"Se dava melhor com palavras do que com pessoas..."

Aquela sensação de desânimo, apatia e quase-depressão batia novamente. Sempre acontecia quando se via muito tempo em casa, mesmo que atarefada. Às vezes quando à toa isso também incomodava, mas acho que mais mesmo quando o encontro com outras pessoas era raro, escasso. Aí então começava a lembrar de coisas que não devia e a criar uma saudade que já não mais existia. Tornava a doer a ferida que há muito já cicatrizara e nada parecia confortar. Um incômodo sem nome, explicação ou sentido. 

Quando nessas sensações, o caminho já conhecia: dois cliques e a página em branco se abria. Chegou a conhecer as letras do teclado exatamente como conhecia o caminho do banheiro na noite escura e, sem maiores dificuldades, exprimia naquele vazio todo o sentido de sua vida. Ouso dizer que, de alguma maneira, com o branco se identificava e nele então se punha a confessar. Nunca ninguém foi tão seu amigo. Para ninguém nunca contou o que aquelas telas mudas sabiam. Achava que para entendê-la tão bem, só alguém que nada pudesse falar. No mundo real, com pessoas diferentes e sinceras demais, as opiniões às vezes doíam, outras eram completamente desnecessárias ou a tiravam do sério. Algumas até lhe davam sono.

Gente cansava. Eram poucos em quem podia confiar. Afinal, segredos são segredos por uma boa, ou certamente justa, causa. Se contados, não mais fariam sentido.

Aquele brilho que carregava nos olhos enfim se fez decifrar: eram as dores, amores, temores, lembranças e alegrias que insistia em somente para si guardar. E sentada – na maioria das vezes vestindo seus pijamas, meias confortáveis, cabelo bagunçado, rosto amaçado e postura relaxada – em frente àquela página se fazia completar com palavras resgatadas de não sei de onde, verdadeiras. 

E toda aquela sintaxe, coerência, coesão, acentos agudos, circunflexos, com ou sem hífen e já sem a falecida trema, que a irracional máquina teimava em homenagear, era a única, num mundo de muitas outras possibilidades, capaz de, de novo, lhe trazer à vida. Fechava o moderno e pesado instrumento, semelhante a um enorme caderno, como se fechasse a porta de sua alma e seguia seu caminho. Seus comuns gestos, palavras e postura nunca fariam outrém desconfiar, mas o brilho no olhar. Era enfim uma escritora, com todo o bom e mau que aquilo poderia implicar. Se dava melhor com palavras do que com pessoas e este é o fardo que escritores têm que carregar.

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