"Faz as malas. Enchê-as de arrependimento e desesperança. De realidade ao invés de sonhos."

Por Ana Carolina Pereira

Como a vida é injusta! Já dizia o ditado: “Uns com tanto, outros com tão pouco”.

Cansou disso tudo, queria uma vida melhor. Sua patria é o Brasil, país tropical, país do carnaval, de belas morenas. País do samba, de belezas naturais, da mpb. Para quem quer felicidade e diversão, eis o lugar. Brasil. A vida real é mais cruel que isso. País corrupto, de muita gente e poucas oportunidades. A ambição é difícil de ser alcançada. Para “se dar bem” é preciso ralar muito, mas muito mesmo. Escola, colégio, graduação. Pós-graduação, mestrado, doutorado. Isso tudo combinado com muita sorte, boas decisões e, no mínimo, inglês obrigatório. Mas nem assim o futuro é garantido. Já dizia o ditado que “a oportunidade é uma velha careca que passa por você correndo e é precisso agarrá-la pelos cabelos”.

Quer fazer igual à vizinha de sua prima, que “se deu muito bem”. Quer ir para o tão falado e muito famoso Estados Unidos. País das oportunidades, das novidades e da tecnologia. País das cidades famosas, da boa economia, do inglês fluente. Lá, a oportunidade se transforma em charmosos taxis amarelos, restaurantes fast-food, diversão em parques temáticos, compras e filmes superproduzidos. Lá a vida é fácil, é bela e o orgulho de se ter nascido numa pátria de promessas está presente em bandeiras asteadas em todos os bairros, em frente à maioria das casas, representando a felicidade que não tem a ver com música, dança ou natureza. Representando o orgulho de ser um cidadão norte-americano com direito a escolas públicas de excelente qualidade, segurança policial extremamente confiável e cidadania invejável.

Faz sua mala cheia de sonhos e expectativas e vontade de se encontrar, de encontrar um lugar melhor, uma vida melhor, oportunidades. O destino: Nova York. Oito horas de viagem com direito a duas refeições de mesmo gosto, um pacotinho de amendoim e uma barrinha de cereal. Um terço na mão, pelo medo de morrer, do avião cair, e perder assim a chance de conhecer a vida que finalmente começará. Recomeçará. É como se reencarnasse, nascesse de novo. Vai aprender a andar, a falar. Outra cultura, outras pessoas, outras histórias. Sua única certeza é o visto no seu passaporte nunca antes carimbado, que expirará em três anos. Três anos: tempo suficiente para arrumar um trabalho, se estabelecer e conseguir o green card, garantindo assim visitas esporádicas à família, aos amigos, ao país, à vida que deixou para trás.

Aeroporto de Nova York. Ao pisar em solo Americano, sem nem ao menos o enxergar, já sente a diferença. Aquele cheiro, aquelas pessoas, aquela lingua. Passar pela alfândega, a parte mais difícil. O oficial, com cara de quem comeu e não gostou o fita como quem desconfia de suas intenções e com palavras secas, não fazendo a minima questão de se fazer entender, questiona o motivo de sua visita. O medo e a insegurança aparecem novamente, mas passada essa parte é só alegria!

As portas do aeroporto se abrem e para muitos, aquela situação é a volta para casa, a visita muito esperada ou a correria para terminar logo as reuniões de trabalho. Para ele, era a porta de abertura para a vida, para o começo, para o sonho.

Tudo é muito bonito e moderno. A sede de conhecer seu novo lugar, seu novo lar e patria é quase insaciável e digo “quase” pois após duas lentas semanas já se sabe direitinho aonde e por onde ir e quais caminhos pegar. É chegada a hora de contar o dinheiro que ainda lhe resta e buscar a velha careca que alí lhe parece bem cabeluda. As oportunidades tão visíveis e táteis parecem fugir a cada tentativa e as intensões de arrumar um cargo bom, em uma boa empresa, explorando todo o seu potencial, já não lhe causa mais tamanha expectativa. Já se contenta com um emprego mais simples, um cargo mais baixo, quase como um estagiário e, mesmo assim, difícil de conseguir.

