambada por morenas, admirando a vista de praias. Isso que é vida, isso que é sonho, sonho brasileiro.

Carta ao mestre

 

“…e anotei cada autor e cada livro que era citado. Li muitos e muitos deles.”

 

Olá, Professora,

Não sei se você se lembrará de mim, fui sua aluna. Não fui a que tirei a melhor e nem a pior nota nas provas, não me destaquei nem por bem e nem por mal. Mas posso garantir que se alguém soube apreciar sua aula, esse alguém fui eu.

Meu intuito com essas informações não é parecer prepotente, deixe-me explicar.

Já sei que não será mais minha professora, então achei que era, por direito, te deixar saber a extrema importância que suas aulas tiveram, e ainda têm, em minha formação.

Alguns alunos reclamavam de sua maneira nada linear de ministrar e diziam que, apesar de exalar conhecimento, suas explicações confundiam a cabeça de todo mundo. Era uma das professoras mais temidas, com trabalhos mirabulosos que foram motivo de muitas noites regadas a pó de guaraná e muito desespero (digo isso por experiência própria). Suas avaliações eram sempre as mais complexas e geravam uma tensão pré-prova digna de dar início a uma gastrite nervosa ou impressionantes quedas de cabelo. Sem contar as questões que, depois de respondidas, eram discutidas fervorosamente nos corredores e refeitórios.

Porém aprendi, ainda quando nem conhecia seu estilo de aula direito, a entender sua maneira de ensinar e absorver (quase) tudo aquilo que tinha para nos passar. Eu era uma das alunas que sentava sempre e impreterivelmente em sua frente e fazia anotações de maneira frenética, sem deixar passar nenhuma vírgula de suas explicações. E pronto! Me achei! A partir do momento em que consegui prestar atenção, não tive mais muita dificuldade.

Me impressionava o tanto de livros de cor e salteado que você tinha na cabeça – não só o nome, mas também o autor e, não muito raro, algum trecho mais interessante. Saía de sua aula extremamente fascinada com sua inteligência e, ao mesmo tempo, me sentindo a pessoa mais burra deste universo – por não conhecer nem um terço daquele monte de variados assuntos que você parecia dominar com tamanha facilidade.

Esta seria uma revelação um tanto quanto tosca, se fosse só isso (mesmo porque, imagino que seja uma constante observação de muitos dos seus alunos), mas fico muito feliz de poder lhe dizer que não é.

Ficava perturbada, pensando no quão desinformada e desinteressada eu era e o mar de coisas que eu ainda tinha para aprender, o tanto de livros que ainda havia para ler (e eu que achava que lia muito). Mudei. Tive você como parâmetro e anotei cada autor e cada livro que era citado. Li muitos e muitos deles.

Gay Talese é hoje um dos meus autores favoritos e, por sua causa, tenho certeza de que estou no caminho certo, no curso certo. Ao longo dessa jornada de estudante tive inúmeros bons professores e, dentre eles, alguns poucos e ótimos que serão lembrados para sempre com muito carinho. Você, definitivamente, faz parte da categoria dos que marcaram, daqueles que serão reavivados na memória a cada conquista profissional, a cada bom livro lido.

Sempre pensei em te falar isso, mas sabe como são as coisas, deixamos tudo para depois. Também pensei que talvez fosse um pouco piegas demais e meio sem necessidade. Todavia, imaginei que se fosse professora, gostaria de saber que ajudei uma aluna a ser uma melhor profissional, estudante e pessoa. Ficaria feliz em saber que meu trabalho rendeu frutos fora de sala de aula.

Não sei o que o futuro reserva. Sem dúvida alguma, gostaria muito de ter você como professora novamente. Mas se assim não for, quero então que ao menos saiba que passou pelo caminho de alunos que foram influenciados e, mais do que isso, incentivados por você.

O que quero mesmo é te agradecer por ter me ajudado sem nem saber que o fazia. Foi um prazer inenarrável (como diria outro querido professor) ser sua aluna.

Obrigada.

Admirável ícone novo

Admirável ícone novo. Qual é o seu?

Por Ana Carolina Pereira

Seria errado dizer que nós, humanos, precisamos de ícones? Assim como precisamos acreditar numa força maior para confortar e dar sentido aos duros acontecimentos da vida, precisamos também ter alguém em quem nos inspirar.

Os pais funcionam como ícones na infância, vemos o pai como um super herói, um alguém em quem podemos confiar, em quem podemos nos aconchegar e nos proteger quando em perigo.

Mas eis que um belo dia descobrimos que nossos pais, assim como nós, são seres humanos que erram, choram, sofrem e têm dificuldades. O mundo parece que cai, o chão parece que se abre num abismo sem fim. Estamos sozinhos, desamparados.

