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Escrevo, depois apago

Não fui eu, foi meu eu-lírico

mês

dezembro 2010

Ano novo, dor de cabeça nova

Essa cobrança e pressão de que o ano que vem tem que ser melhor do que aquele que se encerra é uma coisa que me deixa mais nervosa do que animada para a tão esperada virada de 23h59 do dia 31 de dezembro para às 00h de 1º de janeiro. Fico preocupada em estar tudo perfeito.

Tenho que estar em cima de uma cadeira (quanto mais alto melhor, para o sucesso) pulando com o pé direito – para começar bem – sem deixar cair a champagne e com a lentilha já preparada na colher. Com o mesmo pé direito é de lei pular as sete ondinhas ou, no mínimo, atravessar a rua pulando (ida e volta). Ainda com ele, já quase calejado, dar umas voltas com uma mala (sinal de que viajará muito no ano novo) recheada de livros (significando conhecimento e aprendizado). A primeira pessoa a abraçar tem que ser alguém do sexo oposto, para dar sorte no amor. Empurra a mãe e a avó e fica na fila dos homens da família. Ou então vai logo agarrando o primeiro que aparecer na frente, afinal, ninguém aqui falou em beleza, cumplicidade, empatia ou seleção, homem é homem, não é mesmo? E sem dar muitas explicações, afinal, a boca não pode mexer muito porque tem que começar o ano sorrindo. Come lentilha, toma champagne, faz pedido chupando 12 uvas (uma para cada mês do ano que está por vir), sem contar a romã para trazer dinheiro. Calcinha vermelha, para paixão, jóias (ou bijuterias, né?) douradas, para fortuna, roupa branca, para paz, maquiagem violeta, para sucesso e sorte. E nada de comer frango ou qualquer animal que cisque (nada de ir para trás).

É tanta pressão, mas tanta pressão, que é necessário o ano todo para preparar todas as superstições desse pequeno segundo que parece, num passe de mágica, mudar a vida e o rumo de um ano todo. O resultado é passar a virada sendo mal-educada, brega, ridícula, com o estômago revirado e com muita dor no pé direito. Isso porque, passadas 2 semanas, ninguém mais vai lembrar de continuar cumprimentando o vizinho, por mais chato que seja, de ajudar todo velhinho a atravessar a rua, não falar mais palavrão, parar de fumar, beber menos, ler mais, não assistir mais a tanta porcaria na televisão e, ah, lógico, o regime que seria começado na segunda feira, já terá virado lenda há tempos.

 Meu desejo real  é que o ano que vem seja produtivo e encantador, mas que deixe a desejar um pouco para que haja expectativa para o próximo e que seja assim ano após ano, cada vez melhor. E que possamos parar de nos preocupar com tanta besteira, pois o que vai definir seu novo ano não é a cor da calcinha que usará na virada, mas as atitudes que tomará ao longo de toda a jornada.

Até 2011, com textos melhores e maiores inspirações (esse ítem está nas minhas metas, com certeza).

Feliz ano novo!

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Ponto de observação II

Já passa das oito horas da noite, mas o horário de verão exerce sua função com louvor, me fazendo checar o relógio mais de três vezes.
Desisti do primeiro ônibus que passou, os passageiros desafiavam a lei da física (aquela que diz que ‘dois corpos não podem ocupar o mesmo lugar ao mesmo tempo’) e aquilo lá já havia passado e muito da brincadeira de Tetris humano.

A violência sem sentido que tem acontecido na avenida mais movimentada de São Paulo me fez titubear quando a esperar no ponto pela próxima condução que, devido ao congestionamento rotineiro e imprevisível, não tem hora para chegar.

Porém, a majestosa decoração de natal me entretém e aquele agradável sentimento – já mencionado em texto passado – que esta avenida me proporciona, me faz esquecer do cansaço da sexta feira.

Me distraio a observer o mundo de gente que, a passos largos, se arrasta pela faixa de pedestres. Observo a naturalidade com que a mãe troca a fralda de sua filha ali mesmo, no banco do ponto de ônibus. O cheiro de cocô de neném se espalha com sutileza, mas a menina que come um lanche logo ao lado não parece se incomodar.

Olho para o lado e percebo que a banca de jornais, aquela pela qual passo quase todos os dias, vende também uma grande variedade de livros. E não só daquela coleção pocket, mesma que a jovem descolada devora ao meu lado.

As luzes da decoração de final de ano se mistura com as luzes próprias da avenida e nem percebo que, a essa altura, já escureceu.

