“É pecado, minha filha, tá nos dez mandamentos, melhor parar com isso”, é a frase que queria que minha avó me dissesse. E que, usando argumentos religiosos e citando ensinamentos bíblicos – se estes fossem necessários -, me convencesse de que é melhor mesmo parar por  aqui.

Assim sendo, me sentei na cadeira de balanço talhada por meu bisavô ha sei lá eu quantos anos e despejei, olhando nos olhos da senhorinha mais importante da minha vida, tudo o que se passava pela minha cabeça. Todo o envolvimento, tudo que é errado, todos os pensamentos. Detalhes sórdidos, falados em alto e bom tom, sem respeitar devidamente o relógio de parede pertencente à família por mais de cem anos.

Contei mesmo. Tudo aquilo que amiga nenhuma sabe, algumas colegas até desconfiam (mas nunca terão a certeza) e que os mais distraídos nem imaginam. Todos os ancestrais se reviraram nos túmulos ao ouvir os segredos, confissões e angústias.

Contei tudo. Porém, nas piores partes – aquelas, mais constrangedoras – não tive coragem de olhar em seus olhos, tive medo de encarar sua expressão. Não sabia que tamanho de indignação me esperava. Os olhos, quase que por vontade própria, teimavam em olhar para baixo, para os lados, para os quadros e só acataram a ordem de se voltar para a avó quando se depararam com a imagem, pendurada na parede ao lado, de Jesus na cruz. Esse julgamento lhes era mais intimidador.

– É isso, vó! Tô meio confusa e não sei o que fazer!

Desabafei. Me calei.

Vovó ouvira a tudo pacientemente, mas nada falara. Pensou, pensou, contraiu os lábios, cerrou os olhos, esboçou um começo de fala e desistiu. Levantou, vagou levemente pela sala, mexeu os dedos como se fizesse contas complicadas, apoiou o queixo na palma das mãos, ajeitou os cabelos, fitou o além. Parou. A passos firmes, aproximou-se do sofá em que antes estava sentada. Sentou. Me fitou duramente e balançou a cabeça para cima e para baixo, como que concordando. Sorriu.

– Só tem uma coisa que eu preciso saber, minha filha, um detalhe, um dos únicos que você não mencionou.

– Pode perguntar, vó, não tenho mais nada a esconder.

– Ele é cheiroso?

(pausa dramática para a minha confusão. Não era bem aquilo que estava esperando.)

– É…

Apoiou a mão em meu ombro, deu um beijo em minha testa, olhou bem fundo nos meus olhos e concluiu:

– Aproveite, minha filha, seja feliz! E se depois a alegria passar a ser sofrimento, a gente senta aqui de novo e descobre direitinho o que fazer para passar. Tá? …. Ah, só não vai me contar essas coisas para sua mãe, hein ? Ela é muito quadrada, ficaria indignada!

 Arregalei os olhos, estupefata. Aliviada. Buscou um café e puxou do armário a bolacha que, rara, só pode ser degustada com permissão. Jogou o pacote inteiro no meu colo e continuou, curiosa:

– Mas vai, agora vamos às partes interessantes, me conta: ele tem cheiro de quê?

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