Enfim, apesar de tantos titubeios, cheguei ao seu apartamento. Encontrei-o decorado e bagunçado do jeitinho que você deixou. Do jeitinho que deixamos.
Estranho não te encontrar de toalha – ainda molhada – presa à cintura, jogado no sofá, assistindo a qualquer coisa sem legenda. Checo a lista de coisas que sei que deixei por aqui. Você sabe que eu não sei viver sem listas. Do que fazer, não fazer, do que resgatar do apartamento do ex.
Ao remexer a pilha de CDs encontro aquele que achei que tivesse perdido. Mas, ao guardá-lo na sacola verde de fazer feira que roubei da casa da minha avó, me lembro que te dei de presente e por um longo minuto me pego pensando no que fazer com ele. Resolvo deixá-lo. Seria muito infantil de minha parte pegá-lo de volta, eu sei que você adora Beatles tanto quanto eu. E “A hard day’s night”, ao contrário de “All my loving”, é muito mais sua do que minha.
Dou uma última olhada para o abajur cor de carne que te dei e me lembro com detalhes de como foi difícil encontrá-lo neste exato tom:  um misto de cru, marrom e avermelhado. Bem cor de carne mesmo. Não a sua (ou a minha), mas aquela cantada – por vezes berrada – com tanta emoção por Zezé Di Camargo e Luciano em seus tempos áureos. E ao pensar no abajur imagino que deveríamos estar no mínimo alterados quando decidimos procurar com muito afinco uma luminária desta cor. E aí lembro dos nossos porres. Homéricos. Na maioria da vezes era vinho, sem nada para comer, e risadas, confissões e ideias malucas (como essa) vinham sempre como consequência.
Ao pegar meus pertences levo comigo partes minhas que eram tão suas. Desde o sutiã de renda até a calça de pijama mais confortável do mundo, aquela rosa de flores brancas que minha tia me deu naquele aniversário que você não foi.
Cadernos, canetas, anotações. Ao retirar os post-its pendurados na parede, sinto arrancar todos os momentos bons, carinhos, conversas, brincadeiras, sorrisos, tanto em comum. E a cada pedaço de cada palavra que desgruda, sinto algo como uma facada no meio do peito, lugar que insistimos ser do coração, mesmo sabendo que é o esquerdo o lado anatomicamente correto. Já não interessa mais onde, dói.
Mas ao puxar “My Fair Lady”, “Cantando na Chuva”, “Mary Poppins” e “Nascidos em Bordéis” da prateleira de DVDs, puxo também as brigas, falta de compreensão e palavras que não deveríamos ter proferido (mas mesmo assim o fizemos) e um começo de alívio exerce sua função de quase confortar.
Só faltam alguns livros e besteiras como escova de dentes, xampu e hidratante. Tudo isso seria mais fácil – e menos dramático – até deixar aí. Mas você quer a casa limpa e o caminho livre. Pois bem, não deixo nenhum resquício. Quase nunca faço exatamente o que você me manda. Dessa vez não é diferente.
“Love” foi o último presente que você me deu. Um esmalte de cor vermelho vivo que resolvo deixar de recordação no bolso do roupão, o mais macio que já toquei. Você vai demorar para encontrá-lo. Digo isso pois volto a lembrar da preferência pela toalha sempre em volta da cintura. Mas um dia eu sei que vai achá-lo, assim, sem querer. Nesse dia você vai tirar a toalha, ouvir “A hard day’s night” seguida de “All my loving” e procurar a calça de pijama e o sutiã de renda. Esse dia você vai ligar para mim e eu não sei se vou atender. Não por maldade, mas porque nunca ouço mesmo o celular. Nesse dia eu vou lembrar que após tomar o último gole de água com gás no copo tortinho – meu favorito – e conferir a vista da ‘nossa’ janela às seis da tarde de um dia nublado, fechei a porta, arrancando sem pesar o seu chveiro dourado, tendo a certeza de que aquela era mesmo a melhor decisão a tomar. Neste dia, a casa vai ser mesmo limpa e o caminho vai estar mesmo livre. Para os dois.

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