Por Ana Carolina Pereira

Estava bem. Não tinha nada, nenhum sintoma. Nada. Sofreu um derrame, fez uns exames e então, duas semanas depois, após duas cirurgias para retirar o tumor, se saísse da UTI teria uma vida vegetativa. Deixou uma filha sozinha, desesperada, sem chão, sem mãe. Numa cidade nova, com amigos novos e nada próximos, com a família brigada e com muitas dívidas para pagar.

Voltou da escola. Alguma coisa estava estranha: a mãe não estava em casa, o almoço não estava pronto e a porta estava destrancada. A única notícia que teve: “seu pai passou mal na rua, sua mãe foi ao hospital com ele”. O pai nunca passava mal. Lhe restou a mãe, o irmão e a vida para reorganizar.

Minha avó costuma dizer: “nunca durma brigada com ninguém, nunca deixe de se despedir com um abraço e nunca, nunca deixe de dizer a alguém que o ama, se assim se sentir”. A vida humana é muito frágil. Não se sabe o que pode acontecer. De repente, do nada, em questão de segundos, o mundo como o conhecemos, o nosso mundo pessoal e particular, vira de cabeça para baixo, vira do avesso. Muda.

Não queria deixar o filho sair, ainda tinha muito a desencaixotar na casa nova. “Mas eu não vou longe, mãe! É aqui do lado, no shopping”. Era um sábado, tinha que começar a deixar o menino soltar as asas com os amigos. Deixou. Porém, não o faria se soubesse da inocente racha. 15 minutos depois o telefone toca. Perdeu o filho, o único filho. Ficou com um quarto vazio. O coração também.

Esperava no ponto de ônibus. Todos os dias era assim: saía da escola, ia para as aulas de inglês e esperava o ônibus para voltar para casa. Mas não nesse dia. Foi atingida por um carro que perdeu o controle, arremessada para o outro lado da rua. O motorista não parou. Ela nunca mais voltou para casa.

Dizem que a morte é apenas azar. Ela te atinge as pessoas que estão no lugar errado, na hora errada. Azar. Mas há quem acredite que as pessoas só morrem quando é chegada a hora, independente de onde estiver, determinada por uma força maior.

A morte é muito cruel. Ou será que a vida o é? Além de nos deixar sem um monte de respostas, nos faz indagar ainda mais. Por quê comigo? Por quê meu pai? Por quê meu filho? É colocar o pé para fora de casa que se está correndo perigo. Ou é colocá-lo para dentro?

Sofria de depressão. Não gostava muito de sair. Seu quarto era seu refúgio. Um belo dia resolveu passar a tarde na sala. A família inteira estava lá: netos, genros, filhos e noras. Aquele dia seu mundo mudou. Aproveitou a família, até sorriu. Já era tarde. Deu dois passos para dentro do quarto. O teto caiu sobre sua cabeça. Ninguém nunca soube explicar.

Há quem diga que quando vai morrer, a pessoa sabe. No fundo, no fundo, sabe. E dá dicas, e revela segredos, deixa pistas, resolve problemas, age diferente. Se despede.

A morte é inevitável e imprevisível. Divagar sobre ela traz questionamentos jamais respondidos e, consequentemente, revolta e apreensão. O que fica é o aqui, o agora e o sábio conselho de minha avó.

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