“…e anotei cada autor e cada livro que era citado. Li muitos e muitos deles.”

 

Olá, Professora,

Não sei se você se lembrará de mim, fui sua aluna. Não fui a que tirei a melhor e nem a pior nota nas provas, não me destaquei nem por bem e nem por mal. Mas posso garantir que se alguém soube apreciar sua aula, esse alguém fui eu.

Meu intuito com essas informações não é parecer prepotente, deixe-me explicar.

Já sei que não será mais minha professora, então achei que era, por direito, te deixar saber a extrema importância que suas aulas tiveram, e ainda têm, em minha formação.

Alguns alunos reclamavam de sua maneira nada linear de ministrar e diziam que, apesar de exalar conhecimento, suas explicações confundiam a cabeça de todo mundo. Era uma das professoras mais temidas, com trabalhos mirabulosos que foram motivo de muitas noites regadas a pó de guaraná e muito desespero (digo isso por experiência própria). Suas avaliações eram sempre as mais complexas e geravam uma tensão pré-prova digna de dar início a uma gastrite nervosa ou impressionantes quedas de cabelo. Sem contar as questões que, depois de respondidas, eram discutidas fervorosamente nos corredores e refeitórios.

Porém aprendi, ainda quando nem conhecia seu estilo de aula direito, a entender sua maneira de ensinar e absorver (quase) tudo aquilo que tinha para nos passar. Eu era uma das alunas que sentava sempre e impreterivelmente em sua frente e fazia anotações de maneira frenética, sem deixar passar nenhuma vírgula de suas explicações. E pronto! Me achei! A partir do momento em que consegui prestar atenção, não tive mais muita dificuldade.

Me impressionava o tanto de livros de cor e salteado que você tinha na cabeça – não só o nome, mas também o autor e, não muito raro, algum trecho mais interessante. Saía de sua aula extremamente fascinada com sua inteligência e, ao mesmo tempo, me sentindo a pessoa mais burra deste universo – por não conhecer nem um terço daquele monte de variados assuntos que você parecia dominar com tamanha facilidade.

Esta seria uma revelação um tanto quanto tosca, se fosse só isso (mesmo porque, imagino que seja uma constante observação de muitos dos seus alunos), mas fico muito feliz de poder lhe dizer que não é.

Ficava perturbada, pensando no quão desinformada e desinteressada eu era e o mar de coisas que eu ainda tinha para aprender, o tanto de livros que ainda havia para ler (e eu que achava que lia muito). Mudei. Tive você como parâmetro e anotei cada autor e cada livro que era citado. Li muitos e muitos deles.

Gay Talese é hoje um dos meus autores favoritos e, por sua causa, tenho certeza de que estou no caminho certo, no curso certo. Ao longo dessa jornada de estudante tive inúmeros bons professores e, dentre eles, alguns poucos e ótimos que serão lembrados para sempre com muito carinho. Você, definitivamente, faz parte da categoria dos que marcaram, daqueles que serão reavivados na memória a cada conquista profissional, a cada bom livro lido.

Sempre pensei em te falar isso, mas sabe como são as coisas, deixamos tudo para depois. Também pensei que talvez fosse um pouco piegas demais e meio sem necessidade. Todavia, imaginei que se fosse professora, gostaria de saber que ajudei uma aluna a ser uma melhor profissional, estudante e pessoa. Ficaria feliz em saber que meu trabalho rendeu frutos fora de sala de aula.

Não sei o que o futuro reserva. Sem dúvida alguma, gostaria muito de ter você como professora novamente. Mas se assim não for, quero então que ao menos saiba que passou pelo caminho de alunos que foram influenciados e, mais do que isso, incentivados por você.

O que quero mesmo é te agradecer por ter me ajudado sem nem saber que o fazia. Foi um prazer inenarrável (como diria outro querido professor) ser sua aluna.

Obrigada.

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