E aí penso naquilo que nos uniu. Interesses em comum, mesmo jeitão, mesmas músicas, mesmas roupas, mesmas manias, mesmos vícios, mesmas vontades, curiosidades, preferências. Mesmos amores. Foi assim, logo de cara, sem nem precisar muito esforço. Te conheci naquele traje que pouco dizia sobre você e, percebida a falsa ilusão que aparências criam, em duas semanas já frequentava seu apartamento, já fumava cigarros na sua cozinha, já me acomodava no chão, debaixo do cobertor do mickey.

De tudo aquilo que já foi citado e muito, muito mais que tínhamos em comum, sei que existia um algo que nos aproximava ainda mais. Palavras. Às vezes somos duras com nós mesmas, não temos tanta paciência com homens (embora corramos atrás deles por muito mais tempo do que deveríamos) e pessoas, na maioria das vezes, nos cansam. Mas as palavras, ah, essas tratamos com majestoso respeito. Fosse no ponto de ônibus, fosse na calada da madrugada, na terrível insônia. Sempre tivemos alma de escritor.

Escritoras. Sim, é isso que, no fundo, queremos ser. É isso que, no fundo, somos. Sabemos que provavelmente não sobreviveremos assim, mas escreveremos (sobre isso, inclusive). Jornalistas e escritoras, professoras e escritoras, executivas e escritoras, desempregadas e escritoras, vagabundas e escritoras. Não importa o que colocará o pão em nossas mesas, o uísque em nossos bares e os cigarros em nossos pulmões. Faremos – de maneira muito bem feita – o que for preciso, o que for requisitado, o que nos for mandado, com ou sem prazer. Contanto que, nas horas vagas, possamos escrever.

As pessoas, não raras vezes, me perguntam porque cargas d’água mantenho um blog sem nenhum compromisso, porque me preocupo em escrever sem um chefe me cobrando, sem um cheque pra cair no final do mês. A essas, sempre, mesmo sem querer, lanço um olhar de desprezo. Elas não entendem. Não nos entendem.

Amiga de blog, minha ídola, minha fã. Me reconheço e te conheço tanto em seus textos. Em meus textos. Às vezes fingimos ser ficção. Em outras, inventamos mesmo. Somos boas nisso e temos a certeza de que muitos nunca saberão o que é verdade e o que é mentira. Mas a gente sabia. Era só ler os primeiros parágrafos que entendíamos sobre o que aquilo, verdadeiramente, se tratava. Novos tempos, minha cara. Novos textos.

Hoje entro naquela página tão sua – mesmo estilo, mesmo jeitão – e me dá uma dorzinha por não saber direito o significado daquilo que exprime em tão belas palavras. Não conheço mais o real contexto das suas escritas. Não fazemos mais parte das nossas vidas, dos nossos parágrafos. Mas esse é mais um motivo pelo qual sigo amando tanto as palavras: não deixe de escrever, estarei sempre te lendo. Assim, estaremos sempre conectadas. Por nossos textos.

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