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Escrevo, depois apago

Não fui eu, foi meu eu-lírico

mês

novembro 2011

Reencontro

A metros do trabalho, estacionei o carro na praça que tenho chamado de minha. A necessidade de acender um cigarro era maior do que a vontade de chegar em casa. Não por nada, estava tudo bem. Sem grandes conquistas ou significativas decepções.

Quando em horário de verão, 19h ainda é dia. A praça, recém-molhada pela breve chuva, era rodeada por amigos em bares, contemplada por crianças brincando no parquinho e recheada com o previsível casal apaixonado e com o maconheiro que disfarçava – sem poder aproveitar – sua densa fumaça. Sentei em um banco e observei. Esta era a minha prática favorita aos finais de tarde.

Eis que, então, vi de longe um rosto conhecido. Irreconhecível. Abri os braços, oferencendo um acolher de falsa saudade.

Nossas conversas eram sempre assim. “Não podemos ser críticos, mas temos que ter senso crítico”, proferiu. Ele sempre filosofava – com um ar meio anarquista – e eu sempre balançava a cabeça, como que concordando, mas sem compreender metade de seus pensamentos de menino, poetizados em falas teatrais.

Desta vez, porém, as palavras pareciam sair da boca de um homem – que carregava uma maleta transpassada ao ombro, de trabalhador. O moleque, finalmente, crescera. E me deixou ali, estupefata, descabelada depois de um dia longo, no meio da praça.

O contato fazer-se-ia o último. Não carregávamos celular. Irônico mundo da tecnologia – sem a qual nos tornamos inúteis. Prometi procurá-lo nas redes sociais para marcarmos, quem sabe, uma cerveja. Mas, no fundo, sabíamos que, provavelmente, não o faria.

O cheiro de nicotina cessou com a ajuda da brisa trazida no balançar das árvores. Mas guardei seu novo, porém típico, discurso – que, pela primeira vez em anos, foi capaz de mexer comigo.

Engraçados esses (re)encontros, feitos de acaso, promovidos pela vida.

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Nosso pior e melhor

É uma bipolaridade sem tamanho. A gente chora, a gente ri. Tudo em um mesmo dia. Às vezes, em um inimaginavelmente curto espaço de tempo. E a gente acha que acabou tudo para, depois, perceber que ainda nem começou direito. Aí a gente manda mensagem, carregada de esperança, mas –  logo após apertar o ensaiado botão ‘send’ – torcemos para que nunca seja respondida.

Na verdade, nem nós mesmos sabemos o que queremos.

Ouvimos um ‘sim’ e entendemos como sendo ‘não’. Quando nos deparamos com um ‘talvez’, surtamos, imaginando se tratar de um ‘nunca mais’ envergonhado, disfarçado, temido. Nem te conto o que acontece quando na desilusão de um ‘hoje não vai dar’, ouvido ao final do dia.

Eu escrevo sobre a dor. Por vezes, elejo-me o ser mais dramático do mundo e chego a me convencer de que o problema só pode ser comigo. Mas, oras, o fato de o outro não expor, não quer dizer que não sinta.

As amigas, dotadas de lencinhos e colírio para olhos vermelhos, sofridos, encontram-se no café ao final da tarde. O assunto é o mesmo há semanas – causas e consequências de amores bandidos, errados, não-correspondidos, alterados, exagerados. Uma reclama por não saber lidar com o amor que tem demais. Outra debulha-se em lágrimas por ter amor de menos. A (aparentemente) mais sã, satisfazer-se-ia com a atenção de um só, aquele mal escolhido. Já a mais maluca diz, sóbria, não se deixar embebedar pelo veneno da paixão. Mas todas suspiram baixinho ao longo do dia. Nesta regra não há exceção.

Mulher é um bicho estranho, penso eu. É isso, são elas o problema.

Mas, então, encontro-me com o velho amigo na academia. Ele faz caretas e extrapola todos os seus limites a fim de liberar mais endorfina. Sua meta não é perder os quilos a mais e muito menos virar o incrível Hulk. Só evita marejar os olhos, levantando peso para esquecer.

Somos todos iguais, concluo. O problema é a espécie.

Entre uma pedalada e outra, conversamos. “A paixão está no ar esses dias, eu sinto”, conta ele, desconfiado. Não entendo o recado. “Prenda a respiração pelo máximo de tempo que aguentar”, alarma. Coitado, tá desesperado.

Estava errada, entendo. O problema, meus caros, é o sentimento.

