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Escrevo, depois apago

Não fui eu, foi meu eu-lírico

mês

outubro 2011

Éramos 15

Amizade é como amor. Tem que haver fidelidade, confiança, cumplicidade, carinho e tesão. Quando nos encontrávamos, todas essas características se faziam valer. E como bons amigos que éramos, chorávamos toda dor de amores incapazes de cumprir com os mesmos pré-requisitos.

Éramos 15. Um número extremamente redondo e completo, por mais que ímpar. E descobrimos, com o tempo, que amigo é mais que família que podemos escolher, é amor que não deixamos vingar.

Como bons amores, fizemos votos de união na saúde e na doença. E, estes, não deixamos de seguir.

Os médicos diziam que não tinha mais jeito. Mas amizade é religião, e a nossa fé acreditava que tinha sim. Quando o diagnóstico apontou um mês de vida, fizemos mandinga, promessa, ritual de passagem e dança da cura. O mês virou um ano, que virou dois, que virou cinco. Mais um componente ímpar para nossa coleção de bons números.

Cinco anos de afeto e cuidados. Anos de medo, em que o coração quase parava com o toque do celular às três da manhã. Ironicamente, este foi o horário em que, de fato, fora anunciado o seu partir.

Se ser amigo é também cumprir promessas, falhamos ao chorar compulsivamente a falta que já nos fazia.

Amizade não comporta egoísmo, mas a verdade é que, mesmo ao acompanhar todo seu sofrimento, torcíamos pela continuidade do tratamento – que acarretava em risadas, conselhos e conversas intermináveis, mesmo quando com imensa dor.

A amizade sofre de cegueira maior do que o próprio amor. Nem mesmo em seus minutos finais enxergávamos a magreza, palidez e olheira presentes no já tão frágil corpo. Na memória, apenas a imagem do menino metido que, ao se livrar do antigo boné azul, virou homem maduro e corajoso, que lia auto-ajuda apenas para dar risada e decorar clichês. Sabia de cor os melhores trechos dos melhores livros de Gabriel García Márquez. ‘Crônica de Uma Morte Anunciada’ era seu favorito. Mundo irônico. Cruel.

Suas leituras sobre budismo e espiritismo, e todo aquele papo repetitivo sobre desapego do corpo e importância da alma, chegava a nos entediar. Hoje esboçamos um sorriso triste, entendendo que – atencioso e preocupado como era – arrumava sempre maneiras de, com muita sutileza, nos preparar para o iminente momento do fim. Estava próximo, e ele sabia.

O acordar às três da manhã à espera de notícias ruins ainda é reflexo do organismo lerdo que não entendeu o que a mente também teima em não aceitar. O único ensaio de alívio que dá, é saber que aproveitamos com extrema totalidade e entrega todos os inúmeros momentos que passamos juntos. Doamos aquilo que tínhamos de melhor e sugamos tudo o que tinha a oferecer.

Amizade é fidelidade, confiança, cumplicidade, carinho e tesão. E ele era o símbolo de tudo isso. Deixou 14 cartas escritas a punho com o enfermeiro fiel. Como bom canceriano que se preze, fez questão de imprimir seu sentimento a cada passo dado. E não seria diferente, nem mesmo com a morte por perto. Sei que todos os calhamaços começam com “querido (a) amigo (a)”, e que em cada carta estão detalhadas diferentes experiências de 28 anos vividos com intensidade. Mas – embora tenha a certeza de que a leitura de cada palavra me remeterá a momentos incríveis, memórias que valem a pena e sabedoria milenar –, ainda não tive coragem de rasgar o selo vermelho que fecha, com muito cuidado, o enorme envelope branco. Sei que nem o mais bonito dos poemas será capaz de suprir sua falta e amenizar essa imensa dor.

Prometemos continuar a frequentar nosso famoso boteco, sem deixar a tristeza dominar os constantes encontros de segunda feira. Mas é impressionante como a sofrida subtração de apenas um, pode criar um vazio tão imensurável.

Não tem jeito, concluímos. 14 nunca será um número redondo, por mais que par.

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Cíclico

As palavras saem de sua boca com uma naturalidade agonizante. É como se nada, nunca, tivesse acontecido. E respondo com uma falsidade tão verdadeira que chega a intrigar. Confunde. Ignoro as mil lágrimas vertidas e esqueço as promessas de mudança e vingança feitas em momento de ódio desesperador.

