A metros do trabalho, estacionei o carro na praça que tenho chamado de minha. A necessidade de acender um cigarro era maior do que a vontade de chegar em casa. Não por nada, estava tudo bem. Sem grandes conquistas ou significativas decepções.

Quando em horário de verão, 19h ainda é dia. A praça, recém-molhada pela breve chuva, era rodeada por amigos em bares, contemplada por crianças brincando no parquinho e recheada com o previsível casal apaixonado e com o maconheiro que disfarçava – sem poder aproveitar – sua densa fumaça. Sentei em um banco e observei. Esta era a minha prática favorita aos finais de tarde.

Eis que, então, vi de longe um rosto conhecido. Irreconhecível. Abri os braços, oferencendo um acolher de falsa saudade.

Nossas conversas eram sempre assim. “Não podemos ser críticos, mas temos que ter senso crítico”, proferiu. Ele sempre filosofava – com um ar meio anarquista – e eu sempre balançava a cabeça, como que concordando, mas sem compreender metade de seus pensamentos de menino, poetizados em falas teatrais.

Desta vez, porém, as palavras pareciam sair da boca de um homem – que carregava uma maleta transpassada ao ombro, de trabalhador. O moleque, finalmente, crescera. E me deixou ali, estupefata, descabelada depois de um dia longo, no meio da praça.

O contato fazer-se-ia o último. Não carregávamos celular. Irônico mundo da tecnologia – sem a qual nos tornamos inúteis. Prometi procurá-lo nas redes sociais para marcarmos, quem sabe, uma cerveja. Mas, no fundo, sabíamos que, provavelmente, não o faria.

O cheiro de nicotina cessou com a ajuda da brisa trazida no balançar das árvores. Mas guardei seu novo, porém típico, discurso – que, pela primeira vez em anos, foi capaz de mexer comigo.

Engraçados esses (re)encontros, feitos de acaso, promovidos pela vida.

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