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Escrevo, depois apago

Não fui eu, foi meu eu-lírico

mês

julho 2011

Back to black

Menti.

Não precisava me conhecer/reconhecer no mundo novo, na vida nova. Não entrei em crise pelo término de um ciclo vezes longo, vezes curto e maior parte do tempo agradável e encantador. Não me preocupava com o futuro. Sempre soube me virar muito bem.

Me conheço e reconheço no mundo novo e na vida nova sem maiores dificuldades. Sei, com humildade e sem modéstia de meus defeitos e qualidades. Percebo minha potencialidade.

Não precisava me ocupar para esquecer o que estava por vir. Necessitava, quase como ar, parar de pensar no que já havia sido. Foi você.  Tudo começou naquela noite, aquela em que você tinha mesmo ido embora. Nunca fui de verter muitas lágrimas e a TPM já havia passado há semanas. Inexplicavelmente, me debulhei assistindo ao programa do Jô. Tudo porque o entrevistado carregava, em seu rosto, a barba mal feita e, em seu jeito, a mesma mania de passar os dedos por entre os cabelos entre frases inteligentes proferidas com muita naturalidade. Chorei até dormir. Foi aí.

Acordei cedo e me inscrevi na yoga, no pilates, na hidroginástica, no spinning e nas aulas de localizada – perna, bunda, braço e peito. Devorei livros, livros e mais livros. Assisti a clássicos filmes. Me esforcei para aprender a expressar meus sentimentos e soltar palavras reprimidas. Escrevi textos. Fiz matérias. Aceitei freelas. Dei aulas de inglês. Fui ao ginecologista, endocrinologista, dermatologista, cabeleireiro e astrólogo. Cuidei da alma.

Aprendi a andar de bicicleta e a beber tequila sem golfar. Troquei a cerveja pelo vinho, o refrigerante por suco e a fritura pelos assados. Diminui a carne vermelha, o carboidrato e o doce. Tomei shakes diet de café da manhã e sanduíches integrais no jantar. Dormi nove horas por noite e entornei dois litros de água por dia. Cuidei do corpo.

Arrumei um jeito de te tirar dos meus sonhos, de não fuçar suas redes sociais e não tocar em seu nome. Não chorei mágoas, não desabafei, não pirei. Fiquei bem.

Comprei maquiagem, roupa e sapato. Saí. Recebi inúmeros drinks, sorrisos, cantadas e caronas. Passei noites às gargalhadas e dias sem ressaca. Acreditei, de verdade, na magia do desejo feito ao apagar as velas do bolo de aniversário. Visitei museus, passeei em parques, estudei línguas.  Arrumei minha rotina, meu armário e minha vida. Sem pesar, enfim, respirei aliviada.

E aí você voltou. Juntamente com as palavras engasgadas, a vontade de fumar e o medo de perder. E a TPM, mais uma vez, não estava ali. E, mais uma vez, cai em prantos ao deixar a água do banho lavar desde os longos cabelos tratados até as pernas recém-torneadas pelo fracassado esforço de tentar te esquecer. E aí eu desejei que você nunca tivesse voltado, que nunca tivesse nascido. Ou, mais fácil, que eu nunca tivesse te amado.

Quando o certo é o errado e o errado é o certo

E aí que, depois de tanta (des)ilusão,  resolvi deixar minha rebeldia amorosa de lado e abri a porteira do coração (olha que lindo!) pro certinho, bonitinho, aquele que tem futuro, a quem minha mãe amaria chamar de genro, leal, fiel. O certo.

É, ‘cuspi pra cima e caiu bem no meio da testa’, como diria minha astuta avó. Pois é, finalmente me envolvia com o temido ‘bonzinho’.

E não é que me surpreendi? Parei com aquele pré-conceito bobo. Era tudo muito legal, tudo muito certo. Não tinha que me preocupar com aquelas típicas coisas, como ‘com quem está’, ‘aonde está’ ou ‘por que não ligou’. Não me dava nem a chance de indagar ou ter pequenos surtos. Afinal, estava sempre comigo e quando não era assim, dava satisfações que, pela primeira vez, nem eram tão requisitadas.

Tinha mensagem de boa noite, de bom dia. Até (acreditem se quiserem) mensagem de bom almoço e bom café. Tinha passeio de final de semana, tinha carinho explícito em público. Não tinha preocupações. Não me deixava errar, tudo sempre nos eixos, tudo sempre correto.

