"Fita a si mesmo no espelho – como exercício de comparação - como se olhasse para uma outra fotografia, mais recente, atual"

O rosto, por mais que cinco anos mais novo – e calcula uns dez quilos mais fino -, ainda reconhece. Os traços são praticamente os mesmos, moldados por um corte de cabelo pouca coisa mais recatado. São os olhos, dotados de uma alegria sem fim, fruto de conhecer coisas novas, almejando novas experiências e brilhando de medo gostoso do que ainda há por vir, que mais incomodam. Fita a si mesmo no espelho – como exercício de comparação – como se olhasse para uma outra fotografia, mais recente, atual. O que vê nos mesmos traços, mesmo cabelo e um piercing a menos são novos sonhos (mais reais), diferentes desejos (mais carnais), medos (mais irracionais) e muito mais sede de conhecimento. A média disso tudo chega a ser positiva, mas algo ainda o atormenta.

Pergunta-se em que curva do caminho aquela ânsia de fazer a diferença, mínima que fosse, de mudar o mundo e ser imensuravelmente feliz se perdeu. Os olhos do espelho mostram um insensato cansaço para um alguém de vinte e um anos de idade, que se contenta em assistir a seriados na televisão paga nas noites de sábado, evita constantemente o telefone e, com os pés no chão, perdera a ambição de abraçar o mundo tendo apenas dois curtos braços.

Escova os dentes, penteia os cabelos. Vira o rosto de um lado para o outro. Observa a foto de novo, dessa vez mais de perto, fixa os olhos no sorriso meio tímido, de canto de boca. Assim poderia ficar o dia todo. O relógio alarma a chegada de uma hora cheia. Lembra do compromisso e, sem esperanças de voltar à lembrança o motivo coerente para tanto brilho no olhar, guarda a foto na gaveta e sai correndo, apressado, atrasado.

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