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Escrevo, depois apago

Não fui eu, foi meu eu-lírico

mês

setembro 2011

Enquanto com for melhor que sem

Não aguento mais discutir o mesmo assunto over and over. As conversas viram monotemáticas demais até para mim, que não dispenso um debate sobre dor de amor.

Os conselhos, que nem peço, já até decorei. “Larga esse filho da puta”, “foque no seu trabalho, invista em você, dedique-se a se conhecer”, “não responda, não ligue, desencane” e o meu favorito: “mas uma mulher tão bonita, tão inteligente, tão madura, tão querida e tão especial, como cai num negócio burro desses?”. Afaga o ego que é uma beleza. E eu sei. De tudo. E agradeço pela preocupação. Mas devo comunicar que não sofro mais da cegueira do envolvimento. Esta já não compromete mais minha visão. De uma certa forma, é tudo nítido, claro e límpido. E até enxergo o cinza ao invés do cor de rosa. Por vezes, também acho feio.  

Mas há muitas coisas nesse injusto mundo dos sentimentos que não se pode controlar. E meu coração sempre foi meio idiota mesmo. “Uma porta para o inferno”, descreveu a astróloga, que soube ler com muito afinco a parte nebulosa das emoções, presente em meu mapa. Ela estava certa ao constatar que continuaria a lhe encontrar. Que aquilo, meu amigo, não acabaria por ali não. Deve ter acertado também ao dizer que devemos nos conhecer de outras vidas, tamanha a sintonia. Maldita sintonia que me impede de lhe negar. Que me incita a continuar errando.

Errado eu sei que é, sempre soube – e consenti. Incomoda aqueles que tanto me consideram. Porque me fere. Eu sei. Mas também me acalenta. Eu juro. E (infelizmente, penso) o poder de julgamento cabe só a mim, que tenho consciência da minha situação e de meus sentimentos.

Pedirei ajuda, se o fardo ficar pesado demais. Porém, entendo que muito do caminho devo trilhar sozinha. As escolhas, quase nunca racionais, só eu posso fazer. E com as consequências – vezes fáceis, vezes difícies – também sou eu que tenho que lidar. E encaro. Por mais caro que me saia.

Então fica combinado assim: enquanto o bem que me faz ao lhe ver, compensar todo o mal de quando em sua ausência, considerarei que ainda vale a pena.

Só dessa vez, deixarei a inteligência para as opiniões e pitacos dos amigos nos encontros em bares de segunda feira. E continuarei insistindo, por mais burro que isso seja.

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Coisas que aprendi com meu pai

Esse meu temperamento calmo e paciente até demais é herança genética de meu maior professor. Não ser do tipo estourada, porém, me trouxe alguns problemas. Era sempre eu a criança passada para trás pelos coleguinhas espertos. Era eu a tolerante e boazinha, com quem de tudo se podia abusar.

Já meu pai sempre foi diferente. Apresenta também semblante pacífico e demasiada tolerância. Mas quando ele perde a paciência e a confiança, é apenas uma vez, para nunca mais. Éramos muito parecidos, mas eu ainda tinha muito a aprender.

Com um currículo recheado de graduações e idiomas fluentes, meu pai é do tipo que impressiona. Se precisar, ministra excelentes aulas de exatas – a ele devo as boas notas tiradas em física, química e matemática – e humanas – a ele meu irmão deve menos recuperações em história e geografia.

Típico professor de cursinho, meu pai explica teoria com exemplos práticos e piadas. Mas suas melhores palestras são aquelas sobre experiência de vida, geralmente declamadas em jantares. Os ouvintes são sempre familiares e amigos próximos. Mas, por falar alto demais, não raras vezes flagro espectadores de outras mesas atentos às histórias do interessante senhor.

Apesar de ser engraçado e carregar em si um coração enorme e generoso, por muitos ele é temido. Sua fama de bravo, porém, é facilmente explicada por suas opiniões extremamente sinceras. Meu pai não era do tipo que via como obra de arte meus desenhos de criança. Não que fosse cruel, apenas não dava demasiado valor para qualquer rabisco que lhe apresentasse. Dele, nunca consegui reconhecimento artístico. Mas quando elogiou um texto meu, tive a certeza de que estava fazendo aquilo direito.

