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Escrevo, depois apago

Não fui eu, foi meu eu-lírico

mês

março 2011

Conquista

Porque quando era só carnal, tensão sexual e aquele gostinho de proibido, impossível, era só ilusão. E envolveu carinho. E virou real, palpável. Certeza. Quanta indecisão. Quanta tentação. Suava entre os dedos, deixava o vento acertar os cabelos e ignorava tudo que estava em volta. O assunto, o caminho, a posição do braço doída. Nada mais importava. Só encostar, chegar perto. Meia hora em segundos. O que os outros iam pensar? Que se foda o outro, que se foda a outra. Sabia no que estava se metendo. De novo. Entrara no jogo e perdia a noção. A química era inegável, a vontade recíproca. Declarações em tom de brincadeira, daquelas mais verdadeiras. Guiava os passos, às escuras. O rosto colava. O sussurro, o aperto, o cafuné. A indireta, direta. Era hoje, tinha que ser. Se não for hoje, nunca mais. Será? Acionava o pensamento positivo, pedia aos deuses. Precisava. Cadê a oportunidade? Cadê a audácia? Cadê a coragem? Passa-não-passa. Joga-não-joga. Beija-não-beija. Lerdeza. Espera. Almoça. Declara. Aceita. Conversa. Confessa. Era perfeito. Até aqueles que nem conheciam, pensavam, achavam, podiam ver. Saía fumaça, brilhava os olhos, tinha ímã. Chegava perto, contava segredos, convivia. Sabia de cor, como ninguém. Conhecia o remédio. Cada expressão. Cada chateação. A hora de brincar, falar, rir e reclamar. Sabia se calar. Não sabia mentir. Tentava disfarçar. A cara entregava. Ia trabalhar. Não sentia em acordar. Atrasava. Corria. Comia. Bebia. Sorria. A hora chegava. Tão rápido. O ônibus passava. A esperança esvaía. O encontro acabava. Menos um dia. Pesar. Vai ser amanhã? Vai ver amanhã? Semana que vem, quem sabe. Agoniza. Sofre. Pensa. Delicia-se. Pesa. Prós e contras. Decide. Fará o que for preciso. Quer. Terá. É só esperar.

Do latim ‘magister’, aquele que ensina

Ele é o único que, por bem ou por mal, acompanha a classe desde o primeiro semestre. Semestre este em que não se sabia direito como era uma faculdade, como eram os professores, qual era o esquema. E aí então, um dos primeiros mestres a se encontrar era aquele que praticamente dormia encostado na lousa, falando sem ânimo algum sobre Gutemberg e aquela coisa toda de prensa e imprensa e história. Seminários, livros, prova.

A aula, além de chata, se transformou em horror. Um show de horror. Medo. Primeiro semestre, provável primeira DP com o primeiro professor duro, exigente e nada maleável. A realidade nua e crua do começo da vida de gente grande. Não se importava com as dificuldades, só exigia, pegava no pé e não negociava nem mísero meio ponto. E ponto.

‘Graças a deus’, suspiraram os alunos. A felicidade não se dava apenas pela falta de DP, pelo dinheiro a mais que não gastariam e pelas matérias que não teriam que chutar. Enfim tinham se livrado do terror das manhãs de terças feiras. História da imprensa nunca mais. Aquele chato, nunca mais!

Primeiro dia de aula, segundo semestre. Os cabelos dos ‘bixos’ tinham crescido, a intimidade com os corredores se aflorara e muitos já cumprimentavam o simpático segurança pelo nome, quiçá apelido! Matérias novas, professores novos e, finalmente, aulas-laboratório. Que maravilha!

Chegam atrasados, fumam um cigarro, colocam as fofocas em dia e vão checar o horário. Qual sala. Qual andar. Qual matéria. Qual janela. Qual professor. A aula agora era TREP, alguma coisa a ver com técnica de reportagem. Fantástica! O jornalismo em sua essência. Mas o tesão de ter enfim uma aula prática se esvai. Professor? Lucas Pires.

‘Ai, que merda’, exclama um. ‘Tô fudido!’, desabafa outro. De novo aquele terror? Mais seis meses tentando negociar nota, com receio da DP e angústia por perder a chamada – feita, impreterivelmente, às sete e meia da manhã. “Não acredito, não acredito, que droga!”.  Mas o que se pode fazer? Paciência, vamos lá!

