“Cadê a caneta? Bolsa de jornalista sem caneta? Tenha dó! Faça-me o favor! Não é possível que não tenha uma mísera caneta nessa merda que tem de tudo, ó, tudo: hidratante para as mãos, hidratante labial, maquiagem, água, barrinhas de cereal, tudo! Dá para sobreviver um mês ilhada nos escombros pós-terremoto no Japão, mas não dá para ser jornalista porque não tem UMA caneta! Tenha dó! Faça-me o favor!” brigava comigo mesma enquanto remexia fervorosamente o interior da bolsa, sentada na mureta em frente ao terminal de ônibus, sem coragem de pegar o metrô em horário de pico.

Acontecia de novo. Pontos de ônibus sempre faziam isso comigo. Frases se montavam em minha cabeça. Verbos conjugados perfeitamente, predicados, objetos diretos e indiretos, quando preciso. Ponto, vírgula, reticências. Um texto organizado, quase desenhado, bonito. Bloquinho na mão, menos a caneta.

As teclas do iPhone nunca acompanham meus pensamentos. Nessas horas, o tradicional sempre funciona melhor. Que desespero. Ideias fluindo, textos e mais textos sendo formados, mudados e perdidos, quando não registrados.

Penso no blog e em quanto tempo faz que não o alimento. É tanta coisa acontecendo na vida que parece que bloqueia o processo de criação. Escrevo meia página de Word e travo. Todos os fragmentos estão guardados em pastas no desktop. Pastas de textos incompletos, esperançosos, abandonados.

E agora, logo agora que veio a inspiração – aquela sempre tão frutífera de pontos de ônibus – não consigo escrever porque não tenho caneta!

“MEU DEUS!! Como não tenho UMA caneta?” apelo para forças divinas, esperando que a aclamada ferramenta milagrosamente se materialize em minhas mãos. As pessoas ao redor começam a se incomodar. O título de maluca, dado à moça que canta alto de olhos fechados – como que sentindo a música – enquanto se balança num movimento quase autista ao ouvir o som extraído do seu aparelho de mp3, é logo passado a mim, a louca que resmunga ao remexer e derrubar pen drives, barrinhas de cereal e pincel de blush da bolsa, desesperada.

Daria tudo por uma caneta, um lápis, um pedaço de carvão ou qualquer coisa que riscasse o papel amarelado do charmoso caderninho que ganhei de minha mãe quando me formei em jornalismo. Uma jornalista sem caneta. “Estamos começando bem a carreira, hein? Muito bem!”.

Alguma coisa me chama a atenção do outro lado da rua e me desconcentro. Um assalto, uma batida, não sei direito, estou mais preocupada com o texto sobre caminhos e estradas e jornadas que tenho na mente e não quero perder. “Calma, era o que mesmo? Ah sim, para onde as pessoas estão indo, se sabem para onde estão indo, se eu sei para onde estou indo. Ou era a rotina? Rotina das pessoas que pegam o mesmo ônibus, no mesmo horário, todos os dias…Não, não era isso, era mais poético! Não era? Merda! Cadê a caneta? Perdi! Perdi o texto, perdi a inspiração, perdi a caneta, perdi a credibilidade (pelo menos com as pessoas a minha volta)”.

Entro no metrô, passo pela catraca, desisto do texto. Resolvo checar se estou com as chaves de casa e…”filha da puta!! Quem é que guarda caneta no bolsinho escondido das chaves?”. Bloquinho na mão, cinco estações pela frente, a sorte de conseguir um assento, a procura pela inspiração e…”acho que vou escrever sobre a importância de ter uma caneta…” penso em voz alta, não me importando em me tornar, até a estação final, a louca da caneta que fala sozinha no terceiro vagão.

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