Posso não te deixar nada. Nenhuma boa lembrança que te faça sorrir numa tarde ociosa de quinta feira, nenhum arquivo de word escondido na pasta de nome difícil de achar no computador, nem um mísero momento de devaneios num almoço solitário no meio da semana, nada.
Mas as minhas mensagens, notas desesperadamente confusas escritas no caminho para casa e rascunhos de e-mails nunca enviados ou postados no blog, um dia, certamente, virarão um livro.
Te entrego, envio por sedex 10, juntamente com uma carta em agradecimento pelos momentos que, graças a você, foram muito mais fáceis de superar. Pelos sorrisos abertos de maneira muito mais natural. Pela criatividade – e consequente produtividade – enfatizada pela química dos hormônios à flor da pele. Pela incompreendida vontade e improvável bom humor ao levantar da cama – mesmo num horário desumano e sabendo que o dia não será tão agradável – só para saber o que os instantes que passarei com você me reserva.
O tesão com que vivo minha (tão comum) vida nesses poucos meses de ilusão e aventura romântica de sabido fim iminente – de inevitável, irremediável, ponto de interrogação ao final do mês que se aproxima -, de tão bom, por mais que incerto, te dá o direito, todo ele, de não me guardar numa caixinha dentro do peito.
Não quero ser sua eterna lembrança, mas sua intensa rotina. Não quero ser motivo de textos nostálgicos, mas de incontrolável vontade de largar a leitura no meio do expediente e sair para tomar um café com direito a conversa de três horas. Não quero ser personagem insistente dos sonhos noturnos, mas presença constante nas tardes de cama sem nem pensar na possibilidade de dormir.
Pode me esquecer, ignorar, deixar para trás e substituir na próxima primavera. Mas agora, me tenha presente. De verdade, sem frescura, sem joguinhos e sem espera.

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