Acho graça, mas também sinto medo. Afinal, no fundo, nem adianta fugir ou se esconder, é uma praga. Pode mandar prender os cupidos, descobrir a vacina para o vírus e censurar as melodias românticas. Não tem salvação. É uma burrice deliciosa, contagiante e tenebrosa inventada pelo coração.

Na lama, no bar

O fundo do meu poço tinha cara de bar, cheiro de cigarro e gosto de uísque. O fundo do meu poço tinha som de banda de jazz e risos de amigos bêbados. Era povoado por criaturas interessantes que, às duas horas da manhã, jogavam “stop” em guardanapos apoiados no balcão molhado de cerveja.

O fundo do meu poço tinha eu. E, perturbadoramente, tinha você em cada rosto fitado de repente. O poço, na verdade, era só meu. Para todo o resto, era apenas mais um bar.

Um prato que se come frio

E chega o dia – geralmente em uma terça feira de sol encoberto por nuvens – em que dá o fatídico estalo e, finalmente, nos perguntamos ‘o que raios estou fazendo aqui?’.

E tudo aquilo que antes fazia chorar, vira motivo de incontroláveis risos – dessa vez leves e serenos.

Os óculos cor de rosa caem. Ao mesmo tempo, o mundo não colore apenas em tons de cinza. Para nossa surpresa, o céu é azul, o sol amarelo e o sorriso de um branco que chega a cegar.

Não rimos mais apenas por educação. Vemos graça na piada infame contada pelo chato do departamento de informática. Os colegas de trabalho (pasmem!) podem até ser muito legais.

Entretanto, como a carne é fraca, não nos desfazemos por total dos frágeis laços. Deixamos que o tempo passe – porque é só isso que ele sabe fazer – e que cumpra com sua função de cessar aquilo que deve.

O ‘não’ não-proferido, disfarçado por falsa doçura e preocupação, nem machuca mais. A vontade, confessemos, é de mandar à merda. Mas apenas sorrimos.

A vingança, afinal, nem sempre vem embrulhada por duras palavras.

Omissão

Mantenho, sobre minha mesa de trabalho, post-its que não posso usar. Guardo comigo, lá no fundo, segredos que não devo contar. Retenho sentimentos que não consigo externar e contenho lágrimas que não ouso derramar.

Amo sem poder a ninguém contar. Escrevo, mas insisto em não mostrar. Teimo. E os conselhos, sempre finjo escutar. Quem me vê sorrindo, não percebe o peso que carrego no olhar.

Vivo duas vidas. Aquela que exponho e aquela que faço questão de nunca mostrar.

A carta

“7 de novembro. Fatídico 2011.

Prezada,

Minha nossa.
Quando vi, tive certeza que não era coisa boa.
Sabe quando um frio na espinha te diz aquilo que informação nenhuma dá? Simples intuição.
Merda! Odeio quando ela acerta!

Muda o dia, mas não muda a dor. Às vezes, a vida é cruel por demais.

Queria muito te dar respostas, aquelas que você certamente indaga às paredes que fita incessantemente. Mas não posso. E sinto muito.
Sabe que, às vezes, eu acho que algo muito, mas muito bom vai aparecer em seu caminho. Porque não é possível. Tanto sofrimento, em algum momento, há de ser recompensado.

Sinto muito pela perda literária. Afinal, suas (nossas) palavras sempre servem de conforto e acalento quando nada mais parece resolver.
Sinto pelo sentimento que, antes tão gostoso, agora se modifica – faz às vezes de adolescente rebelde e só sabe maltratar.
Sinto pelo abandono, pela solidão que atormenta, pela falta que não se deixa suprir.
Sinto mais ainda por não poder mudar nada em nada disso. Não posso consertar a escrita, adoçar os sentimentos ou preencher o vazio dos detalhes que só você vê.

Te ofereço um uísque e alguns cigarros, além de meus pares de ombros e ouvidos.
Conselhos, já sabemos de cor. Mas se, mesmo assim, você precisar de clichês, tenho um montão deles na ponta da língua.
Te ofereço minha amizade e a eterna certeza de que tem alguém que torce, todos os dias – por meio de orações feitas com e sem fé – por sua plena serenidade e felicidade.

Sei que a distância nos dificulta o encontro, mas, o quanto antes, aparecerei em sua casa, choraremos as mágoas. Se não der para melhorar, pelo menos a gente divide. Algum jeito a gente dá.

Não vou pedir para você ficar bem, vou pedir para você aguentar. E nem precisa ser firme, pode ser jogada no sofá.

Atenciosamente e com carinho.”

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