‘Agora você tá fudido’ – assim mesmo, com ‘u’ – foi o que te falei naquela ocasião. Era tanta emoção, depois de toda aquela tensão desesperadora, que o estado alterado de consciência simplesmente deixou sair as palavras.

 Achava que te tinha nas mãos, achava que me tinha no controle. Sabia que gostava de mim e pensava poder mudar sua história. Implorei para que mudasse a minha. Insisti. Teimei em continuar, deixando de lado a intuição que me dizia que aquilo ia dar merda. A inconsequência é sintoma típico da razão cegada pelos sentimentos que deixei me envolver.

Era sabido que um dia a conta viria. Só não imaginava que seria tão cara. Agora, como que tentando dividir meu desespero, de maneira discreta disparo segredos em escancaradas palavras que antes só deixava você conhecer.

Não raras vezes ainda sinto um fiozinho de esperança que segue intacto em algum lugar inalcançável, dentro de um órgão não palpável no mundo físico. É remoto, irreal e pequeno. Mas afasta a sensação de vazio.

E aí você me pede para procurar o cara certo para mim, um alguém legal com quem eu possa construir um relacionamento de verdade. Quebra as minhas pernas. Então concluo que aquela vontade e afeto todo demonstrado na última vez foi apenas o coração deixando transparecer a emoção do momento, que nada condiz com a fria realidade.

Apesar de chocada, te vejo como o filho da puta mais sincero e honesto que já conheci. Mais uma vez você sobe no meu conceito de uma maneira muito errada. E concluo que o amor, se é que posso chamar isso de amor, não é apenas cego, mas também o mais estúpido e burro dos sentimentos.

‘Onde foi que eu me meti?’ Repetia a incansável pergunta indagada inúmeras vezes nos últimos meses. Como de praxe, não obtive nenhuma resposta coerente.

Tenho consciência de que qualquer passo que der em direção a você me levará ao arrependimento. Porém, apesar de todos os conselhos e a indiscutível certeza de que o melhor seria dizer ‘não’ de uma vez por todas, converso comigo mesma e articulo um esquema bem planejado de desconstrução da imagem divina que tenho de você. Tento, assim, praticar o desapego para conseguir, enfim, transformar todo o sentimento em simples carinho, podendo levar a prazerosa não-relação adiante sem ter que conviver com aquele velho conhecido, nada simpático, sofrimento.

Me iludo novamente, fingindo estar orgulhosa da minha postura nada ética e teimando insistir na falsa sensação de estar bem satisfeita com o resultado. Que situação!

É, proferi irracionalmente de boca cheia as palavras naquela primeira vez. O único problema, meu amigo, é que nem imaginava que, a partir daquele dia, quem estaria ‘fudida’, na verdade, seria eu.

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