Admirável ícone novo. Qual é o seu?

Por Ana Carolina Pereira

Seria errado dizer que nós, humanos, precisamos de ícones? Assim como precisamos acreditar numa força maior para confortar e dar sentido aos duros acontecimentos da vida, precisamos também ter alguém em quem nos inspirar.

Os pais funcionam como ícones na infância, vemos o pai como um super herói, um alguém em quem podemos confiar, em quem podemos nos aconchegar e nos proteger quando em perigo.

Mas eis que um belo dia descobrimos que nossos pais, assim como nós, são seres humanos que erram, choram, sofrem e têm dificuldades. O mundo parece que cai, o chão parece que se abre num abismo sem fim. Estamos sozinhos, desamparados.

Nossa segunda casa, a escola. Professores parecem distantes. Mais altos, mais velhos, mais cultos. Eles sabem a resposta para todas as nossas perguntas e nos contam novidades e curiosidades. Com eles aprendemos interessantes novidades e brigamos para ser o aluno que os ajudam a carregar os livros, apagar a lousa e colar estrelinhas nas agendas . Até que um dia crescemos e o professor passa a ser apenas um chato que pega no nosso pé e nos diz o que fazer. E então brigamos de novo, mas dessa vez contra o sono, para aguentar as aulas sem adormecer na carteira.

Nessa época de nossas vidas, encontramos novas pessoas admiráveis. Essas se encontram nas capas de revistas, nas páginas de internet e em folhetos de CDs, DVDs e outdoors espalhados por todas as partes. São as celebridades. Eles estão em todos os lugares e suas imagens invadem nossas casas e agendas, nossos sonhos e objetivos. Queremos ser iguais a eles. Lindos, talentosos, ricos, aclamados e famosos. Se não pudermos ser iguais, queremos ao menos estar perto. Invadimos camarins, choramos , gritamos, tiramos fotos e jogamos presentes. Nosso maior sonho, nessa época, é ser conhecido por nossos ídolos. E, após muitas tentativas frustradas, percebemos que celebridades também têm espinhas na pele, olheiras debaixo dos olhos, problemas para manter o físico e sim, também vão ao banheiro. Os que antes nos pareciam a perfeição, agora nos trazem desprezo por serem pessoas desequilibradas, que fazem de tudo (e digo tudo. Mesmo) para chamar atenção.

Crescemos, (só às vezes) amadurecemos e vamos para a faculdade. Lá, a admiração se volta novamente para os professores que tanto sabem e muito ensinam. E nós que achávamos que líamos muito, nos deparamos com prateleiras e prateleiras de bibliotecas nunca antes imaginadas. Autores, estudiosos, pensadores. Nosso objetivo é escrever como Machado de Assis, pensar como Descartes e rimar como Drummond. Até percebermos que professores também são alunos e têm  que estudar (e muito) para poder então ensinar.

Começamos a trabalhar e eis que surge a figura do chefe. Reles estagiários que somos, queremos ao menos mostrar que podemos, que sabemos e nos adaptamos. Trabalhamos, brigamos, lutamos, cansamos, começamos de novo, sempre querendo chegar perto, conhecer, melhorar, alcançar.

Olhamos para trás e percebemos as pessoas admiráveis de nossas vidas, platônicas ou não, nosso desejo de igualdade ou aproximação e o cair dessa grande ilusão. Os ícones hoje fazem tanto sentido que não é possível que morram, que deixem de ser admirados. Pode ser que sejam para sempre impossíveis, para sempre distantes, para sempre utópicos, mas para sempre nos inspirarão, para sempre nos farão alcançar maiores patamares, nos farão melhores e mais capazes, até virarmos, um dia, a pessoa admirável de um outrém.

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