"Não é a primeira vez que o cachorro foge. Da outra vez, sumiu por seis meses de árdua e incessante procura"

 Seis e meia da tarde. Sentada num ponto de ônibus vazio. Sexta feira, véspera de feriado. O ônibus demora mais que o esperado e já sei que o caminho de volta para casa não será muito diferente. O carro vermelho com um motorista bocejante está parado em minha frente e há mais dez minutos não se moveu nem um único centímetro. Uma espera monóóótona.

Eis que amarrado a uma cordinha improvisada passeia um espivetado e tanto quanto alegre vira-lata. Seu dono, mais espivetado e alegre ainda, conversa com o bicho como quem passa sermão em uma criança arteira. Sorrio ao ver a cena que, dotada de uma peculiaridade sentimental, me comove.

Alertado pelo sorriso, o moço puxa o cachorro para o meu lado da calçada e como que convidado a falar, conta fragmentos de sua história: “acabei de achar, tava fugido”. Não é a primeira vez que o cachorro foge. Da outra vez, sumiu por seis meses de árdua e incessante procura. Agora foram só dois dias. “Ele era de rua e como sei que fica sempre com os mendigos, foi fácil de achar, fui lá para baixo do minhocão”. Expresso contentamento com a notícia e ele balança a cabeça com sentimento de missão cumprida, satisfeito. “Não teve jeito, saí para trabalhar e ele correu atrás, acabou foi se perdendo. Pior que o outro, grandão, fica chorando lá em casa. Mas hoje vai ficar feliz e eu aliviado, fiz o dia dele e ganhei o meu!”

Vestia um colete com um logo de marca de pneu e sujo de graxa, presumo que seja borracheiro. Ele sai  sem se despedir feliz e contente, voltando a dar bronca no recém-encontrado. A última coisa que ouço é “e nada de roer suas coleiras de novo”. Os dois companheiros seguem seu caminho e eu sigo o meu. Sorrindo.

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