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Escrevo, depois apago

Não fui eu, foi meu eu-lírico

mês

abril 2011

Bença, vó

“É pecado, minha filha, tá nos dez mandamentos, melhor parar com isso”, é a frase que queria que minha avó me dissesse. E que, usando argumentos religiosos e citando ensinamentos bíblicos – se estes fossem necessários -, me convencesse de que é melhor mesmo parar por  aqui.

Assim sendo, me sentei na cadeira de balanço talhada por meu bisavô ha sei lá eu quantos anos e despejei, olhando nos olhos da senhorinha mais importante da minha vida, tudo o que se passava pela minha cabeça. Todo o envolvimento, tudo que é errado, todos os pensamentos. Detalhes sórdidos, falados em alto e bom tom, sem respeitar devidamente o relógio de parede pertencente à família por mais de cem anos.

Contei mesmo. Tudo aquilo que amiga nenhuma sabe, algumas colegas até desconfiam (mas nunca terão a certeza) e que os mais distraídos nem imaginam. Todos os ancestrais se reviraram nos túmulos ao ouvir os segredos, confissões e angústias.

Contei tudo. Porém, nas piores partes – aquelas, mais constrangedoras – não tive coragem de olhar em seus olhos, tive medo de encarar sua expressão. Não sabia que tamanho de indignação me esperava. Os olhos, quase que por vontade própria, teimavam em olhar para baixo, para os lados, para os quadros e só acataram a ordem de se voltar para a avó quando se depararam com a imagem, pendurada na parede ao lado, de Jesus na cruz. Esse julgamento lhes era mais intimidador.

– É isso, vó! Tô meio confusa e não sei o que fazer!

Desabafei. Me calei.

Vovó ouvira a tudo pacientemente, mas nada falara. Pensou, pensou, contraiu os lábios, cerrou os olhos, esboçou um começo de fala e desistiu. Levantou, vagou levemente pela sala, mexeu os dedos como se fizesse contas complicadas, apoiou o queixo na palma das mãos, ajeitou os cabelos, fitou o além. Parou. A passos firmes, aproximou-se do sofá em que antes estava sentada. Sentou. Me fitou duramente e balançou a cabeça para cima e para baixo, como que concordando. Sorriu.

– Só tem uma coisa que eu preciso saber, minha filha, um detalhe, um dos únicos que você não mencionou.

– Pode perguntar, vó, não tenho mais nada a esconder.

– Ele é cheiroso?

(pausa dramática para a minha confusão. Não era bem aquilo que estava esperando.)

– É…

Apoiou a mão em meu ombro, deu um beijo em minha testa, olhou bem fundo nos meus olhos e concluiu:

– Aproveite, minha filha, seja feliz! E se depois a alegria passar a ser sofrimento, a gente senta aqui de novo e descobre direitinho o que fazer para passar. Tá? …. Ah, só não vai me contar essas coisas para sua mãe, hein ? Ela é muito quadrada, ficaria indignada!

 Arregalei os olhos, estupefata. Aliviada. Buscou um café e puxou do armário a bolacha que, rara, só pode ser degustada com permissão. Jogou o pacote inteiro no meu colo e continuou, curiosa:

– Mas vai, agora vamos às partes interessantes, me conta: ele tem cheiro de quê?

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Proibido

É para ser filha da puta? Então seja filha da puta direito, daquelas dignas de apanhar com razão, sem dó de puxar o brinco de argola e arrancar tufos de cabelo.

É para ser amante? Então é para ser amante direito, daquelas merecedoras de tórridas noites proibidas e não apenas nhem nhem nhem. É para ser daquelas que toda mulher, no fundo, morre de inveja. Daquelas que tem o homem na palma da mão, na ponta dos pés, na barra do vestido.

Se é para ter um caso, é para ter um caso direito. Do tipo que se atraca no banheiro do trabalho, incontrolável. Do tipo que passa a mão por debaixo da mesa, que provoca na fila do almoço, que fala besteira no elevador, ao pé do ouvido.

Se é para pegar, então é para pegar de jeito. Usando todos os dedos, friccionando todos os músculos, tocando tudo quanto é parte, agarrando de todas as maneiras.

Se é para brincar de seduzir, então é para seduzir sem medo. Sem pudor, sem muito respeito, sem pisar em ovos, sem escolher local.

Se é só para ser passageiro, é para valer a pena. É ser intenso, palpável, real. É mexer com corpo e alma. É tempestade de verão, tufão, tsunami, terremoto. Devastador, de enlouquecer, de sofrer.

Se é para sofrer, é para sofrer com gosto. De ‘quero mais’, de ‘por que não?’, de desilusão. É doer o coração, o estômago e os rins. É estragar o fígado para afogar as mágoas, esgotar as lágrimas e a playlist de fossa. É ter vontade de assistir a clássicos e morrer de chorar no chão do banheiro. É para se entregar à dor por dias e noites, ver sentido em clichês, citar filósofos, comprar livros de auto-ajuda e fazer brigadeiro às três da manhã. É para se olhar no espelho toda borrada de rímel, nada apresentável, lamentável. Que é para sair dessa logo e levantar do fundo do poço, para começar tudo de novo.

Se é para ser, que seja logo. Porque se é para ser errado, que não tenha nada de certo. Se é para deixar a boa moça de lado, que seja má. Que seja já.

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