Legal, né? Não, um porre. Gostoso, né? Não, um tédio.

‘Calma, Ana, se acalma, se aguenta’, cantava quase como um mantra em posição de yoga enquanto me martirizava por não pensar nele quando ia dormir, por não ser a primeira imagem que me vinha a cabeça quando acordava, por não tê-lo me atormentando em sonhos e por não dedicar comentários maldosos, amorosos ou sofridos a ele em redes sociais. Definitivamente, não era dele a ligação tão esperada em datas comemorativas.

Tá errado, tá muito errado. Mais errado com o certo do que quando era com o errado. Era bom quando era o errado. Era vivo. Era certo.

O certo em detrimento do bom ou o bom em detrimento do certo? Ai, tá tudo errado, coração burro do caramba.

Tem que querer estar perto, tem que querer pegar, tem que valer a pena sofrer. Tem que querer arriscar e se fazer de idiota. Tem que acreditar em mentiras, tem que cegar, tem que pulsar. Não tem jeito, tem que vibrar, esperançosa, junto com o toque do celular. E tem, tem que esperar, ansiosa, pelo sms que nunca chega, que pode nunca chegar. Tem que se apaixonar.

Eu escrevo, tu escreves, nós escrevemos

E aí penso naquilo que nos uniu. Interesses em comum, mesmo jeitão, mesmas músicas, mesmas roupas, mesmas manias, mesmos vícios, mesmas vontades, curiosidades, preferências. Mesmos amores. Foi assim, logo de cara, sem nem precisar muito esforço. Te conheci naquele traje que pouco dizia sobre você e, percebida a falsa ilusão que aparências criam, em duas semanas já frequentava seu apartamento, já fumava cigarros na sua cozinha, já me acomodava no chão, debaixo do cobertor do mickey.

De tudo aquilo que já foi citado e muito, muito mais que tínhamos em comum, sei que existia um algo que nos aproximava ainda mais. Palavras. Às vezes somos duras com nós mesmas, não temos tanta paciência com homens (embora corramos atrás deles por muito mais tempo do que deveríamos) e pessoas, na maioria das vezes, nos cansam. Mas as palavras, ah, essas tratamos com majestoso respeito. Fosse no ponto de ônibus, fosse na calada da madrugada, na terrível insônia. Sempre tivemos alma de escritor.

Escritoras. Sim, é isso que, no fundo, queremos ser. É isso que, no fundo, somos. Sabemos que provavelmente não sobreviveremos assim, mas escreveremos (sobre isso, inclusive). Jornalistas e escritoras, professoras e escritoras, executivas e escritoras, desempregadas e escritoras, vagabundas e escritoras. Não importa o que colocará o pão em nossas mesas, o uísque em nossos bares e os cigarros em nossos pulmões. Faremos – de maneira muito bem feita – o que for preciso, o que for requisitado, o que nos for mandado, com ou sem prazer. Contanto que, nas horas vagas, possamos escrever.

As pessoas, não raras vezes, me perguntam porque cargas d’água mantenho um blog sem nenhum compromisso, porque me preocupo em escrever sem um chefe me cobrando, sem um cheque pra cair no final do mês. A essas, sempre, mesmo sem querer, lanço um olhar de desprezo. Elas não entendem. Não nos entendem.

Amiga de blog, minha ídola, minha fã. Me reconheço e te conheço tanto em seus textos. Em meus textos. Às vezes fingimos ser ficção. Em outras, inventamos mesmo. Somos boas nisso e temos a certeza de que muitos nunca saberão o que é verdade e o que é mentira. Mas a gente sabia. Era só ler os primeiros parágrafos que entendíamos sobre o que aquilo, verdadeiramente, se tratava. Novos tempos, minha cara. Novos textos.

Hoje entro naquela página tão sua – mesmo estilo, mesmo jeitão – e me dá uma dorzinha por não saber direito o significado daquilo que exprime em tão belas palavras. Não conheço mais o real contexto das suas escritas. Não fazemos mais parte das nossas vidas, dos nossos parágrafos. Mas esse é mais um motivo pelo qual sigo amando tanto as palavras: não deixe de escrever, estarei sempre te lendo. Assim, estaremos sempre conectadas. Por nossos textos.

