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Escrevo, depois apago

Não fui eu, foi meu eu-lírico

mês

agosto 2011

Beca, capelo e canudo

Vamos nos desesperar, achando que nos falta capacidade. Chegaremos a questionar escolhas e caminhos que fizemos. E vamos temer o futuro (ou a falta dele). Vamos nos conhecer cada vez mais e mais profundamente e, em determinado momento, nos assustaremos ao descobrir que somos muito diferentes do que imaginávamos. E mudaremos ainda mais. Nos tornaremos irreconhecíveis ao espelho e teremos que nos apresentar a nos mesmos novamente.

Teremos maiores responsabilidades e decisões importantes até demais em nossas mãos. Aprenderemos a dizer ‘não’ e a entender quando também formos negados. Seremos obrigados a engolir enormes sapos e a levar desaforo para casa. Ao mesmo tempo, precisaremos enfrentar sem postergar. Agiremos como adultos que, enfim, somos e, às vezes, acharemos ridiculas nossas atitudes.

Teremos insônia e a cruel companhia de preocupações junto a nossa cabeça recostada no travesseiro. Pensaremos estar sozinhos ao nos depararmos com problemas sem ter ninguém a quem recorrer. Vez ou outra nos sentiremos medrosos e inexperientes. Mas isso vai passar. E vai recomeçar a cada novo ciclo. Este é só o primeiro. E em cada novo desafio, temor e insegurança nos lembraremos desse dia de enorme conquista. A primeira de muitas.

Vamos nos reconhecer na foto de formatura. Lembraremos dos bares, fofocas, conversas e trabalhos. E morreremos de rir recordando brigas bobas e noites em claro fazendo TGI! Acreditem, teremos saudades e talvez até vertamos uma lágrima. Recordaremos nitidamente de aulas e professores. E a eles seremos gratos. Eternamente. Enxergaremos que conseguimos e seguiremos, mais tranquilos.

Não sei qual caminho cada um vai seguir. Nem todos exerceremos a profissão. Alguns descobrirão que nasceram para a arquitetura, economia, astronomia e até medicina. Não seremos melhores amigos de todos com quem convivemos nestes quatro anos. Alguns só reencontraremos em distantes encontros de dez anos de formados. De outros ouviremos o prestigiado nome e nos orgulharemos. Afinal, independente de diferentes rumos que tomarmos, nossas vidas estarão sempre ligadas por essa etapa tão crucial que passamos e vencemos juntos.

O que fica são inúmeras lembranças que juntas, boas e ruins, fazem de nós muito do que somos hoje. Jornalistas. Formados. Um ciclo se fecha, dando espaço para a abertura de muitos outros. Muito sucesso, felicidade, satisfação e grandes conquitas a todos. A vida, meus queridos, começa agora!

Sem conto nem fadas

Despedir-se? Ah, tolinha! A quem queria enganar?

A despedida era só uma maneira ilusória de postergar o iminente fim. Era só aquela tão sua típica veia dramática querendo sentir mais uma vez, envolver, sofrer. Era intensidade que queria, filme de Woody Allen. Só que mudo, já que a fala não saía. É, tinha até trilha sonora. Doída. Cativante. Linda.

“Mundo real, mocinha, ponha-se em seu devido lugar”, foi o que ela entendeu de diferentes palavras que ele proferiu. Era vilão e era herói. Era tudo, só não era príncipe. Era sapo. Não montava nenhum cavalo branco e se recusou a encenar o beijo final. Este, não ia ser feliz e muito menos ‘para sempre’.

Meia noite chegou e nem carruagem tinha para poder virar abóbora. A fada madrinha teve sérios compromissos e não pode comparecer. Talvez fosse até mais fácil se a maçã estivesse envenenada. Mas, dessa vez, nem isso.

Fechou o livro, limpou a jurada última lágrima, que era pra pôr um fim a essa besteira de chorar à toa, e adormeceu belamente. Foi despertada não pelo toque de algum lábio macio, mas pelo estridente e impiedoso celular.

Gentilmente, colocou o pé direito no chão e, sem achar nem resquício do sapato de cristal, o acomodou em chinelos japoneses com pinos de massagem. Tão feios quanto úteis.

Os passarinhos não a ajudaram a arrumar a cama. Nem cantar o faziam, tamanho volume da chuva que caía lá fora. Olhou-se no espelho e, sem nem perguntar-lhe nada – a essa altura já tendo consciência da ridícula ilusão de esperar uma resposta –, enfim, deu-se conta. Assim sendo, nem cogitou arremeçar as tranças janela à fora, na espera de alguém chegar ao topo do castelo para lhe salvar.

Era a cena final. O letreiro subiu em fundo preto, com melodia chorosa. Em branco, o nome de todas as personagens – fundamentais para a trama, porém fictícias, obsoletas – seguidas pelo temido e famigerado ‘The End’.
Acabou. Agora, o que lhe falta mesmo é só a coragem para desligar a tela.

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