Amizade é como amor. Tem que haver fidelidade, confiança, cumplicidade, carinho e tesão. Quando nos encontrávamos, todas essas características se faziam valer. E como bons amigos que éramos, chorávamos toda dor de amores incapazes de cumprir com os mesmos pré-requisitos.

Éramos 15. Um número extremamente redondo e completo, por mais que ímpar. E descobrimos, com o tempo, que amigo é mais que família que podemos escolher, é amor que não deixamos vingar.

Como bons amores, fizemos votos de união na saúde e na doença. E, estes, não deixamos de seguir.

Os médicos diziam que não tinha mais jeito. Mas amizade é religião, e a nossa fé acreditava que tinha sim. Quando o diagnóstico apontou um mês de vida, fizemos mandinga, promessa, ritual de passagem e dança da cura. O mês virou um ano, que virou dois, que virou cinco. Mais um componente ímpar para nossa coleção de bons números.

Cinco anos de afeto e cuidados. Anos de medo, em que o coração quase parava com o toque do celular às três da manhã. Ironicamente, este foi o horário em que, de fato, fora anunciado o seu partir.

Se ser amigo é também cumprir promessas, falhamos ao chorar compulsivamente a falta que já nos fazia.

Amizade não comporta egoísmo, mas a verdade é que, mesmo ao acompanhar todo seu sofrimento, torcíamos pela continuidade do tratamento – que acarretava em risadas, conselhos e conversas intermináveis, mesmo quando com imensa dor.

A amizade sofre de cegueira maior do que o próprio amor. Nem mesmo em seus minutos finais enxergávamos a magreza, palidez e olheira presentes no já tão frágil corpo. Na memória, apenas a imagem do menino metido que, ao se livrar do antigo boné azul, virou homem maduro e corajoso, que lia auto-ajuda apenas para dar risada e decorar clichês. Sabia de cor os melhores trechos dos melhores livros de Gabriel García Márquez. ‘Crônica de Uma Morte Anunciada’ era seu favorito. Mundo irônico. Cruel.

Suas leituras sobre budismo e espiritismo, e todo aquele papo repetitivo sobre desapego do corpo e importância da alma, chegava a nos entediar. Hoje esboçamos um sorriso triste, entendendo que – atencioso e preocupado como era – arrumava sempre maneiras de, com muita sutileza, nos preparar para o iminente momento do fim. Estava próximo, e ele sabia.

O acordar às três da manhã à espera de notícias ruins ainda é reflexo do organismo lerdo que não entendeu o que a mente também teima em não aceitar. O único ensaio de alívio que dá, é saber que aproveitamos com extrema totalidade e entrega todos os inúmeros momentos que passamos juntos. Doamos aquilo que tínhamos de melhor e sugamos tudo o que tinha a oferecer.

Amizade é fidelidade, confiança, cumplicidade, carinho e tesão. E ele era o símbolo de tudo isso. Deixou 14 cartas escritas a punho com o enfermeiro fiel. Como bom canceriano que se preze, fez questão de imprimir seu sentimento a cada passo dado. E não seria diferente, nem mesmo com a morte por perto. Sei que todos os calhamaços começam com “querido (a) amigo (a)”, e que em cada carta estão detalhadas diferentes experiências de 28 anos vividos com intensidade. Mas – embora tenha a certeza de que a leitura de cada palavra me remeterá a momentos incríveis, memórias que valem a pena e sabedoria milenar –, ainda não tive coragem de rasgar o selo vermelho que fecha, com muito cuidado, o enorme envelope branco. Sei que nem o mais bonito dos poemas será capaz de suprir sua falta e amenizar essa imensa dor.

Prometemos continuar a frequentar nosso famoso boteco, sem deixar a tristeza dominar os constantes encontros de segunda feira. Mas é impressionante como a sofrida subtração de apenas um, pode criar um vazio tão imensurável.

Não tem jeito, concluímos. 14 nunca será um número redondo, por mais que par.

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