Esse meu temperamento calmo e paciente até demais é herança genética de meu maior professor. Não ser do tipo estourada, porém, me trouxe alguns problemas. Era sempre eu a criança passada para trás pelos coleguinhas espertos. Era eu a tolerante e boazinha, com quem de tudo se podia abusar.

Já meu pai sempre foi diferente. Apresenta também semblante pacífico e demasiada tolerância. Mas quando ele perde a paciência e a confiança, é apenas uma vez, para nunca mais. Éramos muito parecidos, mas eu ainda tinha muito a aprender.

Com um currículo recheado de graduações e idiomas fluentes, meu pai é do tipo que impressiona. Se precisar, ministra excelentes aulas de exatas – a ele devo as boas notas tiradas em física, química e matemática – e humanas – a ele meu irmão deve menos recuperações em história e geografia.

Típico professor de cursinho, meu pai explica teoria com exemplos práticos e piadas. Mas suas melhores palestras são aquelas sobre experiência de vida, geralmente declamadas em jantares. Os ouvintes são sempre familiares e amigos próximos. Mas, por falar alto demais, não raras vezes flagro espectadores de outras mesas atentos às histórias do interessante senhor.

Apesar de ser engraçado e carregar em si um coração enorme e generoso, por muitos ele é temido. Sua fama de bravo, porém, é facilmente explicada por suas opiniões extremamente sinceras. Meu pai não era do tipo que via como obra de arte meus desenhos de criança. Não que fosse cruel, apenas não dava demasiado valor para qualquer rabisco que lhe apresentasse. Dele, nunca consegui reconhecimento artístico. Mas quando elogiou um texto meu, tive a certeza de que estava fazendo aquilo direito.

Ele sabia que a vida não me daria moleza e, para me preparar, nunca deu colher de chá. No fundo, tinha consciência de que a dureza de suas palavras fariam com que eu vertesse sofridas lágrimas, mas que estas seriam enxugadas pelo lenço de doçura e compreensão de minha mãe. Minha educação foi sempre bem balanceada entre a rigidez, o carinho e a liberdade.

Meu pai não toleraria se filho dele usasse drogas ilícitas, mas sempre afirmou que um drink ou outro pode ajudar a tocar a vida com menos seriedade. Ele não esconde quando bebe, mas também deixa mostrar a ressaca do dia seguinte, deixando claro que as escolhas trazem consequências. Sempre teve comigo um diálogo aberto, fazendo questão de me mostrar que o mundo não é cor de rosa, mas que, às vezes, o cinza pode ter um tom muito bonito.

Quando comecei a crescer, o ‘velho’ teve dificuldades em assimilar que dava broncas e lidava agora não mais com uma menina. Eu pensava diferente, tinha crises de existência e, ainda por cima, sofria de tpm. Aos poucos, ele teve que entender e se adaptar.

Meu pai me deu uma caixa de camisinhas quando morei fora por um tempo e não proferiu uma palavra sequer em relação a isso. Fiquei estupefata e também não reagi. Sabíamos que o recado estava dado: aproveite a vida, mas não seja inconsequente. De uma forma ou de outra, acabamos sempre nos entendendo.

Meu pai me ensinou que o mundo dá muitas voltas e que não posso nunca fechar portas ou janelas, porque podem me ser úteis no futuro. Me mostrou que a ignorância nas relações pessoais é a maior burrice do ser humano, por mais inteligente que este seja. Com ele, aprendi a ser gentil e bondosa, mesmo quando má.

Quando a vida parece dura demais e penso em desistir, me faz engolir o choro e pensar em alguma alternativa para seguir em frente. Para ele, passar a mão na cabeça é me deixar beber vinho do bom, enquanto filosofamos sobre a vida.

Com fortes argumentos embasados pelo conhecimento adquiridos com o tempo. meu pai bate usando a força das palavras proferidas serenamente. A maior violência quase física, de tão moral, da qual já fui vitima. E é por isso que não deixarei com que homem nenhum jamais me levante sequer um dedo – ou um único timbre no tom de voz.

Meu pai me ensinou não só a respeitar, mas a ser respeitada.

Sigo com o mesmo comportamento genético. Ainda não convenço ou boto medo em muita gente, que insiste em abusar. Mas hoje, há muito mais entre a calmaria e o momento em que a paciência acaba. São 22 anos de curso de vida, ministrado pelo seu Luiz.

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