Lucas é graduado em história pela USP e em jornalismo pela PUC, além de mestre em semiótica e no caminho para ser doutor. Ministra em universidades, mas deveria mesmo ser editor chefe de algum grande jornal. Isso foi concluído por aquela sala, mesma sala que outrora o odiara e agora começara a sentir algo parecido com admiração.

Com expressões pouco ortodoxas (‘isso não é uma pauta, isso tá uma merda!’) como forma de orientação, o mestre de risada sarcástica e mau humor enfim incentivou os aspirantes a repórter a escrever um perfil como um perfil deve ser escrito. Ensinou a tirar fotos, muitas fotos, da maneira com que fotos sempre deveriam ser tiradas. E em meio a berros indignados que indagava `Que bosta de jornalista vocês querem ser?’, a classe finalmente percebeu o que era a vida em redação. E foi alí que quem não dava para a coisa desistiu do curso. Já aqueles que ficaram, de uma forma ou de outra – gostando ou não muito – evoluíram no sentimento ao temido professor e o começo de admiração se transformou, súbita e quase inconscientemente, em gratidão.

Terceiro, quarto, quinto semestre. As aulas passaram a ser pelas manhãs e a relação com Pires chegou ao terceiro andar, nos intervalos das aulas, tomando um cafezinho. Ali já eram permitidas risadas, brincadeiras e o pontapé inicial de relações de trabalho. Lucas, no alto de seus 32 anos, administra o campeonato de society`chuteira de ouro` e site de mesmo nome e acaba unindo o útil ao agradável ao convidar novos alunos para colaborar. Em troca, o direito de jogar futebol com ele e alguns trocados. Eis que então o primeiro vínculo de amizade de verdade entre esses alunos e o professor se formava. Era visível nas aulas e nas DPs (não, nem a amizade amoleceu o coração do mestre, que continuava inflexível na ajuda com o meio ponto restante para atingir a media de 5,5.). Lucas se misturava com aqueles meninos como uma criança em jardim de infância. O lado humano, sensível e, por vezes, até legal e gentil começava a aparecer. A gratidão virava carinho e este começava a aflorar.

Sexto semestre. A essa altura do campeonato, Lucas era o assunto mais recorrente nas rodinhas de amigos. Ainda dividia opiniões, aparecendo sempre aqueles que continuavam achando um absurdo as metodologias, o mau humor, a grosseria e a exigência. Mas esses eram poucos. A maioria, surpreendentemente, já o defendia com unhas e dentes. De uma forma ou de outra, já habitava o coração de cada um.

O sexto semestre foi recheado de pérolas. A aula de história da política brasileira,  – especialidade do professor que, completamente à vontade, dava aulas vestindo calças de moletom – foi a mais pura demonstração de extremo conhecimento do assunto. Lucas passava aquele monte de precisos dados e informações sem nenhum auxílio, sem anotação, sem slide. Era a lousa, o canetão e o cérebro, não necessariamente nessa ordem. E a aula era um espetáculo. Daqueles a serem assistidos comendo pipoca. Impressionados, os alunos morriam de rir. A linha do tempo de todos os presidentes brasileiros desde a década de trinta explicados com direito a encenação, com pulinhos desengonçados, dos cavalos que se aproximavam dos estudantes em marcha pelas ‘diretas já!’ quando a ditadura estava para acabar e ‘pimba na gorduchinha!’, maneira engraçada, uma novidade quase onomatopéica, para explicar um golpe e um assassinato – cruciais para o os acontecimentos futuros do país. Se alguém tinha dúvidas, ali elas se foram. Aquela relação tão próxima, tão sincera e tão estranha fez com que Lucas Pires fosse mesmo, independente das inúmeras controvérsias, a pessoa que melhor representava aquela caótica e diversificada classe.

Sétimo semestre. TGI. Uma enorme identificação que fez com que o mestre orientasse, direta ou indiretamente, muitos dos trabalhos de conclusão de curso daquela sala. A última aula foi inspiração para muitos temas e o décimo andar, nos horários de orientação, serviam para discussões políticas acaloradas em época de eleição, desabafos e cafezinhos, muitos cafezinhos.

