Já passa das oito horas da noite, mas o horário de verão exerce sua função com louvor, me fazendo checar o relógio mais de três vezes.
Desisti do primeiro ônibus que passou, os passageiros desafiavam a lei da física (aquela que diz que ‘dois corpos não podem ocupar o mesmo lugar ao mesmo tempo’) e aquilo lá já havia passado e muito da brincadeira de Tetris humano.

A violência sem sentido que tem acontecido na avenida mais movimentada de São Paulo me fez titubear quando a esperar no ponto pela próxima condução que, devido ao congestionamento rotineiro e imprevisível, não tem hora para chegar.

Porém, a majestosa decoração de natal me entretém e aquele agradável sentimento – já mencionado em texto passado – que esta avenida me proporciona, me faz esquecer do cansaço da sexta feira.

Me distraio a observer o mundo de gente que, a passos largos, se arrasta pela faixa de pedestres. Observo a naturalidade com que a mãe troca a fralda de sua filha ali mesmo, no banco do ponto de ônibus. O cheiro de cocô de neném se espalha com sutileza, mas a menina que come um lanche logo ao lado não parece se incomodar.

Olho para o lado e percebo que a banca de jornais, aquela pela qual passo quase todos os dias, vende também uma grande variedade de livros. E não só daquela coleção pocket, mesma que a jovem descolada devora ao meu lado.

As luzes da decoração de final de ano se mistura com as luzes próprias da avenida e nem percebo que, a essa altura, já escureceu.

Ôpa, uma passeata! À frente, bicicletas. Seria um movimento contra o congestionamento, a favor do meio ambiente? Ah, não, é contra o vestibular! ‘Universidade para todos’ escrito em todos os cartazes chacoalhados em cabos de vassoura bem no alto e a musiquinha que embala a passeata começa com algo que não consegui entender e termina com ‘aqui está presente o movimento estudantil!’.

O pensamento é, imediatamente, direcionado ao meu trabalho de conclusão de curso. Olha a participação política, aí! Mas, espera aí, isso é participação política? Bom, um bando de jovens saindo às ruas para expressar e lutar por algo em que acreditam é, no mínimo, uma participação social. Bonito de se ver.

“Preciso ler mais sobre isso”, penso. Mas, ao começar a resgatar possíveis autores, sou abruptamente interrompida por um rosto curioso: “Com licença, moça, você é jornalista?”espera pela resposta ansiosamente, olho para trás, sera que é comigo mesmo? “Sou…”, repondo meio sem jeito, “Por quê?”. “Ah, porque parece, seu jeito, suas roupas e a maneira empolgada com que escreve e não tira os olhos desse caderninho aí”, explica. Uma sensação de mistura de felicidade e surrealismo me invade e antes que conseguisse balbuciar alguma coisa, complementa: “será que você pode me entrevistar?”, pergunta. Acho que essa foi a situação mais esquisita em que me meti nos últimos tempos, mas “por que não?”, penso eu. E começo uma conversa que iria durar mais ou menos uns engraçados 20 minutos.

Seu nome é Leilane, mas essa história fica para outro post. Meu ônibus chegou, vazio, e está na hora de ir para casa. Ufa!

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