Nossa segunda casa, a escola. Professores parecem distantes. Mais altos, mais velhos, mais cultos. Eles sabem a resposta para todas as nossas perguntas e nos contam novidades e curiosidades. Com eles aprendemos interessantes novidades e brigamos para ser o aluno que os ajudam a carregar os livros, apagar a lousa e colar estrelinhas nas agendas . Até que um dia crescemos e o professor passa a ser apenas um chato que pega no nosso pé e nos diz o que fazer. E então brigamos de novo, mas dessa vez contra o sono, para aguentar as aulas sem adormecer na carteira.

Nessa época de nossas vidas, encontramos novas pessoas admiráveis. Essas se encontram nas capas de revistas, nas páginas de internet e em folhetos de CDs, DVDs e outdoors espalhados por todas as partes. São as celebridades. Eles estão em todos os lugares e suas imagens invadem nossas casas e agendas, nossos sonhos e objetivos. Queremos ser iguais a eles. Lindos, talentosos, ricos, aclamados e famosos. Se não pudermos ser iguais, queremos ao menos estar perto. Invadimos camarins, choramos , gritamos, tiramos fotos e jogamos presentes. Nosso maior sonho, nessa época, é ser conhecido por nossos ídolos. E, após muitas tentativas frustradas, percebemos que celebridades também têm espinhas na pele, olheiras debaixo dos olhos, problemas para manter o físico e sim, também vão ao banheiro. Os que antes nos pareciam a perfeição, agora nos trazem desprezo por serem pessoas desequilibradas, que fazem de tudo (e digo tudo. Mesmo) para chamar atenção.

Crescemos, (só às vezes) amadurecemos e vamos para a faculdade. Lá, a admiração se volta novamente para os professores que tanto sabem e muito ensinam. E nós que achávamos que líamos muito, nos deparamos com prateleiras e prateleiras de bibliotecas nunca antes imaginadas. Autores, estudiosos, pensadores. Nosso objetivo é escrever como Machado de Assis, pensar como Descartes e rimar como Drummond. Até percebermos que professores também são alunos e têm  que estudar (e muito) para poder então ensinar.

Começamos a trabalhar e eis que surge a figura do chefe. Reles estagiários que somos, queremos ao menos mostrar que podemos, que sabemos e nos adaptamos. Trabalhamos, brigamos, lutamos, cansamos, começamos de novo, sempre querendo chegar perto, conhecer, melhorar, alcançar.

Olhamos para trás e percebemos as pessoas admiráveis de nossas vidas, platônicas ou não, nosso desejo de igualdade ou aproximação e o cair dessa grande ilusão. Os ícones hoje fazem tanto sentido que não é possível que morram, que deixem de ser admirados. Pode ser que sejam para sempre impossíveis, para sempre distantes, para sempre utópicos, mas para sempre nos inspirarão, para sempre nos farão alcançar maiores patamares, nos farão melhores e mais capazes, até virarmos, um dia, a pessoa admirável de um outrém.

A vida é de morte

Por Ana Carolina Pereira

Estava bem. Não tinha nada, nenhum sintoma. Nada. Sofreu um derrame, fez uns exames e então, duas semanas depois, após duas cirurgias para retirar o tumor, se saísse da UTI teria uma vida vegetativa. Deixou uma filha sozinha, desesperada, sem chão, sem mãe. Numa cidade nova, com amigos novos e nada próximos, com a família brigada e com muitas dívidas para pagar.

Voltou da escola. Alguma coisa estava estranha: a mãe não estava em casa, o almoço não estava pronto e a porta estava destrancada. A única notícia que teve: “seu pai passou mal na rua, sua mãe foi ao hospital com ele”. O pai nunca passava mal. Lhe restou a mãe, o irmão e a vida para reorganizar.

Minha avó costuma dizer: “nunca durma brigada com ninguém, nunca deixe de se despedir com um abraço e nunca, nunca deixe de dizer a alguém que o ama, se assim se sentir”. A vida humana é muito frágil. Não se sabe o que pode acontecer. De repente, do nada, em questão de segundos, o mundo como o conhecemos, o nosso mundo pessoal e particular, vira de cabeça para baixo, vira do avesso. Muda.

Não queria deixar o filho sair, ainda tinha muito a desencaixotar na casa nova. “Mas eu não vou longe, mãe! É aqui do lado, no shopping”. Era um sábado, tinha que começar a deixar o menino soltar as asas com os amigos. Deixou. Porém, não o faria se soubesse da inocente racha. 15 minutos depois o telefone toca. Perdeu o filho, o único filho. Ficou com um quarto vazio. O coração também.