Ele sabia que a vida não me daria moleza e, para me preparar, nunca deu colher de chá. No fundo, tinha consciência de que a dureza de suas palavras fariam com que eu vertesse sofridas lágrimas, mas que estas seriam enxugadas pelo lenço de doçura e compreensão de minha mãe. Minha educação foi sempre bem balanceada entre a rigidez, o carinho e a liberdade.

Meu pai não toleraria se filho dele usasse drogas ilícitas, mas sempre afirmou que um drink ou outro pode ajudar a tocar a vida com menos seriedade. Ele não esconde quando bebe, mas também deixa mostrar a ressaca do dia seguinte, deixando claro que as escolhas trazem consequências. Sempre teve comigo um diálogo aberto, fazendo questão de me mostrar que o mundo não é cor de rosa, mas que, às vezes, o cinza pode ter um tom muito bonito.

Quando comecei a crescer, o ‘velho’ teve dificuldades em assimilar que dava broncas e lidava agora não mais com uma menina. Eu pensava diferente, tinha crises de existência e, ainda por cima, sofria de tpm. Aos poucos, ele teve que entender e se adaptar.

Meu pai me deu uma caixa de camisinhas quando morei fora por um tempo e não proferiu uma palavra sequer em relação a isso. Fiquei estupefata e também não reagi. Sabíamos que o recado estava dado: aproveite a vida, mas não seja inconsequente. De uma forma ou de outra, acabamos sempre nos entendendo.

Meu pai me ensinou que o mundo dá muitas voltas e que não posso nunca fechar portas ou janelas, porque podem me ser úteis no futuro. Me mostrou que a ignorância nas relações pessoais é a maior burrice do ser humano, por mais inteligente que este seja. Com ele, aprendi a ser gentil e bondosa, mesmo quando má.

Quando a vida parece dura demais e penso em desistir, me faz engolir o choro e pensar em alguma alternativa para seguir em frente. Para ele, passar a mão na cabeça é me deixar beber vinho do bom, enquanto filosofamos sobre a vida.

Com fortes argumentos embasados pelo conhecimento adquiridos com o tempo. meu pai bate usando a força das palavras proferidas serenamente. A maior violência quase física, de tão moral, da qual já fui vitima. E é por isso que não deixarei com que homem nenhum jamais me levante sequer um dedo – ou um único timbre no tom de voz.

Meu pai me ensinou não só a respeitar, mas a ser respeitada.

Sigo com o mesmo comportamento genético. Ainda não convenço ou boto medo em muita gente, que insiste em abusar. Mas hoje, há muito mais entre a calmaria e o momento em que a paciência acaba. São 22 anos de curso de vida, ministrado pelo seu Luiz.

Depois do ponto final

Tomo um banho. Demorado. Testo os novos xampus e óleos adquiridos num surto consumista na farmácia do bairro. Tomo vergonha na cara e jogo as toalhas furadas no lixo. Passo cremes macios e cheirosos até demais. Troco a roupa de cama e me incomodo com a bagunça acumulada. Finalmente. Arrumo. E não só como quem quer esconder a sujeira dos olhos da esperada visita. Dobro calcinhas e enrolo cada par de meia. Separo as roupas para passar e organizo os inúmeros vestidos por cor e ocasião a serem usados. O armário agradece.

Mudo de bolsa, descartando todo objeto há tempos obsoleto. Não há razão coerente para carregar a vida – e tudo que se pode precisar nela – em um ombro só. Retiro os post-its da parede. Isso nunca foi organização, concluo. Descrevo todas as obrigações na agenda. É para isso que ela serve, afinal.

Apago todos os blogs favoritados do computador. Não os leio mesmo. Os que sigo, sei o endereço de cor e faço questão de digitá-los cada vez que os resolvo visitar. Rasgo cartas não enviadas. Não fazem mais tanto sentido e não há necessidade de ficar guardando. Já basta a lembrança na mente.

Desfaço todas as playlists do iTunes e descarto a capinha velha do iPod. Tanta proteção me atrapalha na hora de escolher a música. Sei que não vai quebrar. Excluo antigas mensagens. Contatos que não interessam mais também. Só tomam espaço no celular. Empilho livros abertos, abandonados. Fecho-os, dando chance a novas leituras.

Desocupo a carteira, jogando fora todo ingresso de cinema, teatro e shows dos últimos tempos. Não preciso de papel para saber que odiei ‘Água para elefantes’, amei ‘O discurso do rei’, desfrutei de excelente companhia em ‘Meia noite em Paris’, saí frustrada de ‘500 dias com ela ‘, fiquei extasiada ao assistir – por duas vezes – a ‘A alma imoral’ e  chorei horrores com Marisa Monte cantando ‘O que me importa’ e ‘Tema de amor’ ao vivo.

