Uma passou o dia fitando o celular que insistia em não tocar. Preocupada, fez pensamento positivo, segurou o choro e se arrastou quase como na inércia para a sala de aula. A rotina doía. O trabalho era sem graça e a volta para casa não continha emoção alguma. Precisava, no mínimo, beber.

A outra sentia saudades daquilo que mal acabara de perder e olhava para tudo com ares nostálgicos. Passou o dia aguentando as pontas, se convencendo de que seria bom e, com um sorriso no rosto, tentou exercer a simpatia e praticar o desapego. Sem sucesso. Ao fim do dia estava decepcionada, arrasada, desesperançosa e desanimada. Precisava beber.

Os caminhos se cruzaram. Era inevitável devido a tamanha similaridade de acontecimentos desastrosos.

Uma se arrastou na chuva até o prédio da outra e a outra se arrastou até o portão. A falta de empolgação no cumprimento não deixava expressar quão importante era aquele encontro: “Meu dia foi uma merda e o seu?” a sinceridade não mais impressionava. Sabiam que não precisavam fingir sorrisos. Pediram pizza, abriram uma cerveja, duas, três… E sentadas em banquetas na cozinha empesteada de fumaça de nicotina contaram suas tragédias pessoais. Pela primeira vez aquelas histórias tinham risos como trilha sonora. Riam e riam muito, quase gargalhavam a cada nova má notícia, por desespero, por desistência, falta de forças ou talvez simplesmente por já não haver mais lágrimas. “Acho que Deus existe sim, mas é muito sarcástico” concluiu a outra. 

O páreo era duro se fossem competir para ver quem estava mais ‘fudida’ (com o perdão do bom português). Comeram, beberam, fumaram, riram. Não choraram. Aquela conversa dramática era a melhor coisa que lhes acontecia no dia, o momento de maior frescor, por mais pesado que fosse. Assistiram a programas ruins na televisão e, por um rápido momento, torceram para que a ‘Tela Quente’ exibisse um filminho água-com-açúcar, de sessão da tarde, para chorar. Mas nem a programação televisiva deu ouvidos a seus pedidos.

Uma tomou banho, a outra cochilou no sofá. Colocaram seus pijamas, se juntaram às outras amigas e, até duas horas da manhã, se divertiram com histórias, fofocas e questões alheias. Uma resolveu que já era hora de dormir. A outra nem tirou a maquiagem. Guardaram as latas de cerveja, esvaziaram os cinzeiros e se recolheram. Dormir era como chegar ao paraíso. O despertador foi solidário ao resolver não despertar às sete horas da manhã. Então, até às nove, do jeito que caíram na cama ficaram. Não reclamaram. O apartamento não exibia sinais das confissões e afogamento de mágoas. Outro dia começava. Com as mesmas merdas que o dia anterior guardara. Mas alguma coisa estava muito diferente.

Se arrastaram até o portão, uma carregava a chave como se carregasse a vida, pesada, a outra carregada de malas e livros e obrigações. Se arrastavam para o dia, ou o dia as arrastava. O cumprimento foi mais caloroso. Um abraço apertado, mostrando compreensão e as últimas palavras balbuciadas, difícies de serem entendidas – mas que queriam dizer que não estavam sozinhas -, deram forças para pisar no mundo real e começar tudo novamente, rezando para que o dia 26 de outubro de 2010 fosse inúmeras vezes melhor do que o dia anterior e que assim fosse dia após dia.

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