Esperava no ponto de ônibus. Todos os dias era assim: saía da escola, ia para as aulas de inglês e esperava o ônibus para voltar para casa. Mas não nesse dia. Foi atingida por um carro que perdeu o controle, arremessada para o outro lado da rua. O motorista não parou. Ela nunca mais voltou para casa.

Dizem que a morte é apenas azar. Ela te atinge as pessoas que estão no lugar errado, na hora errada. Azar. Mas há quem acredite que as pessoas só morrem quando é chegada a hora, independente de onde estiver, determinada por uma força maior.

A morte é muito cruel. Ou será que a vida o é? Além de nos deixar sem um monte de respostas, nos faz indagar ainda mais. Por quê comigo? Por quê meu pai? Por quê meu filho? É colocar o pé para fora de casa que se está correndo perigo. Ou é colocá-lo para dentro?

Sofria de depressão. Não gostava muito de sair. Seu quarto era seu refúgio. Um belo dia resolveu passar a tarde na sala. A família inteira estava lá: netos, genros, filhos e noras. Aquele dia seu mundo mudou. Aproveitou a família, até sorriu. Já era tarde. Deu dois passos para dentro do quarto. O teto caiu sobre sua cabeça. Ninguém nunca soube explicar.

Há quem diga que quando vai morrer, a pessoa sabe. No fundo, no fundo, sabe. E dá dicas, e revela segredos, deixa pistas, resolve problemas, age diferente. Se despede.

A morte é inevitável e imprevisível. Divagar sobre ela traz questionamentos jamais respondidos e, consequentemente, revolta e apreensão. O que fica é o aqui, o agora e o sábio conselho de minha avó.

500 dias em choque

AVISO: este post contém spoilers do filme ‘500 dias com ela’

"This is not a love story. It is a story about love."

Por Ana Carolina Pereira

Uma Linda mulher, Amor à segunda vista, Letra e música, Simplesmente amor, A proposta, Dirty Dancing, Mensagem pra você, O amor não tira ferias. Reconhece esses nomes?

Sim, são filmes enquadrados na categoria comédia romântica. Todos têm o mesmo conteúdo, seguem a mesma linha: uma mocinha, um mocinho. Tudo dá errado o filme inteiro. O mocinho descobre as mentiras da mocinha. A mocinha descobre o passado do mocinho. A família vai contra o relaciomento dos mocinhos e, em muitos casos, eles são pessoas muito diferentes com uma tendência a se estranharem como cão e gato. Parece que nada vai dar certo, mas não se engane, você bem sabe: o filme terminará em uma cena extremamente romântica, beirando a breguice e metade das meninas sairá do cinema tendo plena certeza de que a vida é cor de rosa e que há um príncipe encantado para todas. Enquanto a outra metade sairá se debulhando em lágrimas por saber que a vida real não é assim e jurando de pés juntos que nunca, nunca mais assististirá a uma comedia (nada engraçada, por sinal) romântica.

Comédia romântica é assim mesmo. Amamos, odiamos, assistimos.

Então surge um novo filme dentro da categoria: 500 dias com ela. Ao sentar na confortável cadeira do cinema, o espectador já está preparado para sair sonhando ou chorando. Mas, com certeza, não está preparado para sair estupefato. Eis que uma ousada tentativa de realidade nua e crua é instaurada dentro da já velha conhecida comedia romântica.

Dirigido por Marc Webb e estrelado pelo carente Joseph Gordon-Levitt e pela fascinante Zooey Deschanel, 500 dias com ela conta o sofrimento de um mocinho que se apaixona pela mocinha. O filme todo é retratado de maneira real, sem muito floreamento, sem muitos efeitos apaixonantes. São duas pessoas. Não mais um mocinho e uma mocinha, mas um homem e uma mulher com sentimentos, temores, amores e dúvidas, muitas dúvidas.

Diferente de típicas comédias românticas, 500 dias com ela não é previsível, não atende às expectativas amorosas do telespectador já acostumado a uma mesma fórmula mágica de recorde de venda de ingresso. Só o fato de nesse caso ser o mocinho a sofrer, chorar e implorar pela volta daquela que acredita ser o amor de sua vida já é inédito. Mas, muito mais do que isso, o filme faz pensar.

Na mesa de jantar pós-filme, comum aos frequentadores de sessões de cinema noturnas, reflete-se, ainda um pouco em choque, que o amor pode não ser para sempre, que a vida toma rumos diferentes, mas que não é necessariamente ruim. Percebe-se que os filmes nos vendem uma realidade inventada, um motivo para chorar ou sonhar em vão. A vida de ninguém é um filme, é humana, é real.

500 dias com ela é humano. Uma nova maneira de fazer e assistir a comédias românticas e sair do cinema nos perguntando se preferimos o sonho ou a realidade.

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