Nota: os membros que compõem minha família, além de bagunceiros e bagunçados, são o máximo e eu realmente não sei o que seria das minhas datas comemorativas sem eles

Para desgosto da minha mãe, não sou uma pessoa muito natalina. Isso porque, desde muito pequena, observo minha avó – lê-se ‘a pessoa mais bem humorada, engraçada, de bem com a vida e que mais fala palavrão que conheço’ – já começar a chorar pelos cantos semanas antes de assar o coitado do Peru – menu que também não é lá meu favorito.

A data, para ela, é sinônimo de reflexão, muita saudade doída e consequente melancolia. Não tem como ficar feliz, nem se eu fosse apaixonada por panetone. Isso sem contar o calor que, na minha visão, está mais para castigo do que benção divina sobre o famigerado país tropical. 

O natal é sempre comemorado lá em casa, para minha infelicidade. O dia, que promete ser de festança, ano após ano começa com estresse. Logo às oito horas da manhã, sou arrancada da cama  – com uma delicadeza que Jesus, certamente, condenaria – com o objetivo de ajudar a deixar a casa em ordem (vale lembrar, porém, que o resto da parentada só dá as caras lá pelas onze da noite). Tudo ao som de broncas e berros misturados a músicas natalinas no (juro!) cavaquinho.

A arrumação inclui banheiros, camas, quartos, lavar o quintal, entuchar as roupas espalhadas nos armários e fazer mágica para comer sem deixar resquício de farelos e afins pela cozinha. Quando parece que vai ficar tudo bem, toda tarde de todo santo natal, meu pai – com uma habilidade enorme para fazer sujeira e irritar sua esposa – resolve consertar uma torneira quebrada há uns belos três meses e, no exato momento em que descobre, minha mãe faz valer o sangue italiano que corre em suas veias. A gritaria, inevitavelmente, começa aí. E só termina na missa do galo.  

Também o amigo secreto, todo ano é a mesma coisa. Aquele tio engraçadão, invariavelmente, tira a tia que gosta de jogar truco, alguém faz alguma piada infame, algum casal mal resolvido sempre briga e fica de cara feia, alguma tia resolve colocar na vitrola o CD da Simone com a faixa ‘então é natal’ no infinito repeat para irritar meu pai e, quando dá meia noite, a família ataca – esfomeada e sem a menor finesse – o frango com farofa da minha avó como se fossem todos retirantes nordestinos. Chega a ser comovente.

A melhor parte mesmo é quando os tios mais chatos resolvem ir dormir e juntamos os primos, a tia mais descolada e o avô engraçadão ao redor da piscina. O objetivo é acabar com os líquidos restantes em todas as garrafas presentes – sejam elas de uísque, cerveja, champagne quente ou vinho ruim. Geralmente, alguém cai na água com celular no bolso e/ou vomita em algum saco de presente. A última ceia me rendeu uma fama familiar que carregarei pelo resto da vida.

A pior parte é o almoço do dia 25. O evento, que acontece no salão perto da casa da tia que mora longe, já é tradição. A comilança proporciona azia, mas também emocionantes reencontros de primos distantes. Chega a ser lindo. Tudo isso, não fosse a ressaca, até que seria fácil.

O problema, porém, é encarar – com enjoo e dor de cabeça – tias que só te veem uma vez por ano, nunca lembram ‘no que foi mesmo que você se formou’ e, ainda assim, questionam seu salário, seu corte de cabelo, sua provável mudança de casa e a sua (não-existente) vida amorosa.

Papo vai, papo vem, tiramos a famosa foto da família inteira reunida e já depositamos o dinheiro do bolão – que é para ver quem acerta qual casal vai resistir ao ano novo e permanecer unido para a foto do natal que vem.

Se sobreviventes, ficamos horas tentando nos despedir de todos – sempre esquecendo, obviamente, alguém que nos ligará mais tarde só para cobrar um ‘tchau’ decente – e damos graças por poder ir embora, desmontar a árvore, arrumar a bagunça que ficou na casa e dar fim ao evento-clássico-trágico-cômico-adorável que só se repetirá (se Deus permitir) dali a doze meses.

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