Acendeu o cigarro. O primeiro trago foi como um passeio ao paraíso. Soltou a fumaça como quem respira depois de se afogar, aliviado. Fumou até o filtro, até não ter mais nicotina para sugar. A sensação era maravilhosa, mas ao jogar a bituca, a única sensação que ficou foi de asco. Aquele cheiro defumado, que mais tarde pareceria como de salgadinho vencido, impregnou nos dedos, roupas, cabelo, dentes e hálito, como praga. Não havia bala, chiclete, álcool-gel ou perfume que o tirasse. Jurou que nunca mais o faria.

Comprou uma barra de chocolate. Não contente, levou junto uma caixa de bombom. A barra sumiu repidamente, fez as vezes de aperitivo. Um pedaço dos céus derretendo na boca, daqueles capazes de melhorar qualquer coração partido. A caixa foi como uma bomba. O estômago já não agüentava mais, mas não teve coragem de desperdiçar o último bombom. Por jurar que nunca mais na vida comeria aquilo de novo, tinha que aproveitar até o final, cada pedacinho. Jogar a última embalagem, vazia, no lixo, foi como jogar a dignidade fora. Se sentia gorda, horrenda, infeliz.

Tomou um golinho. O dia de trabalho havia sido exaustivo, desgastante, do cão. Golinho merecido que se transformou em uma garrafa, duas, três. Até não saber mais quem era, de onde vinha e para onde ia. Cantou, dançou, sorriu. Mas a ressaca moral e física do dia seguinte o fez prometer que nunca mais. De novo.

Já havia superado, estava linda. Feliz e linda. Mas o encontrou numa festa e ele também impressionava pela beleza, renovado como nunca. E simpático, legal, inteligente, bom de papo, charmoso, gostoso. Como nunca. O orgulho foi pro chapéu. Acordou na velha cama, aquela testemunha de discórdias e choros e traições. Completamente nua, em todos os sentidos. O cara ao lado, diferente da noite anterior, era o mesmíssimo filho da puta de antes. E ela era aquela mesma boba esperançosa antes. Sentou e chorou copiosamente, tendo a certeza de que naquela cama não dormiria nunca mais.

Todos prometeram, não cumpriram e prometeram novamente. Vício, o prazer do durante não compensa a dor e o arrependimento do depois.

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