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Escrevo, depois apago

Não fui eu, foi meu eu-lírico

mês

novembro 2010

Elas são elas.

“Apesar de descontente com seu sexo desde os onze anos de idade, Rogéria foi Vitório até os vinte e só então resolveu sair de casa e fazer aquilo que mais tinha vontade: ser mulher”

Elas têm como ponto a rua em que trabalho. Com roupas justas e curtíssimas, as travestis do bairro do Butantã começam a jornada às onze da manhã e não têm hora para acabar.

De longos cabelos loiros, muito bem tratados e escovados, Rogéria trabalha na esquina de duas conhecidas ruas e, faça chuva ou faça sol, lá está ela esperando o cliente do dia. Enquanto este não aparece, passa o tempo conversando alto com duas amigas com quem divide a esquina. “Antes, cada uma tinha seu espaço e dava muita briga quando alguém roubava o programa da outra. Mas hoje não temos mais esse tipo de problema, porque, gata, você nem imagina o tanto de gente que aparece por aqui. Já virou ponto famoso, então a gente fica tudo junto, conversando, é até mais legal”, conta. O horário de maior movimento é entre meio dia e duas da tarde. Carros luxuosos ou caindo aos pedaços – vez por outra até motos – pilotados por quarentões, velhos, moços, casados, solteiros, bonitos, feios, gordos, magros. Clientes de todo o tipo aparecem todos os dias, impreterivelmente. Rogéria nunca fica sem trabalho: “já até me acostumei com essa vida, chega a ser cômodo, sabe? Ganho minha grana, tenho minhas amigas, moro com dignidade, dessa parte de custos não tenho muito do que reclamar, não”.

Mas a história de Rogéria vai muito além dos seis anos de trabalho na rua. Seus 75 quilos são distribuídos em um porte alto entre seios fartos, pernas tonificadas e barriga tanquinho. Os ombros largos se devem à natação, esporte que praticava quando criança. Uma criança chamada Vitório. “Seria mais lógico mudar meu nome para Vitória, né? Mas eu sou assim, não gosto de ser previsível”.

Apesar de se identificar com o sexo feminino desde os onze anos de idade, Rogéria foi Vitório até os vinte e só então resolveu sair de casa e ser aquilo que realmente é: mulher. “É muito difícil pros meus pais. Faz nove anos que saí de casa e faz oito que não vejo minha mãe. É o preço que tenho que pagar”. Rogéria, que escolheu o nome inspirada no famoso ator transformista, sonha com a cirurgia de redesignação sexual. Foi assim que entrou para o mundo da prostituição: “Para tirar meu ‘penduradinho’ fora, precisava de dinheiro. Para conseguir dinheiro, tinha que trabalhar. Para trabalhar, tinha que ter estudado. E isso eu não fiz direito, nunca gostei e não quis ir pra faculdade, não. Aí conheci umas travestis que me ofereceram um canto na esquina delas. Foi simples assim. Aí quando a gente tá assim, na rua, eles (os clientes) procuram menina (mulher) ou boneca (travesti). Não dá para ser ex-boneca. Então resolvi adiar um pouco a cirurgia, sabe? Melhor assim”.

O começo foi muito difícil. Rogéria chorava todas as noites depois de um dia cheio de clientes e chegou a pensar em voltar para casa. “Não voltei, não. Não voltei. Não dava, se voltasse, tinha que voltar a ser um menino e isso eu não queria ser, não mais”. Fez, então, um pacto consigo mesma e estabeleceu alguns limites para cuidar de si: “só pego um cliente por dia. Mais que isso não dá. Por isso cobro muito caro mesmo, sem dó. Aí não caio na onda das drogas também. Tem colega minha que pra aguentar o tranco de cinco, seis programas por dia, começou a se encher de drogas e isso para mim eu não quero não. Já não basta tudo que a gente passa na mão desses ogros, eu tenho meus limites, tem coisa que não dá”.

Nas horas livres, Rogéria vai à academia, cuida do cabelo, compra roupas novas e assiste a novelas e filmes no aconchego de sua casa. “Agora que moro sozinha, pintei algumas paredes de rosa e nelas coloquei algumas fotos de minha mãe. É uma maneira de eu não esquecer de onde vim”. Seus olhos se enchem d’água e todo aquele exagero de gestos e sotaque, de gargalhadas e berros de repente se esvaem e a imagem de travesti descolada e atrevida dá lugar à menina desamparada que faz bico a fim de engolir o choro e manter a pose no alto dos 15 centímetros de seu salto agulha.

Muito lentamente, um moderno e luxuoso carro faz a volta no final da rua e, como quem não quer nada, se aproxima da esquina. Rogéria logo percebe. Rapidamente enxuga o ensaio de lágrima, joga os belos cabelos para o lado, aumenta consideravelmente o decote e, com muita simpatia, cochicha: “’Menine’, tenho que ir. Mas depois te conto mais, tá?”. Com muita classe e glamour, ela derrama os seios na janela do carro e a última coisa que ouço é “não, gatinho, isso aí eu não faço, não. Mas você não vai se arrepender”.

Sigo meu caminho e, observando todas aquelas Rogérias, Vitórias, Wanessas e Simones. Minha caminhada de todo o dia até o ponto de ônibus nunca mais será a mesma. Minha maneira de pensar também.

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Cotidiano

Não sou eu! Não sou eu! Suspirou visivelmente aliviado com os braços levantados segurando na barra de ferro para não desequilibrar. Com o objetivo de ajudar, o mais alto abriu a tampa do teto, mas o mau cheiro se espalhava com o vento que entrava pelas pequenas janelas e como quando alguém boceja, o ato de levar o nariz disfarçadamente para debaixo do próprio braço se espalhou como vírus.

O resultado levava a um sorriso meio sem graça, envergonhado, porém aliviado e o inevitável olhar para os lados a fim de identificar o ‘culpado’ foi em vão. Este soube esconder sua culpa muito bem em um sorriso forçado ou, no mínimo, nem percebeu a silenciosa comoção enquanto babava no ombro de algum desconhecido sentado ao lado.

Drinking a new beginning

And after 3 glasses of scotch she confesses: “Sometimes I become a really annoying human being. I get stressed and I need to be alone to listen to my iPod, read my books and do some writing. When those times come, you won’t be allowed to be next to me. Well, maybe ‘allowed’ is not the right word, but… Believe me, I get so fucking rough you wouldn’t even recognize me! I’m sorry to tell you all those terrible things right away, but I guess it’s just wrong letting you figure it out on your own in a moment that I’ll be probably freaking out. So…I’ll understand if you decide not to see me anymore”.

She didn’t have to apologize or explain anything, he already knew. And he had decided to meet her again, over and over, even before she started talking. “Crazy Guy”, she concluded.

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