Me livro de remédios pela metade, antigas garrafas de água e moleskines usados por inteiro. Resolvo doar os bichos de pelúcia. Há tempos já não sou mais criança. E o bisonho certamente terá mais utilidade quando deixar de juntar poeira embaixo da cadeira de balanço e voltar a fazer um pequeno muito feliz. Sorrio, sem pesar, ao jogar as pétalas de rosas vermelhas desbotadas, guardadas com tanto carinho.

Separo o lixo reciclável e despejo os sacos plásticos na calçada. Lanço um aceno para a vizinha. Amanhã é dia da Lucinéia – doméstica da casa em frente – tomar café com o Zé – motorista do caminhão de lixo que passa na rua. Esfrego as mãos uma na outra. Respiro fundo. Fecho a porta de casa e aproveito para trocar o chaveiro quebrado.    

Sento na ponta da cama. Bem melhor agora. Mas algo ainda não está completo. Não sei direito o que é. Penso. Analiso. Resolvo. “Vou é mudar a cor desse quarto”, decido. Amarelo sempre me deu dor de cabeça. Corro. Milhões de opções de tinta. Escolho, sem nem pensar duas vezes. Visto a camiseta velhinha e prendo os cabelos. Tiro a poeira e afasto os móveis. Mergulho o pincel no balde colorido e o arremesso contra a parede. Visualizo, satisfeita.

Essa sou eu. Recomeçando outra vez.

Quando o feitiço vira contra o feiticeiro

‘Agora você tá fudido’ – assim mesmo, com ‘u’ – foi o que te falei naquela ocasião. Era tanta emoção, depois de toda aquela tensão desesperadora, que o estado alterado de consciência simplesmente deixou sair as palavras.

 Achava que te tinha nas mãos, achava que me tinha no controle. Sabia que gostava de mim e pensava poder mudar sua história. Implorei para que mudasse a minha. Insisti. Teimei em continuar, deixando de lado a intuição que me dizia que aquilo ia dar merda. A inconsequência é sintoma típico da razão cegada pelos sentimentos que deixei me envolver.

Era sabido que um dia a conta viria. Só não imaginava que seria tão cara. Agora, como que tentando dividir meu desespero, de maneira discreta disparo segredos em escancaradas palavras que antes só deixava você conhecer.

Não raras vezes ainda sinto um fiozinho de esperança que segue intacto em algum lugar inalcançável, dentro de um órgão não palpável no mundo físico. É remoto, irreal e pequeno. Mas afasta a sensação de vazio.

E aí você me pede para procurar o cara certo para mim, um alguém legal com quem eu possa construir um relacionamento de verdade. Quebra as minhas pernas. Então concluo que aquela vontade e afeto todo demonstrado na última vez foi apenas o coração deixando transparecer a emoção do momento, que nada condiz com a fria realidade.

Apesar de chocada, te vejo como o filho da puta mais sincero e honesto que já conheci. Mais uma vez você sobe no meu conceito de uma maneira muito errada. E concluo que o amor, se é que posso chamar isso de amor, não é apenas cego, mas também o mais estúpido e burro dos sentimentos.

‘Onde foi que eu me meti?’ Repetia a incansável pergunta indagada inúmeras vezes nos últimos meses. Como de praxe, não obtive nenhuma resposta coerente.

Tenho consciência de que qualquer passo que der em direção a você me levará ao arrependimento. Porém, apesar de todos os conselhos e a indiscutível certeza de que o melhor seria dizer ‘não’ de uma vez por todas, converso comigo mesma e articulo um esquema bem planejado de desconstrução da imagem divina que tenho de você. Tento, assim, praticar o desapego para conseguir, enfim, transformar todo o sentimento em simples carinho, podendo levar a prazerosa não-relação adiante sem ter que conviver com aquele velho conhecido, nada simpático, sofrimento.

Me iludo novamente, fingindo estar orgulhosa da minha postura nada ética e teimando insistir na falsa sensação de estar bem satisfeita com o resultado. Que situação!

É, proferi irracionalmente de boca cheia as palavras naquela primeira vez. O único problema, meu amigo, é que nem imaginava que, a partir daquele dia, quem estaria ‘fudida’, na verdade, seria eu.

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