Ele é o único que, por bem ou por mal, acompanha a classe desde o primeiro semestre. Semestre este em que não se sabia direito como era uma faculdade, como eram os professores, qual era o esquema. E aí então, um dos primeiros mestres a se encontrar era aquele que praticamente dormia encostado na lousa, falando sem ânimo algum sobre Gutemberg e aquela coisa toda de prensa e imprensa e história. Seminários, livros, prova.

A aula, além de chata, se transformou em horror. Um show de horror. Medo. Primeiro semestre, provável primeira DP com o primeiro professor duro, exigente e nada maleável. A realidade nua e crua do começo da vida de gente grande. Não se importava com as dificuldades, só exigia, pegava no pé e não negociava nem mísero meio ponto. E ponto.

‘Graças a deus’, suspiraram os alunos. A felicidade não se dava apenas pela falta de DP, pelo dinheiro a mais que não gastariam e pelas matérias que não teriam que chutar. Enfim tinham se livrado do terror das manhãs de terças feiras. História da imprensa nunca mais. Aquele chato, nunca mais!

Primeiro dia de aula, segundo semestre. Os cabelos dos ‘bixos’ tinham crescido, a intimidade com os corredores se aflorara e muitos já cumprimentavam o simpático segurança pelo nome, quiçá apelido! Matérias novas, professores novos e, finalmente, aulas-laboratório. Que maravilha!

Chegam atrasados, fumam um cigarro, colocam as fofocas em dia e vão checar o horário. Qual sala. Qual andar. Qual matéria. Qual janela. Qual professor. A aula agora era TREP, alguma coisa a ver com técnica de reportagem. Fantástica! O jornalismo em sua essência. Mas o tesão de ter enfim uma aula prática se esvai. Professor? Lucas Pires.

‘Ai, que merda’, exclama um. ‘Tô fudido!’, desabafa outro. De novo aquele terror? Mais seis meses tentando negociar nota, com receio da DP e angústia por perder a chamada – feita, impreterivelmente, às sete e meia da manhã. “Não acredito, não acredito, que droga!”.  Mas o que se pode fazer? Paciência, vamos lá!

Lucas é graduado em história pela USP e em jornalismo pela PUC, além de mestre em semiótica e no caminho para ser doutor. Ministra em universidades, mas deveria mesmo ser editor chefe de algum grande jornal. Isso foi concluído por aquela sala, mesma sala que outrora o odiara e agora começara a sentir algo parecido com admiração.

Com expressões pouco ortodoxas (‘isso não é uma pauta, isso tá uma merda!’) como forma de orientação, o mestre de risada sarcástica e mau humor enfim incentivou os aspirantes a repórter a escrever um perfil como um perfil deve ser escrito. Ensinou a tirar fotos, muitas fotos, da maneira com que fotos sempre deveriam ser tiradas. E em meio a berros indignados que indagava `Que bosta de jornalista vocês querem ser?’, a classe finalmente percebeu o que era a vida em redação. E foi alí que quem não dava para a coisa desistiu do curso. Já aqueles que ficaram, de uma forma ou de outra – gostando ou não muito – evoluíram no sentimento ao temido professor e o começo de admiração se transformou, súbita e quase inconscientemente, em gratidão.

Terceiro, quarto, quinto semestre. As aulas passaram a ser pelas manhãs e a relação com Pires chegou ao terceiro andar, nos intervalos das aulas, tomando um cafezinho. Ali já eram permitidas risadas, brincadeiras e o pontapé inicial de relações de trabalho. Lucas, no alto de seus 32 anos, administra o campeonato de society`chuteira de ouro` e site de mesmo nome e acaba unindo o útil ao agradável ao convidar novos alunos para colaborar. Em troca, o direito de jogar futebol com ele e alguns trocados. Eis que então o primeiro vínculo de amizade de verdade entre esses alunos e o professor se formava. Era visível nas aulas e nas DPs (não, nem a amizade amoleceu o coração do mestre, que continuava inflexível na ajuda com o meio ponto restante para atingir a media de 5,5.). Lucas se misturava com aqueles meninos como uma criança em jardim de infância. O lado humano, sensível e, por vezes, até legal e gentil começava a aparecer. A gratidão virava carinho e este começava a aflorar.

Sexto semestre. A essa altura do campeonato, Lucas era o assunto mais recorrente nas rodinhas de amigos. Ainda dividia opiniões, aparecendo sempre aqueles que continuavam achando um absurdo as metodologias, o mau humor, a grosseria e a exigência. Mas esses eram poucos. A maioria, surpreendentemente, já o defendia com unhas e dentes. De uma forma ou de outra, já habitava o coração de cada um.

O sexto semestre foi recheado de pérolas. A aula de história da política brasileira,  – especialidade do professor que, completamente à vontade, dava aulas vestindo calças de moletom – foi a mais pura demonstração de extremo conhecimento do assunto. Lucas passava aquele monte de precisos dados e informações sem nenhum auxílio, sem anotação, sem slide. Era a lousa, o canetão e o cérebro, não necessariamente nessa ordem. E a aula era um espetáculo. Daqueles a serem assistidos comendo pipoca. Impressionados, os alunos morriam de rir. A linha do tempo de todos os presidentes brasileiros desde a década de trinta explicados com direito a encenação, com pulinhos desengonçados, dos cavalos que se aproximavam dos estudantes em marcha pelas ‘diretas já!’ quando a ditadura estava para acabar e ‘pimba na gorduchinha!’, maneira engraçada, uma novidade quase onomatopéica, para explicar um golpe e um assassinato – cruciais para o os acontecimentos futuros do país. Se alguém tinha dúvidas, ali elas se foram. Aquela relação tão próxima, tão sincera e tão estranha fez com que Lucas Pires fosse mesmo, independente das inúmeras controvérsias, a pessoa que melhor representava aquela caótica e diversificada classe.

Sétimo semestre. TGI. Uma enorme identificação que fez com que o mestre orientasse, direta ou indiretamente, muitos dos trabalhos de conclusão de curso daquela sala. A última aula foi inspiração para muitos temas e o décimo andar, nos horários de orientação, serviam para discussões políticas acaloradas em época de eleição, desabafos e cafezinhos, muitos cafezinhos.

Oitavo semestre. Quatro anos e a presença continua. Alguns quilos e muito fios de cabelo a menos, orientação regada a salada de frutas no terceiro andar e mais intimidade. A risada é iminente e o carinho ainda não é explícito. Nunca vai ser. E quando questionado se vai sentir nossa falta, ‘claro que vou!’, responde, meio acanhado. Diz isso por saber que não é o professor mais amado. Digo isso por saber que quando alunos de outros semestres, ainda novinhos, ouvem os elogios àquele que ainda temem, não entendem.

Lucas Pires estará presente na formatura. Certamente, algum título ganhará. E nem importa se paraninfo, homenageado ou patrono. De qualquer forma será merecido. E muito. Afinal, no seguir da vida, esta figura será lembrada por todos a cada novo professor conhecido, a cada nota a ser negociada, a cada editor xingando os textos e a cada chefe gritando na redação. O professor será lembrado nos encontros esporádicos dos amigos de faculdade, nos risos das frases que marcaram e na sensação de gostosa nostalgia. E no caos da redação, no estresse da assessoria, nos plantões de natal e ano novo e a cada matéria feita com preguiça ou de má vontade, aqueles profissionais – outrora alunos – vão se perguntar `que bosta de jornalista quero ser?’ e então terão certeza da importância que aquele educador teve. Perceberão que essa marca, apenas um verdadeiro mestre, no sentido mais puro e literal da palavra, poderia deixar.

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