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Escrevo, depois apago

Não fui eu, foi meu eu-lírico

mês

outubro 2010

Ponto de observação

"Muitos prédios comerciais já estão com suas portas fechadas, mas as luzes da rua não me deixam notar que já passa das nove da noite"

 

Passa ônibus, passa ônibus, passa ônibus. Nunca é o meu, lógico! E no meio de um raciocínio: “Pipoca, amendoim, docinho de caju. Um real moça, vai aí?” “Obrigada” respondo sorrindo, reflexo do riso interno, afinal, era exatamente nisso que pensava. Não na pipoca ou no amendoim. Muito menos no docinho de caju. Mas nas personagens que aqui se encontram.

Tem de tudo: um menino ensina história à amiga não muito interessada com explicações como “e foi aí que a guerra fudeu tudo mesmo…”; um mendigo declama em dialeto próprio o que imagino ser, no mínimo, uma poesia ou algum ato de dramática peça, devido à expressiva interpretação; um casal de meninos modernos desfila exuberantes e apertadas calças ao passear com seu poodle de estimação; uma menina sai do McDonald’s com três sacos de lanche para viagem e me pergunto como se equilibrará no ônibus se suas pequenas mãos não dão conta nem de segurar a bolsa caindo do ombro.

Pessoas saindo do trabalho, cansadas. Jovens decidindo a balada, animados. Um fone de ouvido gigantesco me chama a atenção. Não por ser enorme, mas por sua cor. Laranja, combinando com a camiseta do esbelto cidadão fazendo Cooper.

Muitos prédios comerciais já estão com suas portas fechadas, mas as luzes da rua não me deixam notar que já passa das nove da noite. Táxis, carros e ônibus competindo com pedestres que teimam em ameaçar atravessar no sinal vermelho. Pézinhos inquietos com sapatos de todo tipo, melhor do que um desfile de moda.

Uma figura que não consigo definir o sexo coloca seu chapéu, afina a sanfona e depois de um longo suspiro toca o primeiro acorde. O show vai começar.

Ôpa, meu ônibus chegou logo agora! Vou para casa. (quase) Uma pena! Conto as moedas e, já com o pé apoiado no primeiro degrau, olho para trás quase que com pesar.

Parece estranho, mas é o efeito que a Avenida Paulista sempre causa em mim.

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No dia 25 de outubro de 2010, além de tudo, choveu.

Uma passou o dia fitando o celular que insistia em não tocar. Preocupada, fez pensamento positivo, segurou o choro e se arrastou quase como na inércia para a sala de aula. A rotina doía. O trabalho era sem graça e a volta para casa não continha emoção alguma. Precisava, no mínimo, beber.

A outra sentia saudades daquilo que mal acabara de perder e olhava para tudo com ares nostálgicos. Passou o dia aguentando as pontas, se convencendo de que seria bom e, com um sorriso no rosto, tentou exercer a simpatia e praticar o desapego. Sem sucesso. Ao fim do dia estava decepcionada, arrasada, desesperançosa e desanimada. Precisava beber.

Os caminhos se cruzaram. Era inevitável devido a tamanha similaridade de acontecimentos desastrosos.

Uma se arrastou na chuva até o prédio da outra e a outra se arrastou até o portão. A falta de empolgação no cumprimento não deixava expressar quão importante era aquele encontro: “Meu dia foi uma merda e o seu?” a sinceridade não mais impressionava. Sabiam que não precisavam fingir sorrisos. Pediram pizza, abriram uma cerveja, duas, três… E sentadas em banquetas na cozinha empesteada de fumaça de nicotina contaram suas tragédias pessoais. Pela primeira vez aquelas histórias tinham risos como trilha sonora. Riam e riam muito, quase gargalhavam a cada nova má notícia, por desespero, por desistência, falta de forças ou talvez simplesmente por já não haver mais lágrimas. “Acho que Deus existe sim, mas é muito sarcástico” concluiu a outra. 

O páreo era duro se fossem competir para ver quem estava mais ‘fudida’ (com o perdão do bom português). Comeram, beberam, fumaram, riram. Não choraram. Aquela conversa dramática era a melhor coisa que lhes acontecia no dia, o momento de maior frescor, por mais pesado que fosse. Assistiram a programas ruins na televisão e, por um rápido momento, torceram para que a ‘Tela Quente’ exibisse um filminho água-com-açúcar, de sessão da tarde, para chorar. Mas nem a programação televisiva deu ouvidos a seus pedidos.

