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Escrevo, depois apago

Não fui eu, foi meu eu-lírico

mês

janeiro 2012

Fugitiva

Substitui-te, todas as noites, pelo combo academia+Gabriel García Márquez. No caminho de volta para casa, ouço notícias. Quando na esteira ergométrica, assisto a seriados humorísticos. Evito canções. E não me identifico com nenhuma trama amorosa de nenhum Aureliano que habita as páginas de Cem Anos de Solidão. Ainda bem.

Em almoços corporativos, discuto a volatilidade da bolsa de valores e reclamo do cara chato da informática, que insiste em fazer as mesmas piadas infames. Dia após dia.

Escrevo duas matérias até a hora de ir embora. Converso sobre economia, entrevisto, informo (a mim e a outros) e quando, finalmente, chega a hora de dormir, estou exausta demais para encarar qualquer coisa que não seja algum programa estilo Big Brother na televisão.

Sou medrosa demais para lidar com a situação.

Aos finais de semana, aproveito para me matricular em mais uma aula de ginástica que se encaixe em meus horários e resolvo que vou fazer a pós, além de escolher mais uns dois ou três cursos de relevância acadêmica para minha vida profissional. Começo leituras de matérias que ainda nem tenho. Foco no trabalho e no estudo.

Quando o cérebro já está cansado demais para raciocinar, saio. Bebo, dou risada, mato saudades e enfrento problemas alheios, de amigos e desconhecidos. Busco soluções para relacionamentos, brigas com chefes e rumos de vida. De todas as vidas, menos a minha. Quando o assunto sou eu, calo-me, mudo de assunto, fujo, evito.

Evito-lhe. Mesmo sabendo que, uma hora ou outra, terei que encará-lo. Não pessoalmente, provavelmente. Mas dentro de mim.

A essa altura, imagino que nem ao menos deparar-me-ei com a difícil decisão de responder a alguma mensagem. Esta, creio, não chegará. Você tem tornado as coisas mais fáceis, sem nem saber o quão difícil para mim seria negar-lhe. Agradeço.

Ocupo-me, apesar do turbilhão de sentimentos que ainda existe – mas que também se enconde. E enquanto finjo que te esqueço – que me esqueço -, a vida segue.

Pé no freio

A verdade é que fiquei assustada pelo rumo que as coisas estavam tomando.

Diferentemente das outras tantas vezes – de sofrimento – em que pensei em me afastar de você, o afeto fazia-se cada vez mais presente e mais intenso. A cumplicidade era de dar em veja em muitos casais casados ou juntados. (Assumidos. Reais.) A amizade fazia-se valer em todo encontro – fosse ele recheado de café, cerveja, vinho, salgados, doces ou carinhos.

Declarações, desejo, vontade de estar junto. Esfarrapadas desculpas para encontros secretos. Escancarados no sorriso aberto. Incontrolável.

E percebi que era tudo perfeito. Tudo lindo. Fazia bem. Quando junto.

Mas continuava tenso, doído, incerto, irreal, injusto. Fazia mal. Quando separado.

Tudo errado. E eu poderia insistir no erro pelo resto da vida. E este era o meu maior medo.

Espírito velho

Hoje é sexta feira. Não são nem nove da noite. Já estou na cama. De pijama. Com meu livro. E estou muito feliz.

Poderia, do alto dos meus 22 anos, dizer que tenho trabalhado demais. Que estou cansada. Mas todos sabemos que, apesar de verdade, seria mentira. Não tem jeito, sou velha.

Se eu pudesse, confesso, teria sido uma adolescente normal, do tipo que curte ficar muito louca na balada. Juro.

Mas era do tipo que ficava conversando com a moça do banheiro enquanto descansava os pés, sentada em cima da pia, reclamando da altura do som.

Nunca aproveitei balada alguma. Ficava só na única caipirinha – que, ao longo da noite, virava água – e ainda tinha que cuidar dos amigos que, ao vomitar na manhã seguinte, imaginavam (vagamente e por meio de relances embaçados) ter aproveitado até demais.

Quanto a homens, eu tinha um lema: se não for o Brad Pitt, não informo nem meu nome. Adivinha, só! Nunca pegava ninguém. Tinha um certo asco dos caras que já deviam ter amassado umas cinco antes de vir tentar a sorte comigo. E não estou nem levando em conta os peculiares métodos de abordagem.

Era fila para entrar, para beber, para pagar, para sair. O aglomerado era tanto que a minha sensação era a de dançar dentro de um vagão de metrô lotado, pedindo desculpas pelos esbarrões e tomando cuidado, a fim de se esquivar das inúmeras cotoveladas e pisões.

Eram horas de preparação – das quais faziam parte cabelo, vestido e maquiagem – para passar a noite em um lugar escuro, de luzes ofuscantes (que não permitiam enxergar o rosto de ninguém, quanto menos a roupa nova), suando, fedendo a cigarro e tomando banho de cerveja.

Até tenho aqueles amigos que insistem. Mas não consigo entender a graça de um lugar como esse. Podem me chamar para os mais diferentes programas, juro que vou. Mas em baladas, não ponho os pés nunca mais.

Afinal, se a melhor parte (definitivamente!) era a filosofia divagada no banheiro – dividida com um alguém que estava ali a trabalho –, acho que faço bem em preferir minha cama, economizar uma grana preta e curtir minha mania de velhice.

Faria tudo de novo

Esqueço as lágrimas que, invisíveis, jorravam de dentro do peito. Apago a insegurança e a consciência do erro cometido por diversas vezes, sem o menor pudor. Perdoo a falta de atenção e carinho nos momentos que mais precisava. Relevo o abuso.

Levo comigo os almoços e cafés em que as mãos, descontroladas pela imensa vontade de estar perto, encontravam-se por debaixo da mesa.

Escolho sua melhor lembrança, que é para seguir meu caminho com mais leveza.

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