Especial ‘Diário de bordo’
- Ponte de Londres - "Dizem que o nublado de Londres escurece também seus moradores..."

Por Ana Carolina Pereira

Já passa da 1 hora da manhã (no Brasil era apenas 9 horas da noite) quando recosto a cabeça no travesseiro. O corpo sofre um incalculável desconforto ao tentar se adaptar ao novo fuso horário. Para isso deveria haver uma pílula, uma bebida, algo que fosse mais eficiente do que o chato cansaço pós-voo que me deixa grogue o suficiente para não conseguir trocar ideias que façam sentido, mas não para conseguir dormir a qualquer hora.

Programo o telefone do hotel para despertar bem cedo, assim como a televisão e o celular, motivados pelo medo de acordar ao meio dia e perder um dia em Londres.  

4 horas da manhã. Acordo com um barulho ensurdecedor. Meio tonta, aperto com todas as minhas forças o controle remoto pensando ser a televisão já despertando. Engano meu, é o alarme de incêndio. Corremos, eu e minha prima – fiel companheira de viagens – de um lado pro outro: Pegar as malas, deixar as malas, colocar uma roupa decente, um casaco pelo menos. Não, não, melhor sair assim mesmo, melhor do que morrer carbonizada.

No corredor um bando de pessoas semi nuas em seus baby-dolls e samba-canções. Cada um falando seu idioma, atordoadas. O alarme cessa. Cabeça de novo no travesseiro e…nada! 

nona sinfonia de Beethoven?  Hãm? Ah, sim, agora é a TV. São 7 horas da manhã. Será que eu dormi? Pareceu que apenas pisquei. Se não fosse por uma boa causa, certamente não abandonaria a tentadora cama.

“Pegou o guarda chuva?” Alerta o já experiente recepcionista. “Pra quê? Olha que lindo dia!” Dá um sorrisinho meio de lado que só vou entender depois, na parte de cima de um ônibus a céu aberto. Programa de turista é assim mesmo: ônibus de 2 andares que percorre a cidade toda dando ênfase aos pontos mais conhecidos. Como guia um fone de ouvido que, conectado ao veículo, conta a história da cidade em 8 idiomas diferentes, à escolha do freguês (passageiro, no caso).

‘Aqui morou John Lennon e Yoko Ono’, ‘aqui foi composta a canção Yesterday’, ‘aqui Paul McCartney se inspirava’ etc. Sorte minha gostar tanto de Beatles, senão estaria encrencada. Mas não é só isso. ‘My fair lady’ com Audrey Hepburn, St. Paul’s Cathedral, William Shakespeare. Para os mais românticos (e para uma tia minha em particular) conheci Notting Hill e passei pela ponte de Londres e muito, muito mais. Tudo que me era, de alguma forma, conhecido, toma forma sob meus pés e sobre minha cabeça. Várias paradas, longas caminhadas, muita observação.

Charmosas ruelas enfeitadas de flores que sorriem com o revezar da chuva e do sol. É fácil distinguir turistas de ingleses, mas se não fosse pelas vestes de lazer e trabalho difícil seria. Dizem que o nublado de Londres escurece também seus moradores, mas só presencio sorrisos amigáveis, mesmo com violentos e ocasionais encontrões ao atravessar a rua.

"Charmosas ruelas enfeitadas de flores que sorriem com o revezar da chuva e do sol"

A beleza está em todo lugar, perde-se muito com apenas um piscar de olhos. Meus conhecimentos sobre a cidade ainda são muito superficiais, minha vontade era ficar por aqui por mais uns belos anos para explorar cada detalhe, afinal, como disse uma vez Samuel Johnson, “when a man is tired of London, he is tired of life”.

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