Tomo um banho. Demorado. Testo os novos xampus e óleos adquiridos num surto consumista na farmácia do bairro. Tomo vergonha na cara e jogo as toalhas furadas no lixo. Passo cremes macios e cheirosos até demais. Troco a roupa de cama e me incomodo com a bagunça acumulada. Finalmente. Arrumo. E não só como quem quer esconder a sujeira dos olhos da esperada visita. Dobro calcinhas e enrolo cada par de meia. Separo as roupas para passar e organizo os inúmeros vestidos por cor e ocasião a serem usados. O armário agradece.

Mudo de bolsa, descartando todo objeto há tempos obsoleto. Não há razão coerente para carregar a vida – e tudo que se pode precisar nela – em um ombro só. Retiro os post-its da parede. Isso nunca foi organização, concluo. Descrevo todas as obrigações na agenda. É para isso que ela serve, afinal.

Apago todos os blogs favoritados do computador. Não os leio mesmo. Os que sigo, sei o endereço de cor e faço questão de digitá-los cada vez que os resolvo visitar. Rasgo cartas não enviadas. Não fazem mais tanto sentido e não há necessidade de ficar guardando. Já basta a lembrança na mente.

Desfaço todas as playlists do iTunes e descarto a capinha velha do iPod. Tanta proteção me atrapalha na hora de escolher a música. Sei que não vai quebrar. Excluo antigas mensagens. Contatos que não interessam mais também. Só tomam espaço no celular. Empilho livros abertos, abandonados. Fecho-os, dando chance a novas leituras.

Desocupo a carteira, jogando fora todo ingresso de cinema, teatro e shows dos últimos tempos. Não preciso de papel para saber que odiei ‘Água para elefantes’, amei ‘O discurso do rei’, desfrutei de excelente companhia em ‘Meia noite em Paris’, saí frustrada de ‘500 dias com ela ‘, fiquei extasiada ao assistir – por duas vezes – a ‘A alma imoral’ e  chorei horrores com Marisa Monte cantando ‘O que me importa’ e ‘Tema de amor’ ao vivo.

Me livro de remédios pela metade, antigas garrafas de água e moleskines usados por inteiro. Resolvo doar os bichos de pelúcia. Há tempos já não sou mais criança. E o bisonho certamente terá mais utilidade quando deixar de juntar poeira embaixo da cadeira de balanço e voltar a fazer um pequeno muito feliz. Sorrio, sem pesar, ao jogar as pétalas de rosas vermelhas desbotadas, guardadas com tanto carinho.

Separo o lixo reciclável e despejo os sacos plásticos na calçada. Lanço um aceno para a vizinha. Amanhã é dia da Lucinéia – doméstica da casa em frente – tomar café com o Zé – motorista do caminhão de lixo que passa na rua. Esfrego as mãos uma na outra. Respiro fundo. Fecho a porta de casa e aproveito para trocar o chaveiro quebrado.    

Sento na ponta da cama. Bem melhor agora. Mas algo ainda não está completo. Não sei direito o que é. Penso. Analiso. Resolvo. “Vou é mudar a cor desse quarto”, decido. Amarelo sempre me deu dor de cabeça. Corro. Milhões de opções de tinta. Escolho, sem nem pensar duas vezes. Visto a camiseta velhinha e prendo os cabelos. Tiro a poeira e afasto os móveis. Mergulho o pincel no balde colorido e o arremesso contra a parede. Visualizo, satisfeita.

Essa sou eu. Recomeçando outra vez.

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