Minha vontade era pegar um táxi, mas sabia que sairia muito caro. Precisava ir embora, aliviar aquela tensão de qualquer forma. Nem queria você tanto assim, dessa vez era mais uma coisa interna. Minha comigo mesma, sabe?
Caminhei apressada até o ponto. E o ônibus – ao contrário do inconveniente despertador, das pessoas que insistem em nos achar muito legais e do universo, que parece conspirar para tudo dar errado – teve compaixão: parecia me esperar alcançar a avenida Paulista. O caminho para casa nunca foi tão tranquilo. A marginal nunca esteve tão livre.
Não falei nem ‘oi’ ao abrir a porta. Troquei de roupa e corri, de novo. Só cheguei cinco minutos atrasada na aula de spinning. Coloquei um sorriso no rosto ao reencontrar o professor gostoso. Gay, mas gostoso, bom de se olhar.
Lhe enviei toda a inquietação daquele momento (passei da fase de não te deixar saber o que sinto). Não esperei resposta. Sabia que uma hora ela viria, mas esqueci propositalmente o celular na bolsa. Silencioso.
Pedalei como se daquilo dependesse minha vida. Deixei transpirar toda a angústia, tensão e preocupação que não envolve só você, mas tudo que anda me cercando.
Revi velhos amigos, dei boas risadas e me dei ao luxo de beber uns bons copos de cerveja em plena segunda feira, suada.
Cheguei em casa já era quase madrugada. De novo. O sal grosso acompanhou o banho gelado (que era para afastar toda aquela zica). Desisti de secar o cabelo e me permiti assistir a um bom filme até às três da manhã.
O dia vai começar cedo. De novo. Mas o mau humor matinal, proveniente do pouco sono, dessa vez valerá a pena. Não resolvemos nossa situação. Ainda. Mas me sinto renovada, preparada para aguentar mais um dia de provável frustração.
Te confesso que cheguei a pensar na possibilidade de desistir, mas farei jus à minha fama de teimosa (sempre tão enfatizada por minha mãe). E se demorar muito, paciência. A bicicleta sempre ajudará. De alguma coisa essa tensão vai me servir: vou ficar com as pernas torneadas.

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