Uma tomou banho, a outra cochilou no sofá. Colocaram seus pijamas, se juntaram às outras amigas e, até duas horas da manhã, se divertiram com histórias, fofocas e questões alheias. Uma resolveu que já era hora de dormir. A outra nem tirou a maquiagem. Guardaram as latas de cerveja, esvaziaram os cinzeiros e se recolheram. Dormir era como chegar ao paraíso. O despertador foi solidário ao resolver não despertar às sete horas da manhã. Então, até às nove, do jeito que caíram na cama ficaram. Não reclamaram. O apartamento não exibia sinais das confissões e afogamento de mágoas. Outro dia começava. Com as mesmas merdas que o dia anterior guardara. Mas alguma coisa estava muito diferente.

Se arrastaram até o portão, uma carregava a chave como se carregasse a vida, pesada, a outra carregada de malas e livros e obrigações. Se arrastavam para o dia, ou o dia as arrastava. O cumprimento foi mais caloroso. Um abraço apertado, mostrando compreensão e as últimas palavras balbuciadas, difícies de serem entendidas – mas que queriam dizer que não estavam sozinhas -, deram forças para pisar no mundo real e começar tudo novamente, rezando para que o dia 26 de outubro de 2010 fosse inúmeras vezes melhor do que o dia anterior e que assim fosse dia após dia.

Fardo de escritor

"Se dava melhor com palavras do que com pessoas..."

Aquela sensação de desânimo, apatia e quase-depressão batia novamente. Sempre acontecia quando se via muito tempo em casa, mesmo que atarefada. Às vezes quando à toa isso também incomodava, mas acho que mais mesmo quando o encontro com outras pessoas era raro, escasso. Aí então começava a lembrar de coisas que não devia e a criar uma saudade que já não mais existia. Tornava a doer a ferida que há muito já cicatrizara e nada parecia confortar. Um incômodo sem nome, explicação ou sentido. 

Quando nessas sensações, o caminho já conhecia: dois cliques e a página em branco se abria. Chegou a conhecer as letras do teclado exatamente como conhecia o caminho do banheiro na noite escura e, sem maiores dificuldades, exprimia naquele vazio todo o sentido de sua vida. Ouso dizer que, de alguma maneira, com o branco se identificava e nele então se punha a confessar. Nunca ninguém foi tão seu amigo. Para ninguém nunca contou o que aquelas telas mudas sabiam. Achava que para entendê-la tão bem, só alguém que nada pudesse falar. No mundo real, com pessoas diferentes e sinceras demais, as opiniões às vezes doíam, outras eram completamente desnecessárias ou a tiravam do sério. Algumas até lhe davam sono.

Gente cansava. Eram poucos em quem podia confiar. Afinal, segredos são segredos por uma boa, ou certamente justa, causa. Se contados, não mais fariam sentido.

Aquele brilho que carregava nos olhos enfim se fez decifrar: eram as dores, amores, temores, lembranças e alegrias que insistia em somente para si guardar. E sentada – na maioria das vezes vestindo seus pijamas, meias confortáveis, cabelo bagunçado, rosto amaçado e postura relaxada – em frente àquela página se fazia completar com palavras resgatadas de não sei de onde, verdadeiras. 

E toda aquela sintaxe, coerência, coesão, acentos agudos, circunflexos, com ou sem hífen e já sem a falecida trema, que a irracional máquina teimava em homenagear, era a única, num mundo de muitas outras possibilidades, capaz de, de novo, lhe trazer à vida. Fechava o moderno e pesado instrumento, semelhante a um enorme caderno, como se fechasse a porta de sua alma e seguia seu caminho. Seus comuns gestos, palavras e postura nunca fariam outrém desconfiar, mas o brilho no olhar. Era enfim uma escritora, com todo o bom e mau que aquilo poderia implicar. Se dava melhor com palavras do que com pessoas e este é o fardo que escritores têm que carregar.

Arteiro fugitivo, o melhor amigo do homem

"Não é a primeira vez que o cachorro foge. Da outra vez, sumiu por seis meses de árdua e incessante procura"

 Seis e meia da tarde. Sentada num ponto de ônibus vazio. Sexta feira, véspera de feriado. O ônibus demora mais que o esperado e já sei que o caminho de volta para casa não será muito diferente. O carro vermelho com um motorista bocejante está parado em minha frente e há mais dez minutos não se moveu nem um único centímetro. Uma espera monóóótona.