Ôpa, uma passeata! À frente, bicicletas. Seria um movimento contra o congestionamento, a favor do meio ambiente? Ah, não, é contra o vestibular! ‘Universidade para todos’ escrito em todos os cartazes chacoalhados em cabos de vassoura bem no alto e a musiquinha que embala a passeata começa com algo que não consegui entender e termina com ‘aqui está presente o movimento estudantil!’.

O pensamento é, imediatamente, direcionado ao meu trabalho de conclusão de curso. Olha a participação política, aí! Mas, espera aí, isso é participação política? Bom, um bando de jovens saindo às ruas para expressar e lutar por algo em que acreditam é, no mínimo, uma participação social. Bonito de se ver.

“Preciso ler mais sobre isso”, penso. Mas, ao começar a resgatar possíveis autores, sou abruptamente interrompida por um rosto curioso: “Com licença, moça, você é jornalista?”espera pela resposta ansiosamente, olho para trás, sera que é comigo mesmo? “Sou…”, repondo meio sem jeito, “Por quê?”. “Ah, porque parece, seu jeito, suas roupas e a maneira empolgada com que escreve e não tira os olhos desse caderninho aí”, explica. Uma sensação de mistura de felicidade e surrealismo me invade e antes que conseguisse balbuciar alguma coisa, complementa: “será que você pode me entrevistar?”, pergunta. Acho que essa foi a situação mais esquisita em que me meti nos últimos tempos, mas “por que não?”, penso eu. E começo uma conversa que iria durar mais ou menos uns engraçados 20 minutos.

Seu nome é Leilane, mas essa história fica para outro post. Meu ônibus chegou, vazio, e está na hora de ir para casa. Ufa!

Aproveite o verão, rapaz!

O verão está chegando. A estação mais quente do ano começa, oficialmente, no dia 21 de dezembro, mas os termometros já anunciam a proximidade desta época tão aclamada por muitos brasileiros.

Devo anunciar, logo de início, que esta não é a minha estação do ano favorita. Sei que, dito isto, contrario a grande maioria. Mas venhamos e convenhamos…

Verão no interior, carnaval, casas com piscina, praia e brisa do mar combinam perfeitamente com esse clima tropical acentuado pelo aquecimento global. Mas São Paulo no verão? Uma eca.

Pergunte para quem não tem carro com ar condicionado e tem que pegar ônibus lotado.

Sol torrando o cuco, pessoas suadas e, consequentemente, desodorantes vencidos e aquele cheirinho peculiar – e indescritível – no elevador abarrotado de gente.

Não consigo acreditar que alguém realmente goste dessa sensação. Qualquer pequeníssima roupa que você use, parece um casacão de pele (sintética, por favor). Sem falar em qualquer caminhadinha daqui até a padaria na esquina que, com esse calor, é o mesmo que correr os quinze quilômetros da corrida de São Silvestre debaixo de sol (e sem preparação física).

Graças ao gênio Willis Carrier, inventor do ar-condicionado, grande parte dos problemas de calor em excesso foram, se não resolvidos, amenizados. Mas isso apenas para quem não sofre de rinite ou aqueles cuja imunidade, sendo muito baixa, não aguenta tanta mudança catastrófica de temperatura e pega logo um bom resfriado.

Essa é a estação de cultuar os corpos e exibi-los em, quase microscópicos, trajes de banho. É, por tanto, a era das academias. Academias essas, que estão sempre lotadas e requerem mais paciência para ficar esperando duas horas por uma esteira desocupada, do que motivação para usá-la por trinta minutos.

A maior benção da natureza é quando, finalmente, cai a chuva. Mas chuva de verão não se contenta em apenas molhar as plantinhas que estão clamando por água e refrescar um pouquinho o ar abafado. Não, elas vêm com força total, destruindo árvores, quebrando fios de eletricidade e alagando a cidade inteira – problema que os governantes insistem em não resolver. O que viria para refrescar, acaba gerando o caos total.

Três banhos por dia, ocasionando um gasto excessivo de água. Exposição constante ao sol, trazendo maiores riscos de câncer de pele e ainda marquinhas indesejadas de óculos de sol e camisetas com manga.

Por essas e muitas outras razões, os adoradores do verão que me desculpem, mas um friozinho agora, em meados de dezembro, faria muito bem, obrigada.

Manual do ‘bon appétit’

Escolher um lugar para sentar numa praça de alimentação, apesar de parecer uma tarefa simples, envolve um complexo processo, principalmente quando se está sozinho.

Há que se pensar no conforto, analisar o melhor ponto de observação e, obviamente, tentar não sentar em frente à doceria que, com tanto esforço, evitou a semana inteira – afinal, depois de um almoço regado a alface, a tentação de comer uma calórica sobremesa é maior e a culpa menor. Também é preciso escolher uma mesa longe do banheiro, de fácil acesso e que não esteja espremida entre outras mesas lotadas. Pronto. Avaliadas as condições físicas e arquitetônicas do local, é hora de analisar as pessoas.