Oitavo semestre. Quatro anos e a presença continua. Alguns quilos e muito fios de cabelo a menos, orientação regada a salada de frutas no terceiro andar e mais intimidade. A risada é iminente e o carinho ainda não é explícito. Nunca vai ser. E quando questionado se vai sentir nossa falta, ‘claro que vou!’, responde, meio acanhado. Diz isso por saber que não é o professor mais amado. Digo isso por saber que quando alunos de outros semestres, ainda novinhos, ouvem os elogios àquele que ainda temem, não entendem.

Lucas Pires estará presente na formatura. Certamente, algum título ganhará. E nem importa se paraninfo, homenageado ou patrono. De qualquer forma será merecido. E muito. Afinal, no seguir da vida, esta figura será lembrada por todos a cada novo professor conhecido, a cada nota a ser negociada, a cada editor xingando os textos e a cada chefe gritando na redação. O professor será lembrado nos encontros esporádicos dos amigos de faculdade, nos risos das frases que marcaram e na sensação de gostosa nostalgia. E no caos da redação, no estresse da assessoria, nos plantões de natal e ano novo e a cada matéria feita com preguiça ou de má vontade, aqueles profissionais – outrora alunos – vão se perguntar `que bosta de jornalista quero ser?’ e então terão certeza da importância que aquele educador teve. Perceberão que essa marca, apenas um verdadeiro mestre, no sentido mais puro e literal da palavra, poderia deixar.

It’s been a hard day’s night

 Enfim, apesar de tantos titubeios, cheguei ao seu apartamento. Encontrei-o decorado e bagunçado do jeitinho que você deixou. Do jeitinho que deixamos.
Estranho não te encontrar de toalha – ainda molhada – presa à cintura, jogado no sofá, assistindo a qualquer coisa sem legenda. Checo a lista de coisas que sei que deixei por aqui. Você sabe que eu não sei viver sem listas. Do que fazer, não fazer, do que resgatar do apartamento do ex.
Ao remexer a pilha de CDs encontro aquele que achei que tivesse perdido. Mas, ao guardá-lo na sacola verde de fazer feira que roubei da casa da minha avó, me lembro que te dei de presente e por um longo minuto me pego pensando no que fazer com ele. Resolvo deixá-lo. Seria muito infantil de minha parte pegá-lo de volta, eu sei que você adora Beatles tanto quanto eu. E “A hard day’s night”, ao contrário de “All my loving”, é muito mais sua do que minha.
Dou uma última olhada para o abajur cor de carne que te dei e me lembro com detalhes de como foi difícil encontrá-lo neste exato tom:  um misto de cru, marrom e avermelhado. Bem cor de carne mesmo. Não a sua (ou a minha), mas aquela cantada – por vezes berrada – com tanta emoção por Zezé Di Camargo e Luciano em seus tempos áureos. E ao pensar no abajur imagino que deveríamos estar no mínimo alterados quando decidimos procurar com muito afinco uma luminária desta cor. E aí lembro dos nossos porres. Homéricos. Na maioria da vezes era vinho, sem nada para comer, e risadas, confissões e ideias malucas (como essa) vinham sempre como consequência.
Ao pegar meus pertences levo comigo partes minhas que eram tão suas. Desde o sutiã de renda até a calça de pijama mais confortável do mundo, aquela rosa de flores brancas que minha tia me deu naquele aniversário que você não foi.
Cadernos, canetas, anotações. Ao retirar os post-its pendurados na parede, sinto arrancar todos os momentos bons, carinhos, conversas, brincadeiras, sorrisos, tanto em comum. E a cada pedaço de cada palavra que desgruda, sinto algo como uma facada no meio do peito, lugar que insistimos ser do coração, mesmo sabendo que é o esquerdo o lado anatomicamente correto. Já não interessa mais onde, dói.
Mas ao puxar “My Fair Lady”, “Cantando na Chuva”, “Mary Poppins” e “Nascidos em Bordéis” da prateleira de DVDs, puxo também as brigas, falta de compreensão e palavras que não deveríamos ter proferido (mas mesmo assim o fizemos) e um começo de alívio exerce sua função de quase confortar.
Só faltam alguns livros e besteiras como escova de dentes, xampu e hidratante. Tudo isso seria mais fácil – e menos dramático – até deixar aí. Mas você quer a casa limpa e o caminho livre. Pois bem, não deixo nenhum resquício. Quase nunca faço exatamente o que você me manda. Dessa vez não é diferente.
“Love” foi o último presente que você me deu. Um esmalte de cor vermelho vivo que resolvo deixar de recordação no bolso do roupão, o mais macio que já toquei. Você vai demorar para encontrá-lo. Digo isso pois volto a lembrar da preferência pela toalha sempre em volta da cintura. Mas um dia eu sei que vai achá-lo, assim, sem querer. Nesse dia você vai tirar a toalha, ouvir “A hard day’s night” seguida de “All my loving” e procurar a calça de pijama e o sutiã de renda. Esse dia você vai ligar para mim e eu não sei se vou atender. Não por maldade, mas porque nunca ouço mesmo o celular. Nesse dia eu vou lembrar que após tomar o último gole de água com gás no copo tortinho – meu favorito – e conferir a vista da ‘nossa’ janela às seis da tarde de um dia nublado, fechei a porta, arrancando sem pesar o seu chveiro dourado, tendo a certeza de que aquela era mesmo a melhor decisão a tomar. Neste dia, a casa vai ser mesmo limpa e o caminho vai estar mesmo livre. Para os dois.

