Em um momento de quase insanidade mental, puro êxtase proveniente do falso sentimento de enfim liberdade das amarras da dor que havia sentido, puxei o envelope que há muito habitava a bagunçada e revirada gaveta.

Cacau, como sempre o chamara – nem me pergunte o porquê –, também era canceriano, como eu, e pensava nos mínimos detalhes. A fita vermelha, minha cor favorita, amarrava com muita delicadeza palavras que jamais saberei reescrever.

Minha expectativa era mórbida, para combinar com a situação. Imaginava nuvens negras sobrevoando a escrita densa e sofrida. Dez anos de amizade e eu ainda não aprendi. Até morto, o ‘cidadão do mundo’ – como muitos o chamavam – é capaz de me surpreender.

“Chega de drama, dona Ana”, é o que certamente me diria neste exato momento de lágrimas escorrendo pelo teclado judiado do já muito usado computador. Foi assim que sua carta começou.

Uma viagem pelo tempo, relembrando cenários, memórias, o pátio do colégio que guardava meus sonhos de aspirante a escritora. Ele, o menino mais velho, que me enchia o saco por conta dos desenhos mal feitos deixados na mesa da inspetora quando chegávamos atrasados. Sempre chegávamos atrasados. E foi ali mesmo, na salinha daqueles que não conseguiam cumprir com o horário, que o cantinho mais disputado do primeiro andar – que era só meu – passou a ser nosso.

Fatídicas manhãs de segundas feiras em que fui apresentada ao rock clássico, destoando das meninas da mesma idade, que se deleitavam ao ruído mal interpretado de pagodes e duplas de criaturas a quem ousavam denominar “cantores”. “Isso sim é música de verdade, guria”, me convencia ao entregar-me uma cartilha com letras de quase todas as canções dos Beatles. ‘I’ll be back’ seguiria sendo nossa preferida pelos próximos muitos anos – descritos, por ele, à mão.

Muito do que Cacau lindamente escreveu, eu já nem me lembrava. A dor havia sido tanta, tanto sofrimento, lutas, desafios e ensaios de esperança, que a intensidade de nossos habituais risos e lágrimas se espalharam como que com o vento pela memória remota. Os flashes voltam todos agora.

Não dói. Acalenta. A leitura só faz sorrir. E no meio de frases me pego entendendo o objetivo de tanto detalhe. Não faria nada diferente. Se fosse eu, quereria ser lembrada da mesma maneira, com a mesma leveza e doçura.

Dividíamos nossa vida inteira. Ninguém no mundo me conhecia mais. Sendo assim, Cacau, então, me deixa conselhos que só ele saberia dar e só eu poderia entender. “Chega de drama”, “seja feliz enquanto valer a pena”, “abandone qualquer um , mas nunca aquele sonho ” e “lembre-se que chegamos e vamos embora da vida sozinhos. As pessoas com quem vamos dividir nosso trajeto devem ser escolhidas a dedo, porque só servem para fazer do árduo caminho longo, um prazeroso caminho curto”.

Sorrio. Mais uma vez. Sua veia meio poeta-filósofo-de-buteco, com frases-clichê proferidas de maneira teatral, sempre me encantava e envergonhava ao mesmo tempo.

Leio a última linha e fecho a última página. O poder das palavras só conhece quem por ele já foi submetido. Estarrecedor. Era tão real que soava como uma conversa, daquelas longas que tínhamos semanalmente, quase como religião.

Sinto que não seria, assim, tão irreal, se o sempre brincalhão  amigo saltasse de detrás do lixo do trabalho. Devia estar ali. Inconscientemente, procuro. Obviamente, não acho. Entendo.

Ouço com exímia clareza o som da ficha finalmente caindo. Conversas e conselhos. Cafés e chocolates suíssos. Peças de teatro, cinemas improvisados, botecos na baixa Augusta, viagens de final de semana, um carro e nenhum destino, personagens de um livro antigo, bibliotecas no meio da tarde. Nunca mais.

Disparo desespero em forma de inúmeras ligações e mensagens de texto. De resposta, sobra apenas solidão e lágrimas. Incrível. Seco por dentro, desidrato, desmorono. Cai a pele, a roupa, o ânimo. Caio no sofá.

Mundo injusto, concluo. Me apego a todas as religiões existentes ou inventadas por mim. Recomponho peça por peça. Falta um pedaço e, dessa vez, não finjo que não noto. Aprendi.

Volto a ser eu mesma. Frígida de choro, de uma enorme dificuldade de deixar molhar os olhos, por mais que estimulada.  Jeitão meu que, por hora, me sustenta.

Compreendo a falta como sendo a consequência de um passado de boas lembranças. Não há mais revolta, apenas gratidão. Da sorte que tive, não é justo, afinal, querer reclamar. Paro, então de pressionar o desconhecido, de exigir explicações da vida.

Hoje, se tivesse apenas um pedido a fazer, desejaria o endereço do divino. Deus ou Destino, tanto faz – diferentes nomes para mesmas indagações. E não seria para brigar, eu juro. Só queria um lugar para onde pudesse mandar uma notinha, o papel amassado, carinhosamente rabiscado, aquele que diz “muito obrigada por ter me apresentado um alguém capaz de fazer do mundo um lugar mais feliz”.

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