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Escrevo, depois apago

Não fui eu, foi meu eu-lírico

mês

janeiro 2011

Raindrops keep falling on my head

Pequenas nuvens começam a se formar. É nessa hora que, aqueles que podem, saem de seus trabalhos, correndo. Ao alcançar o próximo quarteirão, o céu já é encoberto por um manto enorme, espesso, preto.
Agora é só esperar. No caminho, iluminado por clarões de raios e relâmpagos, a pressa é visível aos olhos de todos os pedestres. Medo.
Não tarda, pingos grossos atingem por todos os lados. O guarda chuva não consegue segurar e vira do avesso por muitas vezes. O vento é veloz demais. Os pássaros passam avisando, a chuva forte está mesmo chegando.
O ponto de ônibus já não é mais abrigo. O jeito agora é se virar como dá e esperar, ansiosamente, pelo transporte. Na adversidade se faz amizade, concluo. Uma inteligente e precavida senhora chama a atenção de todos. Nos pés, uma delicada sandália de material sensível. Olha para os lados, tira da mochila uma enorme sacola e, de, lá sua salvação em dias de janeiro: uma longa e estilosa galocha. Logo, todos ao lado começam a mostrar seus truques. Uma capa de chuva azul, um guarda-chuva gigante, saco plástico nos pés, lenço para proteger os cabelos e mochilas impermeáveis. Só faltava um bote inflável. De resto, todas as artimanhas possíveis e imagináveis estavam ali, num raio de cem metros que comportava o ponto de ônibus e seus arredores. A situação um tanto quanto inusitada colocou um sorriso no rosto de muitos ali presentes. Olhares amigáveis, começos de conversa e comentários sobre a rotineira poça d’água que resolvia se instalar logo ali, na espera para ir para casa. Carros, caminhões e ônibus passavam sem se importar, jogando água para tudo quanto era lado, molhando o que estivesse ao seu redor. Egoísmo. Fazendo do mundo um lugar sempre pior. Característica comum àquele que, ao terminar de tomar seu refrigerante tacou a garrafa longe, no meio da água, sem o mínimo de vergonha ou senso. Após olhares de reprovação, a concentração volta à avenida, à espera pelo ônibus que não vem enquanto a água sobe cada vez mais. O olhar fixo no caminho parece até que trará o enorme veículo mais rápido só com a força do pensamento.
Ôpa, e não é que pode funcionar mesmo? Satisfeitos, vamos embora. Mas a história não acaba aqui. Nunca acaba. Ainda falta torcer pelo menor congestionamento possível e, com sorte, não pegar nenhum trecho alagado. E amanhã? Ah, é janeiro, amanhã começa tudo de novo.

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Se pudesse ajudar…

Pensei, pensei, refleti, pensei mais e tudo isso não sai da minha cabeça. Tantas imagens, informações, uma enxurrada de desastres e lágrimas. A vida humana como ela é: frágil, pequena, sujeita, impremeditável. 
A morte tão de perto. A natureza, bela, vira um monstro e o sentimento de solidariedade, a vontade de ajudar faz com que a sensação de pequenez e inutilidade fique maior ainda. Nada a se fazer de concreto. Alimentos, roupas, dinheiro. É só o que é possível de tão longe e vidas, tantas vidas perdidas não voltam com um ‘sinto muito’, nem que este venha do papa. O conforto de familiares e amigos é uma missão impossível.
Problemas. Uma vez, discuti bravamente sobre a dimensão de problemas pessoais que, tão pequenos aos olhos, doíam tanto no coração. Um sofrimento bobo, quase em vão. Problema é chegar ao fundo do poço, detonado por lama, pedras e água, muita água.
 Três da manhã. Tão difícil de se safar. O barulhinho da chuva, propício para o sono pesado, gostoso, fatal. O maior desastre natural. Não escolheu raça, classe social e muito menos turistas ou nativos. Arrasou tudo que ousasse estar no caminho.
Cenário de guerra. Tentativas de salvamento. A escolha entre a própria vida ou o bichinho de estimação. Pesar. Casa? Que casa? Irreconhecível. Não dá para saber o que era sala, cozinha, banheiro. A cor das paredes, agora inexistentes, pintadas de marrom. Assim como carros, lojas, hospitais, igrejas, bens materiais que não valem uma vida, mas precisam de uma, quase inteira, para serem conquistados. Perdeu-se tudo: moradia, roupas, alimentos. Ironicamente, não há mais nem água. Perdeu-se todos: pai, mãe, filhos, parentes, amigos, vizinhos. E a mãe natureza não dá trégua, não mostra carinho, perde o olhar fraternal. Parece raivosa, irada, impiedosa. Chega a ficar forte a dúvida sobre a existência de Deus, mas, mesmo assim, ora-se, pedindo pela alma daqueles que se foram e pela vida daqueles que ficaram. 
Em momentos como esse, palavras não são suficientes. Então, em meio à desolação e tristeza, esperança e fé na superação. É só o que sobrou.

Aquele encontro que não vai acontecer

Até que meu organismo mandou bem ao acordar meio chocho, meio murcho, meio dolorido. Uma sensação de enjôo, algo entre a ressaca e alguma comida que não caiu bem. Dá um desânimo, vontade de ficar dormindo, assistir a sessão da tarde, voltar ao tempo de colégio em que a única preocupação era a prova de matemática daqui a duas semanas e se a mãe ia deixaria ir ao shopping com as amigas.
Meu organismo acertou no dia de acordar quase doente. Odeio quando ele acerta. Agora tenho uma desculpa mais do que plausível para ir do trabalho direto pro ônibus e do ônibus direto para a cama, sem desviar do caminho.
Ao invés de escutar aquilo tudo que você tem para me dizer, vou me concentrar no penúltimo capítulo da novela que não assisto e no lugar de umas boas três doses de uísque, me deliciarei com uma canja de doente que só minha mãe sabe fazer.
Não me jogarei na pista de dança, mas certamente me remexerei nos meus lençóis, de um lado para o outro, até conseguir dormir. Escuro por escuro, é só apagar a luz do quarto e estamos quites. Tudo isso sem precisar me preocupar com roupa – aquela camisola recém lavada já ta bom demais -, cabelo – qualquer piranha dá conta do rotineiro coque mal feito da noite – e muito menos maquiagem, essa vai ceder o lugar para o bom e velho creme hidratante de sempre. A bolsa de água quente, se esta for necessária, será o contato mais próximo que terei com o chamego, calor humano e sensação de aconchego. As vozes da televisão como companhia e na hora de arrumar o despertador fica claro que o dia acabou mesmo, que o final é esse. Agora só me resta dormir, torcendo para não sonhar, e esperar a próxima oportunidade para ter, quem sabe, uma dor de ouvido daquelas.

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