Por Ana Carolina Pereira
"Poderia ser cena de filme, mas chega a ser patético aos olhos de quem nada entende"

Estranhos. Ouso dizer ‘engraçados’ aqueles encontros no meio da multidão. Um rosto conhecido, há muito não visto. Uma lembrança vaga que acarreta em um sorriso.

O nome, o cheiro, os sentidos. Tudo volta à lembrança em segundos e nem se percebe os esbarrões. Entre nós e a nossa vergonha ou temor de aproximação abre-se um caminho de pessoas apressadas, bravas, agitadas, focadas em seus afazeres. O barulho dos carros, dos passos, do vento parece calar. Poderia ser cena de filme, mas chega a ser patético aos olhos de quem nada entende. As pessoas transformam-se em borrões e de tempos em tempos é possível enxergar ao outro do outro lado. É como uma dança. E estamos lá, estáticos, a espera de algo que nem sabemos o que é.

Naquele espaço, aquele caminho, aquele vão feito entre duas pessoas assim, no meio da rua, há uma história. Uma não, duas. Histórias que se cruzaram e formaram uma só, comum. E que depois se desfez, formando duas novamente. Conheceu-se tanto e agora não se conhece nada. Estranho como as coisas são. E tudo isso passa pela cabeça em segundos que parecem eternos. Uma vontade enorme de correr e pular naqueles velhos conhecidos braços e contar a vida inteira num café charmoso até que fique tarde o suficiente para não medir consequências e não responder pelos próprios atos.

Mas ainda é cedo, poucas horas da manhã. O dia ainda nem começou. A vontade que a milésimos de segundos nos parecia coerente, expressada no brilho dos olhos que nunca soube e nada consegue esconder, agora se reprime em um baixar de cabeça, meio sem graça, meio sem jeito, nada novo para ambos.

Nossa conversa foi feita de expressões, cada diferente sorriso era uma palavra. Não precisamos de mais nada para entender e seguimos o fluxo, nosso caminho. Dois rostos se apagando no meio da multidão.

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