Menti.

Não precisava me conhecer/reconhecer no mundo novo, na vida nova. Não entrei em crise pelo término de um ciclo vezes longo, vezes curto e maior parte do tempo agradável e encantador. Não me preocupava com o futuro. Sempre soube me virar muito bem.

Me conheço e reconheço no mundo novo e na vida nova sem maiores dificuldades. Sei, com humildade e sem modéstia de meus defeitos e qualidades. Percebo minha potencialidade.

Não precisava me ocupar para esquecer o que estava por vir. Necessitava, quase como ar, parar de pensar no que já havia sido. Foi você.  Tudo começou naquela noite, aquela em que você tinha mesmo ido embora. Nunca fui de verter muitas lágrimas e a TPM já havia passado há semanas. Inexplicavelmente, me debulhei assistindo ao programa do Jô. Tudo porque o entrevistado carregava, em seu rosto, a barba mal feita e, em seu jeito, a mesma mania de passar os dedos por entre os cabelos entre frases inteligentes proferidas com muita naturalidade. Chorei até dormir. Foi aí.

Acordei cedo e me inscrevi na yoga, no pilates, na hidroginástica, no spinning e nas aulas de localizada – perna, bunda, braço e peito. Devorei livros, livros e mais livros. Assisti a clássicos filmes. Me esforcei para aprender a expressar meus sentimentos e soltar palavras reprimidas. Escrevi textos. Fiz matérias. Aceitei freelas. Dei aulas de inglês. Fui ao ginecologista, endocrinologista, dermatologista, cabeleireiro e astrólogo. Cuidei da alma.

Aprendi a andar de bicicleta e a beber tequila sem golfar. Troquei a cerveja pelo vinho, o refrigerante por suco e a fritura pelos assados. Diminui a carne vermelha, o carboidrato e o doce. Tomei shakes diet de café da manhã e sanduíches integrais no jantar. Dormi nove horas por noite e entornei dois litros de água por dia. Cuidei do corpo.

Arrumei um jeito de te tirar dos meus sonhos, de não fuçar suas redes sociais e não tocar em seu nome. Não chorei mágoas, não desabafei, não pirei. Fiquei bem.

Comprei maquiagem, roupa e sapato. Saí. Recebi inúmeros drinks, sorrisos, cantadas e caronas. Passei noites às gargalhadas e dias sem ressaca. Acreditei, de verdade, na magia do desejo feito ao apagar as velas do bolo de aniversário. Visitei museus, passeei em parques, estudei línguas.  Arrumei minha rotina, meu armário e minha vida. Sem pesar, enfim, respirei aliviada.

E aí você voltou. Juntamente com as palavras engasgadas, a vontade de fumar e o medo de perder. E a TPM, mais uma vez, não estava ali. E, mais uma vez, cai em prantos ao deixar a água do banho lavar desde os longos cabelos tratados até as pernas recém-torneadas pelo fracassado esforço de tentar te esquecer. E aí eu desejei que você nunca tivesse voltado, que nunca tivesse nascido. Ou, mais fácil, que eu nunca tivesse te amado.

Anúncios