Cidade do interior é assim mesmo: calor durante o dia, frio durante a noite. Aquela calmariiiiiia que inquieta, ao invés de acalmar, qualquer um acostumado com uma metrópole. Ar puro, vizinhança inteira se conhece, é amiga e todo mundo sabe da vida de todo mundo (‘aquela ali tem um caso com o bonitinho que mora em frente àquela moça que engravidou do coroinha, lembra? Então, aí…’), uma maravilha!

Praça de interior é assim mesmo: crianças brincando enquanto o sol ainda raia, jovens se embebedando e paquerando à luz da lua. Um clima acolhedor, sensação de cobertor velhinho em noite de inverno.

Tias do interior são assim mesmo: acumulam as meias ainda não entregues – presentes de 3 aniversários e 4 natais -, enchendo a gaveta do guarda roupa para o rigoroso inverno. Fazem aquelas receitas de bolinho de chuva que ninguém, no mundo, sabe fazer igual e, acompanhadas de chocolate quente no capricho, ouvem suas histórias xoxas, da vida comum, como se fossem acontecimentos do ano.

É uma delícia, por mais que tedioso, vistá-las nessa época do ano. Por lá, a festa junina é da melhor qualidade. Arroz doce, canjica, quentão, bolo de fubá, broa de milho, tudo caseiro! A festa é de São João, mas as tias são devotas de Santo Antônio, o casamenteiro, e levam tudo muito a sério:

– Minha filha, tome: pão de santo Antônio, bolo de santo Antônio, água de santo Antônio! Tome tudo, tudinho!

– Mas é muito…

– Olha, hoje em dia, até santo tá cobrando juros, correção e ainda entra na onda da inflação! Faça direito, menina, se ajude: beba tudo, coma tudo e aproveita pra fazer essa novena aqui, tó!

– Tá bom, tia, obrigada…mas…

– Você quer ficar que nem a filha do dono da vendinha? Olha lá, que dó: quarentona, solteirona, de tão desesperada usa essas roupas curtas nesse frio, viu só?! Você quer ficar assim, quer?

– Não, tia, mas é que….

– Sabe? A a mãe da moça que engravidou do coroinha tem muita fé! Ela fez que fez promessa, fez que fez novena e não é que o santo atendeu? Só que ela, coitada, pedia errado: em vez de genro, pedia um neto e cá ele veio! Mas a moça, coitada, agora tá mãe solteira! Você quer ficar assim, quer? Quer?

– Não, tia, mas é que…

– Tome, minha filha, mais um pedaço de bolo e leve esse pão com você, que é pra quando sentir que tá indo, mas não vai…Sabe assim, aquela sensação?

– Na verdade, não, mas…

– Olha aqui, Esmeralda, a cria vai voltar pra cidade grande munida de santo Antônio no estômago e, se o santo quiser, no coração!

– Que bom, minha filha! Esse foi feito com muita fé! Do próximo ano não passa, agora sim você vai arrumar um marido!

– Mas eu…não quero arrumar um marido no próximo ano…

– O QUÊ? NÃO? COMO NÃO? FÁÁÁÁÁTIMA, CORRE AQUI!! COSPE, MINHA FILHA! COSPE! COSPE TUDO! PÕE ESSE DEDO NA GUELA, COSPE, COSPE!

– Ai, Esmeralda, que bom que deu tudo certo com a bichinha! Preciso avisar que ela esqueceu as meias, ano que vem a gente entrega junto com os próximos pares! Ai, ai, que idade bonita a dela! Mas ela tem razão, é muito nova, teem tanta vida pela frente… que bom que a gente fez ela cuspir o bolo, o pão, a água…

– É, isso aí a gente deu um jeito, né? Mas quero ver o que que eu vou fazer agora com os número dela que eu distribuí pros meninos, filhos das cumadres daqui, que moram na cidade grande. Avisei que a cria tava feita e que tava procurando marido…

– ESMERALDA!!!!

– Ah, Fátima, sabe como é, né? Não dá para deixar tudo na mão do santo assim hoje em dia. Só quis dar uma forcinha…

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