Pequenas nuvens começam a se formar. É nessa hora que, aqueles que podem, saem de seus trabalhos, correndo. Ao alcançar o próximo quarteirão, o céu já é encoberto por um manto enorme, espesso, preto.
Agora é só esperar. No caminho, iluminado por clarões de raios e relâmpagos, a pressa é visível aos olhos de todos os pedestres. Medo.
Não tarda, pingos grossos atingem por todos os lados. O guarda chuva não consegue segurar e vira do avesso por muitas vezes. O vento é veloz demais. Os pássaros passam avisando, a chuva forte está mesmo chegando.
O ponto de ônibus já não é mais abrigo. O jeito agora é se virar como dá e esperar, ansiosamente, pelo transporte. Na adversidade se faz amizade, concluo. Uma inteligente e precavida senhora chama a atenção de todos. Nos pés, uma delicada sandália de material sensível. Olha para os lados, tira da mochila uma enorme sacola e, de, lá sua salvação em dias de janeiro: uma longa e estilosa galocha. Logo, todos ao lado começam a mostrar seus truques. Uma capa de chuva azul, um guarda-chuva gigante, saco plástico nos pés, lenço para proteger os cabelos e mochilas impermeáveis. Só faltava um bote inflável. De resto, todas as artimanhas possíveis e imagináveis estavam ali, num raio de cem metros que comportava o ponto de ônibus e seus arredores. A situação um tanto quanto inusitada colocou um sorriso no rosto de muitos ali presentes. Olhares amigáveis, começos de conversa e comentários sobre a rotineira poça d’água que resolvia se instalar logo ali, na espera para ir para casa. Carros, caminhões e ônibus passavam sem se importar, jogando água para tudo quanto era lado, molhando o que estivesse ao seu redor. Egoísmo. Fazendo do mundo um lugar sempre pior. Característica comum àquele que, ao terminar de tomar seu refrigerante tacou a garrafa longe, no meio da água, sem o mínimo de vergonha ou senso. Após olhares de reprovação, a concentração volta à avenida, à espera pelo ônibus que não vem enquanto a água sobe cada vez mais. O olhar fixo no caminho parece até que trará o enorme veículo mais rápido só com a força do pensamento.
Ôpa, e não é que pode funcionar mesmo? Satisfeitos, vamos embora. Mas a história não acaba aqui. Nunca acaba. Ainda falta torcer pelo menor congestionamento possível e, com sorte, não pegar nenhum trecho alagado. E amanhã? Ah, é janeiro, amanhã começa tudo de novo.

Anúncios