Não te culpo. Você chama, eu vou. Não me culpo. Você reaparece, eu renasço.

Sim

Andei procurando, com muito afinco, depositar em terceiros a razão de minhas constantes lágrimas. Sem sucesso.
Resolvo escolher outra cor de esmalte e corto o cabelo. Típica decisão de mulher insatisfeita. Entendo, então, que é hora de mudar também as atitudes.
E peço desculpas a mim. Decisões erradas e longos caminhos tortuosos escolhidos. Tudo culpa minha. Encontrava, dissimuladamente, justificativas plausíveis para tamanho desdém para com a minha pessoa. Falta de amor próprio e pouco valor foi o que me dei de presente.
Procurei, já abalada, mais uma vez, terceiros que pudessem me ajustar, resolver e organizar. Mas não. Nenhum caso de uma só noite ou qualquer psicólogo conceituado foi ou será capaz de me curar e acalentar. Só eu. Prometo, nesses novos tempos, cuidar de você (no caso, eu) como tentara cuidar de outros. E o amor doado – pesado – será, agora, leve – visto que habitamos o mesmo corpo e temos acesso aos nossos pensamentos e sentimentos. Um casamento assim, sem Elvis ou capela em Las Vegas (podemos até pensar em um final de semana em lua de mel, quem sabe), meu comigo mesma. E os meus sinceros votos de que sejamos felizes para sempre.
Na alegria e na tristeza, na saúde e na doença. Como deve ser.

Crime passional

Tarde. Um domingo chuvoso. A casa vazia. Um vinho. Lógico, típico. Mas dos melhores. O clássico, do tipo que nunca decepciona, tinha gosto amargo.
A uva, colhida com tanto carinho no penúltimo outono, descia rasgando a garganta, cruel. Não fosse oferecido por gente de confiança, temeria ser veneno.
Bebida tão cara para perder o gosto. Um efeito estragado do sentimento pisado. Sem dó. Nenhuma gota de mel no fel da vida.
Fez de meus dias melancolia. Me tirou, primeiro, o prazer de sonhar. Agora, tira-me o raro reconforto de um saborear tão nobre. Só lhe resta, então, tirar-me o respirar.
Chega! Te arranco de mim, que é para não me matar.

Deletério

Noites de sono mal dormidas por conta de sonhos indesejados, perturbadores. Temperatura excessivamente alta, fazendo do colchão um inferno particular.
Justo mundo da neve no asfalto, deixando esfriar os pés e a cabeça – quando o auto controle já não consegue dar conta.
Impiedoso verão. Tamanho calor não permite nem sofrer em paz. Fazendo evaporar a água da lágrima, deixa apenas o gosto de sal escorrido na face.

Insônia

O sono não acompanhava a vontade de dormir. O pensamento lhe tirava o bem mais precioso. Descansar. A chuva que caia, ao mesmo tempo que sofrida, fazia curar. Desistiu do travesseiro. De sonhar. Por mais que se recusasse a checar o relógio, sabia ser madrugada. Três da manhã, horário em que a alma passeia.
Sentou-se na poltrona, derrotada. Há coisas com as quais não se pode teimar. Pensamento longe, já conformada, esperou o dia chegar.

Causa e consequência

Desconhecido, aproximou-se. O ar nada amigável não enganava. Não queria papo. Ufa! Não era dia de paciência. Muito menos de simpatia. Apenas sentou-se ao seu lado e acendeu um cigarro, ignorando o toldo, os três metros de distância permitidos por lei, a própria lei e a placa que dizia ser proibido.
Não olhou feio, não achou ruim, até gostava do cheiro. Inspirou nicotina. Tudo bem. Não fez esforço para se esquivar da fumaça, deixando que entrasse em seus olhos. Bela desculpa, afinal, para verter lágrimas assim, em público.

Da metáfora à borboleta

Achei que estivesse morrendo, mas a mariposa só se debatia, arrependida pelas decisões erradas tomadas na véspera. Repousada, voo recolhido, descansou sob o sol, como que para pensar.
Bateu as asas violentamente e foi embora. Já distante do chão, foi de encontro ao céu. De tudo fez, na esperança de voar para bem longe da alma, do corpo e da mente.

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