"Muitos prédios comerciais já estão com suas portas fechadas, mas as luzes da rua não me deixam notar que já passa das nove da noite"

 

Passa ônibus, passa ônibus, passa ônibus. Nunca é o meu, lógico! E no meio de um raciocínio: “Pipoca, amendoim, docinho de caju. Um real moça, vai aí?” “Obrigada” respondo sorrindo, reflexo do riso interno, afinal, era exatamente nisso que pensava. Não na pipoca ou no amendoim. Muito menos no docinho de caju. Mas nas personagens que aqui se encontram.

Tem de tudo: um menino ensina história à amiga não muito interessada com explicações como “e foi aí que a guerra fudeu tudo mesmo…”; um mendigo declama em dialeto próprio o que imagino ser, no mínimo, uma poesia ou algum ato de dramática peça, devido à expressiva interpretação; um casal de meninos modernos desfila exuberantes e apertadas calças ao passear com seu poodle de estimação; uma menina sai do McDonald’s com três sacos de lanche para viagem e me pergunto como se equilibrará no ônibus se suas pequenas mãos não dão conta nem de segurar a bolsa caindo do ombro.

Pessoas saindo do trabalho, cansadas. Jovens decidindo a balada, animados. Um fone de ouvido gigantesco me chama a atenção. Não por ser enorme, mas por sua cor. Laranja, combinando com a camiseta do esbelto cidadão fazendo Cooper.

Muitos prédios comerciais já estão com suas portas fechadas, mas as luzes da rua não me deixam notar que já passa das nove da noite. Táxis, carros e ônibus competindo com pedestres que teimam em ameaçar atravessar no sinal vermelho. Pézinhos inquietos com sapatos de todo tipo, melhor do que um desfile de moda.

Uma figura que não consigo definir o sexo coloca seu chapéu, afina a sanfona e depois de um longo suspiro toca o primeiro acorde. O show vai começar.

Ôpa, meu ônibus chegou logo agora! Vou para casa. (quase) Uma pena! Conto as moedas e, já com o pé apoiado no primeiro degrau, olho para trás quase que com pesar.

Parece estranho, mas é o efeito que a Avenida Paulista sempre causa em mim.

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