Bem vindo de volta, São Paulo

OBS: este texto é uma reedição (blog naotembulameuremedio.wordpress.com)

Quase 2 meses depois da data oficial, o ano começou (agora na prática). Quem ia viajar, já viajou. Quem é fã da mais famosa festa brasileira e passa o resto do ano pensando em pular carnaval, já pulou e, provavelmente (salvo algumas raríssimas excessões) , todas as promessas de ano novo já foram descumpridas: já percebemos que é quase certo que continuaremos a estudar para as provas na véspera, que não teremos tempo para ler mais livros, que não faremos uma limpa no armário abarrotado de roupa, não caminharemos pelo menos 3 vezes por semana, não subiremos escadas ao invés de usar o elevador, não seremos mais pacientes no trânsito e não, não vamos começar um novo regime na próxima segunda feira.

Isto entendido, o ano finalmente começou. Tirando o fato de que escrevemos as datas repetidas, mudando apenas o 2010 por 2011, é quase como se tudo continuasse da mesmíssima maneira, inclusive o lugar em que moramos.

Há um certo vazio dentro da cidade nas férias que me intriga. Tenho que confessar que o fato de quase metade da população suburbana se afugentar em praias lotadas, casas de parentes no interior ou até mesmo países distantes, faz com que a vida do paulistano que fica seja um pouquinho mais agradável. A sensação que tenho é que consigo ocupar um lugar maior na grande metrópole. E isso serve para pequenos clubes noturno (em que antes, não se podia nem sonhar em dançar empolgadamente, porque corria um grande risco de bater em pessoas desconhecidas) e cinemas, por exemplo. Sinto até que posso escolher, de fato, o restaurante em que quero jantar de acordo com as minhas preferências gastronômicas e não apenas levando em consideração o tempo de espera e o estresse que passaria esperando por uma mesa. Lugares mais vazios, menos congestionamento, menos filas, quase a perfeição. Mas ainda assim, alguma coisa me incomoda. Me lembro de já ter citado, em texto passado, como nos tornamos um pedacinho da cidade em que moramos e volto ao mesmo ponto. São Paulo que eu conheço é frenético, lotado, estressado. Passando férias e feriado por aqui me sinto como se tivesse viajado e estivesse conhecendo alguma cidade mais tranquila e bem mais calma.

Mas é melhor não se acostumar muito, pois passado o carnaval, subitamente se percebe uma movimentação estranha. Não chego mais aos lugares em 20 minutos, não passeio tranquilamente pelas ruas e muito menos consigo chegar depois das dez da noite e me deparar com uma mesa sorrindo para mim, me esperando no barzinho mais famoso do bairro. Pronto, São Paulo está de volta. Estou achando até que era a cidade, e não eu, que tinha tirado férias.

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