Sentar ao lado de casais apaixonados que não ligam para o resto de comida na boca do parceiro é de tirar o apetite. Mais ainda quando o alimento é oferecido ao outro através da técnica do ‘aviãozinho’ – muito utilizada por mães que visam convencer o filho birrento a comer só mais uma colherada de sopa de brócolis. Sem contar os apelidinhos ‘românticos’ que envolvam o nome de leguminosas que podem ser inventados ali mesmo, bem ao seu lado. Enfim, uma mesa rodeada por casais está completamente descartada e ponto.

Sentar em frente a um alguém muito atraente também não é boa escolha, a não ser que você não ligue de ser observada com o lanche desmontando da mão e sujando a camiseta na primeira mordida ou, pior, com pedaços de alface presos ao dente.

Existe uma boa possibilidade de ser necessário o compartilhamento de uma mesa grande por diversas pessoas solitárias. Em casos como este, se estiver com pressa – ou de mau humor – aposte em colegas de refeição com trajes executivos. Homens e mulheres de negócio estão sempre correndo e, certamente não terão tempo de puxar papo ou observar seu prato. Pode ser que nem ao menos lhe cumprimentem.

Os velhinhos são companhia boa para quem está afim de um bom papo com direito a histórias de vida e, de quebra, alguma receitinha de vovó para testar no final de semana. Já grupos animados de adolescentes podem ser companheiros de mesa desastrosos ou fenomenais. Vai da sorte de cada um e de seu gosto pessoal por conversas ‘emo’ e outros estilos parecidos.

Vale escolher a mesa daquele com feição simpática, alguém que já esteja de saída ou optar por um banquinho daqueles altos em frente a enormes bancadas.  

Horário de almoço é assim: é preciso achar um lugar confortável, de boa visão, que não seja difícil de alcançar e sem fatores que intimidem ou pressionem enquanto faz sua sagrada refeição. Tudo isso tentando equilibrar a bolsa num ombro, a sacola no outro e, logicamente, com o prato nas mãos, rezando para que o refrigerante que samba na bandeja não se espatife no chão.

Isto feito, bom apetite.

Só mais uma vez

Acendeu o cigarro. O primeiro trago foi como um passeio ao paraíso. Soltou a fumaça como quem respira depois de se afogar, aliviado. Fumou até o filtro, até não ter mais nicotina para sugar. A sensação era maravilhosa, mas ao jogar a bituca, a única sensação que ficou foi de asco. Aquele cheiro defumado, que mais tarde pareceria como de salgadinho vencido, impregnou nos dedos, roupas, cabelo, dentes e hálito, como praga. Não havia bala, chiclete, álcool-gel ou perfume que o tirasse. Jurou que nunca mais o faria.

Comprou uma barra de chocolate. Não contente, levou junto uma caixa de bombom. A barra sumiu repidamente, fez as vezes de aperitivo. Um pedaço dos céus derretendo na boca, daqueles capazes de melhorar qualquer coração partido. A caixa foi como uma bomba. O estômago já não agüentava mais, mas não teve coragem de desperdiçar o último bombom. Por jurar que nunca mais na vida comeria aquilo de novo, tinha que aproveitar até o final, cada pedacinho. Jogar a última embalagem, vazia, no lixo, foi como jogar a dignidade fora. Se sentia gorda, horrenda, infeliz.

Tomou um golinho. O dia de trabalho havia sido exaustivo, desgastante, do cão. Golinho merecido que se transformou em uma garrafa, duas, três. Até não saber mais quem era, de onde vinha e para onde ia. Cantou, dançou, sorriu. Mas a ressaca moral e física do dia seguinte o fez prometer que nunca mais. De novo.

Já havia superado, estava linda. Feliz e linda. Mas o encontrou numa festa e ele também impressionava pela beleza, renovado como nunca. E simpático, legal, inteligente, bom de papo, charmoso, gostoso. Como nunca. O orgulho foi pro chapéu. Acordou na velha cama, aquela testemunha de discórdias e choros e traições. Completamente nua, em todos os sentidos. O cara ao lado, diferente da noite anterior, era o mesmíssimo filho da puta de antes. E ela era aquela mesma boba esperançosa antes. Sentou e chorou copiosamente, tendo a certeza de que naquela cama não dormiria nunca mais.

Todos prometeram, não cumpriram e prometeram novamente. Vício, o prazer do durante não compensa a dor e o arrependimento do depois.

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