Despedir-se? Ah, tolinha! A quem queria enganar?

A despedida era só uma maneira ilusória de postergar o iminente fim. Era só aquela tão sua típica veia dramática querendo sentir mais uma vez, envolver, sofrer. Era intensidade que queria, filme de Woody Allen. Só que mudo, já que a fala não saía. É, tinha até trilha sonora. Doída. Cativante. Linda.

“Mundo real, mocinha, ponha-se em seu devido lugar”, foi o que ela entendeu de diferentes palavras que ele proferiu. Era vilão e era herói. Era tudo, só não era príncipe. Era sapo. Não montava nenhum cavalo branco e se recusou a encenar o beijo final. Este, não ia ser feliz e muito menos ‘para sempre’.

Meia noite chegou e nem carruagem tinha para poder virar abóbora. A fada madrinha teve sérios compromissos e não pode comparecer. Talvez fosse até mais fácil se a maçã estivesse envenenada. Mas, dessa vez, nem isso.

Fechou o livro, limpou a jurada última lágrima, que era pra pôr um fim a essa besteira de chorar à toa, e adormeceu belamente. Foi despertada não pelo toque de algum lábio macio, mas pelo estridente e impiedoso celular.

Gentilmente, colocou o pé direito no chão e, sem achar nem resquício do sapato de cristal, o acomodou em chinelos japoneses com pinos de massagem. Tão feios quanto úteis.

Os passarinhos não a ajudaram a arrumar a cama. Nem cantar o faziam, tamanho volume da chuva que caía lá fora. Olhou-se no espelho e, sem nem perguntar-lhe nada – a essa altura já tendo consciência da ridícula ilusão de esperar uma resposta –, enfim, deu-se conta. Assim sendo, nem cogitou arremeçar as tranças janela à fora, na espera de alguém chegar ao topo do castelo para lhe salvar.

Era a cena final. O letreiro subiu em fundo preto, com melodia chorosa. Em branco, o nome de todas as personagens – fundamentais para a trama, porém fictícias, obsoletas – seguidas pelo temido e famigerado ‘The End’.
Acabou. Agora, o que lhe falta mesmo é só a coragem para desligar a tela.

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