Nota: este texto é uma reedição (da série ‘E-mails que, desesperada, mandei’)

Você me dá vontade de voltar a fumar, que é pra ver se supre de alguma maneira, se alivia essa tensão que mistura ansiedade com angústia.

E aí eu percebo que fiz aquilo que prometi que não faria, desde o começo. Aquilo que me dá um medo danado, que tira o sono e a concentração. Tô me envolvendo demais. Muito mais do que devia ou podia. E não, eu não quero deixar de aparecer no seu cotidiano que já não me diz respeito, porque não, eu não me importo mesmo com o que pensam as pessoas, independentemente de serem meus amigos ou não. Porque eu não sei como vai ser quando eu não tiver mais desculpas plausíveis para ficar zanzando pela sua vida assim, à toa.

E eu não consigo dizer isso olhando nos seus olhos porque sempre fui melhor escrevendo do que falando e tenho certeza que vou balbuciar palavras que não vão fazer o menor sentido, fazendo com que eu fique sem graça, sem vontade de repetir e tentar de novo proferir algo coerente, porque vai soar ridículo. Como tantas vezes já aconteceu.

E aí eu saio pra dar uma volta no quarteirão, porque a vontade de fumar o segundo cigarro imaginário tá incontrolável. E aí eu lembro que tenho mais um monte de coisas para fazer, mas fica difícil concentrar. Então eu deixo para lá e sinto que nunca foi tão bom ligar o foda-se. Foda-se, vai!

Eu penso no quão errado é essa história de ficar assim com você e não sei direito o quão filho da puta você está sendo ou pode vir a ser. E penso na sua namorada. Não, eu nunca penso nela. Quando um ensaio de reflexão sobre o assunto se faz em minha cabeça, eu abstraio, dou um jeito, foco no trabalho. E, a essa altura do campeonato, eu já tô no terceiro cigarro daquele lá, para tentar esquecer o terceiro elemento, assim como esqueço quando estou com você. E aí eu lembro que não me importo mais com as suas condições, se é certo ou errado, se pode ou se não pode, se devo ou se não devo.

O quarto cigarro tem gosto de vale a pena, porque seria um pecado desperdiçar essa ligação tão forte, a sintonia, a química. Porque é tão difícil achar alguém com quem a gente se de tão bem, que goste tanto de estar perto. E aí se vai o quinto cigarro, aquele que quer dizer que está na hora de fazer valer a pena mesmo. Porque se é errado, já não tem mais como fazer ser certo.

Inevitavelmente, o sexto cigarro vem com o impulso de apagar tudo que vomitei na tela do celular e nunca te deixar saber. Vem o sétimo, oitavo, nono, lá se vai metade de um maço de Marlboro light imaginário.

No décimo primeiro decido apertar o send, como que para me livrar logo desse peso de palavras engasgadas e ligar o foda-se até para você, para o que vai pensar do que vai ler ao abrir o email.

Foda-se, vou fumar o maço inteiro, apertar o send e te encontrar amanhã com a mesma naturalidade de sempre, mesmo sabendo que agora você conhece minhas fraquezas, meus dois novos vícios: cigarro imaginário e você.

Anúncios