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Escrevo, depois apago

Não fui eu, foi meu eu-lírico

mês

junho 2011

Tomorrow never knows

Posso não te deixar nada. Nenhuma boa lembrança que te faça sorrir numa tarde ociosa de quinta feira, nenhum arquivo de word escondido na pasta de nome difícil de achar no computador, nem um mísero momento de devaneios num almoço solitário no meio da semana, nada.
Mas as minhas mensagens, notas desesperadamente confusas escritas no caminho para casa e rascunhos de e-mails nunca enviados ou postados no blog, um dia, certamente, virarão um livro.
Te entrego, envio por sedex 10, juntamente com uma carta em agradecimento pelos momentos que, graças a você, foram muito mais fáceis de superar. Pelos sorrisos abertos de maneira muito mais natural. Pela criatividade – e consequente produtividade – enfatizada pela química dos hormônios à flor da pele. Pela incompreendida vontade e improvável bom humor ao levantar da cama – mesmo num horário desumano e sabendo que o dia não será tão agradável – só para saber o que os instantes que passarei com você me reserva.
O tesão com que vivo minha (tão comum) vida nesses poucos meses de ilusão e aventura romântica de sabido fim iminente – de inevitável, irremediável, ponto de interrogação ao final do mês que se aproxima -, de tão bom, por mais que incerto, te dá o direito, todo ele, de não me guardar numa caixinha dentro do peito.
Não quero ser sua eterna lembrança, mas sua intensa rotina. Não quero ser motivo de textos nostálgicos, mas de incontrolável vontade de largar a leitura no meio do expediente e sair para tomar um café com direito a conversa de três horas. Não quero ser personagem insistente dos sonhos noturnos, mas presença constante nas tardes de cama sem nem pensar na possibilidade de dormir.
Pode me esquecer, ignorar, deixar para trás e substituir na próxima primavera. Mas agora, me tenha presente. De verdade, sem frescura, sem joguinhos e sem espera.

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À mão

“Cadê a caneta? Bolsa de jornalista sem caneta? Tenha dó! Faça-me o favor! Não é possível que não tenha uma mísera caneta nessa merda que tem de tudo, ó, tudo: hidratante para as mãos, hidratante labial, maquiagem, água, barrinhas de cereal, tudo! Dá para sobreviver um mês ilhada nos escombros pós-terremoto no Japão, mas não dá para ser jornalista porque não tem UMA caneta! Tenha dó! Faça-me o favor!” brigava comigo mesma enquanto remexia fervorosamente o interior da bolsa, sentada na mureta em frente ao terminal de ônibus, sem coragem de pegar o metrô em horário de pico.

Acontecia de novo. Pontos de ônibus sempre faziam isso comigo. Frases se montavam em minha cabeça. Verbos conjugados perfeitamente, predicados, objetos diretos e indiretos, quando preciso. Ponto, vírgula, reticências. Um texto organizado, quase desenhado, bonito. Bloquinho na mão, menos a caneta.

As teclas do iPhone nunca acompanham meus pensamentos. Nessas horas, o tradicional sempre funciona melhor. Que desespero. Ideias fluindo, textos e mais textos sendo formados, mudados e perdidos, quando não registrados.

Penso no blog e em quanto tempo faz que não o alimento. É tanta coisa acontecendo na vida que parece que bloqueia o processo de criação. Escrevo meia página de Word e travo. Todos os fragmentos estão guardados em pastas no desktop. Pastas de textos incompletos, esperançosos, abandonados.

E agora, logo agora que veio a inspiração – aquela sempre tão frutífera de pontos de ônibus – não consigo escrever porque não tenho caneta!

“MEU DEUS!! Como não tenho UMA caneta?” apelo para forças divinas, esperando que a aclamada ferramenta milagrosamente se materialize em minhas mãos. As pessoas ao redor começam a se incomodar. O título de maluca, dado à moça que canta alto de olhos fechados – como que sentindo a música – enquanto se balança num movimento quase autista ao ouvir o som extraído do seu aparelho de mp3, é logo passado a mim, a louca que resmunga ao remexer e derrubar pen drives, barrinhas de cereal e pincel de blush da bolsa, desesperada.

Daria tudo por uma caneta, um lápis, um pedaço de carvão ou qualquer coisa que riscasse o papel amarelado do charmoso caderninho que ganhei de minha mãe quando me formei em jornalismo. Uma jornalista sem caneta. “Estamos começando bem a carreira, hein? Muito bem!”.

Alguma coisa me chama a atenção do outro lado da rua e me desconcentro. Um assalto, uma batida, não sei direito, estou mais preocupada com o texto sobre caminhos e estradas e jornadas que tenho na mente e não quero perder. “Calma, era o que mesmo? Ah sim, para onde as pessoas estão indo, se sabem para onde estão indo, se eu sei para onde estou indo. Ou era a rotina? Rotina das pessoas que pegam o mesmo ônibus, no mesmo horário, todos os dias…Não, não era isso, era mais poético! Não era? Merda! Cadê a caneta? Perdi! Perdi o texto, perdi a inspiração, perdi a caneta, perdi a credibilidade (pelo menos com as pessoas a minha volta)”.

Entro no metrô, passo pela catraca, desisto do texto. Resolvo checar se estou com as chaves de casa e…”filha da puta!! Quem é que guarda caneta no bolsinho escondido das chaves?”. Bloquinho na mão, cinco estações pela frente, a sorte de conseguir um assento, a procura pela inspiração e…”acho que vou escrever sobre a importância de ter uma caneta…” penso em voz alta, não me importando em me tornar, até a estação final, a louca da caneta que fala sozinha no terceiro vagão.

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