Na realidade do seu lugar dos sonhos, as pessoas são sizudas, apressadas, emburradas. Todos são estilosos, as mulheres andam de tênis e levam nas mochilas seus sapatos de salto alto, mas a beleza da estética não reflete a personalidade. Para quem está acostumado com a simpatia de cidadãos brasileiros solícitos, tentar puxar assunto com um gringo metido é quase como tomar um soco no estômago.
As semanas vão se passando e as oportunidades, riscadas com caneta vermelha nos classificados dos jornais, viram pó. Já sente saudades de casa. Não tem amigos, não tem família, não tem trabalho.

O dinheiro acaba e, já sem escolhas, aceita um dos únicos empregos que lhe é oferecido. “Na falta de tu, vai tu mesmo”, já dizia o velho ditado. E percebe que ninguém mais ri dos seus velhos ditados. Alí, os ditados são outros, a língua é outra e as pessoas também. Ninguém o entende e nem quer entender. Ele é um simples imigrante, com muitos e muitos outros, que foi tentar tomar o lugar dos americanos no mercado de trabalho. É assim que pensam e é pensando assim que olham para ele na rua, no mísero prédio em que alugou um mísero apartamento. 
O jeito é aceitar a oportunidade nada promissora no restaurantezinho sujo do chinês. Lá, apenas imigrantes ilegais e esperançosos, assim como ele, vão comer o ensopado – que só Deus sabe do que é feito – por apenas 2 dólares. Ele ainda sonha com as oportunidades que insistem em não aparecer. Ele ainda vê magia no Central Park.

Central Park. Um dos mais famosos parques do mundo. Todos os dias muito bem frequentado: turistas, trabalhadores, pessoas se exercitando, fazendo pique-nique aos finais de semana. É como nos filmes, é mágico. Mas após alguns meses é só mais um parque. Aquele não é o seu lugar. Faz muito frio. As pessoas encapotadas na rua andam elegantemente, ele não se acostumou: sente suas mãos congelarem a cada vez que precisa tirá-las do bolso, sente o queixo tremer a cada passo, o nariz parece que vai cair. Isso não é vida.

A vida vira um pesadelo. As luzes da quinta avenida começam a incomodar, com anúncios de produtos, espetáculos, amigos, bares, bebidas. Uma visão um tanto quanto ilusória. E o ditado, que nunca o abandona, diz: “Se arrependimento matasse…”

Lembra da segurança que tinha no país da cocanha. Da família, dos amigos, do dinheirinho que, mesmo pouco, garantia o pão com manteiga. Lá, ele nunca estava sozinho. Entende que tomou uma decisão errada. 
Aquele que ia buscar uma nova vida, ser uma melhor pessoa, agora liga pedindo ajuda, quer voltar. Com uma vaquinha, feita por aqueles que o querem de volta, compra uma passagem.

Faz as malas. Enchê-as de arrependimento e desesperança. De realidade ao invés de sonhos. Deixa aquela cidade que nunca o acolheu. A realidade é fria como a neve que cai sobre cabeças e lá só tem lugar para quem é de lá. Para os outros é bonito quando distante, quando diferente, quando sonhado.

Aeroporto de Salvador. Só de pisar em solo soteropolitano já reconhece. Aquele cheiro, aquele clima, aquelas pessoas. O aconchego, a dificuldade e a felicidade. Está em casa, meio humilhado, meio cabisbaixo, mas em casa. Alí é seu lugar, aquela é a sua gente. Voltou. Mas não para sua velha vida, agora é diferente, cresceu, amaduresceu, aprendeu a dar valor.
A velha oportunidade continua careca e correndo. Nenhum lugar é perfeito, mas no seu lugar, naquele a qual pertence, com o qual se identifica, a esperança não morre e assim, cercado de sua gente, sua família e sua vida é que ele não só esperará a velha passar, mas correrá atrás dela com afinco. 
 
Seu sonho agora é outro: voltará a cidade de Nova York como turista para aproveitar a paisagem, a agitação, as compras e o frio. 
 
E então, lembra do velho ditado que diz: “quem canta seus males espanta” e alí todos sabem do que ele está falando. As dificuldades que os perseguem na vida viram letras de samba, cantadas com sofrimento e sorriso, sambada por morenas, admirando a vista de praias. Isso que é vida, isso que é sonho, sonho brasileiro.

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