Eis que amarrado a uma cordinha improvisada passeia um espivetado e tanto quanto alegre vira-lata. Seu dono, mais espivetado e alegre ainda, conversa com o bicho como quem passa sermão em uma criança arteira. Sorrio ao ver a cena que, dotada de uma peculiaridade sentimental, me comove.

Alertado pelo sorriso, o moço puxa o cachorro para o meu lado da calçada e como que convidado a falar, conta fragmentos de sua história: “acabei de achar, tava fugido”. Não é a primeira vez que o cachorro foge. Da outra vez, sumiu por seis meses de árdua e incessante procura. Agora foram só dois dias. “Ele era de rua e como sei que fica sempre com os mendigos, foi fácil de achar, fui lá para baixo do minhocão”. Expresso contentamento com a notícia e ele balança a cabeça com sentimento de missão cumprida, satisfeito. “Não teve jeito, saí para trabalhar e ele correu atrás, acabou foi se perdendo. Pior que o outro, grandão, fica chorando lá em casa. Mas hoje vai ficar feliz e eu aliviado, fiz o dia dele e ganhei o meu!”

Vestia um colete com um logo de marca de pneu e sujo de graxa, presumo que seja borracheiro. Ele sai  sem se despedir feliz e contente, voltando a dar bronca no recém-encontrado. A última coisa que ouço é “e nada de roer suas coleiras de novo”. Os dois companheiros seguem seu caminho e eu sigo o meu. Sorrindo.

Reflexo torto

"Fita a si mesmo no espelho – como exercício de comparação - como se olhasse para uma outra fotografia, mais recente, atual"

O rosto, por mais que cinco anos mais novo – e calcula uns dez quilos mais fino -, ainda reconhece. Os traços são praticamente os mesmos, moldados por um corte de cabelo pouca coisa mais recatado. São os olhos, dotados de uma alegria sem fim, fruto de conhecer coisas novas, almejando novas experiências e brilhando de medo gostoso do que ainda há por vir, que mais incomodam. Fita a si mesmo no espelho – como exercício de comparação – como se olhasse para uma outra fotografia, mais recente, atual. O que vê nos mesmos traços, mesmo cabelo e um piercing a menos são novos sonhos (mais reais), diferentes desejos (mais carnais), medos (mais irracionais) e muito mais sede de conhecimento. A média disso tudo chega a ser positiva, mas algo ainda o atormenta.

Pergunta-se em que curva do caminho aquela ânsia de fazer a diferença, mínima que fosse, de mudar o mundo e ser imensuravelmente feliz se perdeu. Os olhos do espelho mostram um insensato cansaço para um alguém de vinte e um anos de idade, que se contenta em assistir a seriados na televisão paga nas noites de sábado, evita constantemente o telefone e, com os pés no chão, perdera a ambição de abraçar o mundo tendo apenas dois curtos braços.

Escova os dentes, penteia os cabelos. Vira o rosto de um lado para o outro. Observa a foto de novo, dessa vez mais de perto, fixa os olhos no sorriso meio tímido, de canto de boca. Assim poderia ficar o dia todo. O relógio alarma a chegada de uma hora cheia. Lembra do compromisso e, sem esperanças de voltar à lembrança o motivo coerente para tanto brilho no olhar, guarda a foto na gaveta e sai correndo, apressado, atrasado.

Apontamentos sobre alguém que não conheci

"Quando as ideias são tantas, o autor não se contenta com apenas caneta e papel como extensão do trabalho ininterrupto de um cérebro repleto de personagens"

Letras na parede para melhor visualizar a imaginação. Quando as ideias são tantas, o autor não se contenta com apenas caneta e papel como extensão do trabalho ininterrupto de um cérebro repleto de personagens. O café já não faz mais efeito e até atrapalha, agitando ao invés de colocar as narrativas em seu lugar. Assim sendo, Jack Daniel’s fez as vezes da bebida enquanto lia clássicos como A Odisséia, Os Lusíadas e a Bíblia.

‘O problema do coração humano em conflito consigo mesmo’ sempre o intrigou e, ironicamente, o levou a um ataque cardíaco. Este, fulminante, tirou a vida de William Faulkner, mas jamais apagará a memória dos rabiscos na parede, imortalizados em seus dezessete inovadores livros recheados de morte, ganância e depravação.

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