A hora de ir pro altar

Cidade do interior é assim mesmo: calor durante o dia, frio durante a noite. Aquela calmariiiiiia que inquieta, ao invés de acalmar, qualquer um acostumado com uma metrópole. Ar puro, vizinhança inteira se conhece, é amiga e todo mundo sabe da vida de todo mundo (‘aquela ali tem um caso com o bonitinho que mora em frente àquela moça que engravidou do coroinha, lembra? Então, aí…’), uma maravilha!

Praça de interior é assim mesmo: crianças brincando enquanto o sol ainda raia, jovens se embebedando e paquerando à luz da lua. Um clima acolhedor, sensação de cobertor velhinho em noite de inverno.

Tias do interior são assim mesmo: acumulam as meias ainda não entregues – presentes de 3 aniversários e 4 natais -, enchendo a gaveta do guarda roupa para o rigoroso inverno. Fazem aquelas receitas de bolinho de chuva que ninguém, no mundo, sabe fazer igual e, acompanhadas de chocolate quente no capricho, ouvem suas histórias xoxas, da vida comum, como se fossem acontecimentos do ano.

É uma delícia, por mais que tedioso, vistá-las nessa época do ano. Por lá, a festa junina é da melhor qualidade. Arroz doce, canjica, quentão, bolo de fubá, broa de milho, tudo caseiro! A festa é de São João, mas as tias são devotas de Santo Antônio, o casamenteiro, e levam tudo muito a sério:

– Minha filha, tome: pão de santo Antônio, bolo de santo Antônio, água de santo Antônio! Tome tudo, tudinho!

– Mas é muito…

– Olha, hoje em dia, até santo tá cobrando juros, correção e ainda entra na onda da inflação! Faça direito, menina, se ajude: beba tudo, coma tudo e aproveita pra fazer essa novena aqui, tó!

– Tá bom, tia, obrigada…mas…

– Você quer ficar que nem a filha do dono da vendinha? Olha lá, que dó: quarentona, solteirona, de tão desesperada usa essas roupas curtas nesse frio, viu só?! Você quer ficar assim, quer?

– Não, tia, mas é que….

– Sabe? A a mãe da moça que engravidou do coroinha tem muita fé! Ela fez que fez promessa, fez que fez novena e não é que o santo atendeu? Só que ela, coitada, pedia errado: em vez de genro, pedia um neto e cá ele veio! Mas a moça, coitada, agora tá mãe solteira! Você quer ficar assim, quer? Quer?

– Não, tia, mas é que…

– Tome, minha filha, mais um pedaço de bolo e leve esse pão com você, que é pra quando sentir que tá indo, mas não vai…Sabe assim, aquela sensação?

– Na verdade, não, mas…

– Olha aqui, Esmeralda, a cria vai voltar pra cidade grande munida de santo Antônio no estômago e, se o santo quiser, no coração!

– Que bom, minha filha! Esse foi feito com muita fé! Do próximo ano não passa, agora sim você vai arrumar um marido!

– Mas eu…não quero arrumar um marido no próximo ano…

– O QUÊ? NÃO? COMO NÃO? FÁÁÁÁÁTIMA, CORRE AQUI!! COSPE, MINHA FILHA! COSPE! COSPE TUDO! PÕE ESSE DEDO NA GUELA, COSPE, COSPE!

– Ai, Esmeralda, que bom que deu tudo certo com a bichinha! Preciso avisar que ela esqueceu as meias, ano que vem a gente entrega junto com os próximos pares! Ai, ai, que idade bonita a dela! Mas ela tem razão, é muito nova, teem tanta vida pela frente… que bom que a gente fez ela cuspir o bolo, o pão, a água…

– É, isso aí a gente deu um jeito, né? Mas quero ver o que que eu vou fazer agora com os número dela que eu distribuí pros meninos, filhos das cumadres daqui, que moram na cidade grande. Avisei que a cria tava feita e que tava procurando marido…

– ESMERALDA!!!!

– Ah, Fátima, sabe como é, né? Não dá para deixar tudo na mão do santo assim hoje em dia. Só quis dar uma forcinha…

Rotina

E aí eu te vejo vivendo essa vidinha sem graça, chata, com essas manias ridículas.

Os mesmos horários.

Mesmos programas de sábado à noite, o mesmo cansaço nas tardes de sexta feira, o mesmo passeio aos domingos pela manhã.

Os mesmos bares, mesmos pratos, mesmos drinks.

Mesmos discursos, mesmos conselhos, mesmo café.

Mesmos discos, mesmas músicas, mesma dança.

 E me dá (mesmo) tanta vontade de fazer parte de tudo isso.

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