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Escrevo, depois apago

Não fui eu, foi meu eu-lírico

mês

fevereiro 2012

Vai passar

Vai passar porque a vida continua, o trabalho exige, os boletos vencem e o estômago ronca.

Vai passar porque o fígado reclama e as lágrimas secam.

Mesmo que nada mais faça sentido, vai passar porque o sol ainda nasce, a lua ainda brilha, a chuva ainda cai e porque a praça ainda tem vida noturna, mesmo sem nós dois ali.

Vai passar porque ainda existe a bebida, existe o cigarro e existem os amigos.

Vai passar porque tem a academia, o regime e as aulas de boxe.

Vai passar porque, no mundo, habitam 7 bilhões de pessoas e porque não é possível que ninguém, nunca, vá se fazer interessante de novo. Vai passar porque estreiam bons filmes e peças, porque aparecem viagens, porque existem bons livros e vinhos.

Não vai passar só porque todo mundo diz que passa ou porque a gente sabe, por experiências passadas, que, uma hora ou outra, isso acontece mesmo.

Vai passar porque tem que passar. Só por isso.

Limites

E – com pouca idade, muito pudor e nada de experiência – a gente acha que jamais toleraria isso ou aquilo. Mas o tempo vai passando e traímos nossos valores.

E lá estamos nós, fazendo o que julgávamos errado. Erramos e amamos o erro. A dúvida passa a ser célebre e a certeza sem graça.

Mas, o mesmo tempo que samba na cara de nossos pensamentos passados, também traz uma nova consciência que, permeada de menos julgamentos e mais maturidade, leva à conclusão de que valeu, mas que, agora, já chega.

E o mesmo impulso que faz com que deixemos que de um tudo aconteça conosco, nos obriga a impor certos limites – sob pena de acelerar o próprio fim – em prol de alguma ainda restante e muito necessária sanidade mental.

O fato de ser contra a nossa vontade e aos nossos desejos torna tudo muito mais difícil. Mas não teve jeito, acabou.

Assim sendo, peço-te permissão para continuar a escrever sobre uma ilusão/idealização de você. Porque de você mesmo, já não posso querer mais nada.

Atropelos atemporais

Temos inúmeras diferenças. Que te incomodam.

Que te fazem pegar em minhas mãos e proferir – com pesar – palavras carinhosas, fazer pedidos, emanar promessas e esperar por apaixonadas respostas.

O falso fica bonito ao parecer proibido, ao mostrar-se ilusório. “Nunca daria certo”, ecoa de seus pensamentos. “Diferentes anseios”, você deduz – sem nunca, comigo, confirmar.

Temos diferenças numéricas. Dez anos delas.

Timing errado, década que, se subtraída, multiplicaria nossa história.

Mas os números, ressalto, para mim não importam. Se quiser, tiro-te alguns anos e você me doa também alguns. Assim, igualamos. Completamos. Ao dividir, somamos.

Mas temos inúmeras diferenças.

Que, para mim, são só uma desculpa para que você possa continuar me negando ao proferir um belo sim. Uma maneira inteligente de continuar me ganhando – mesmo sabendo que a perda é iminente.

Constante frustração nossa

E quem diria que, na mais inesperada esquina da vida, encontraria um amigo de frustrações.
As questões, tão diferentes, se fazem iguais – por pertencerem ao coração.
O que queremos, não podemos ter. Coisas da vida, merdas do cotidiano.
E nas rápidas muitas horas de goles gelados de cerveja descendo áspera pela garganta em uma tarde de muito calor, disparo e ouço conselhos desesperados.
Confusos, confiamos segredos no ombro amigo e tomamos a decisão de dar um enorme passo – aquele, nem sempre favorito, que consideramos “certo” (seja lá o que isso quer dizer).
Deixamos o tempo passar. Apoiamos para não cair, torcendo para que o próximo bar seja regado a menos drama e melhores novidades.

Clichê

Fase 1: comemos chocolate como se não houvesse amanhã.

Fase 2: fazemos ginástica como se disso dependesse nossa vida.

Fase 3: nos matriculamos na aula de yoga e voltamos a fazer terapia.

Fase 4: vai ficando mais fácil dormir e não dói tanto acordar.

Fase 5: paramos de fuçar as redes sociais compulsivamente.

Fase 6: outros caras começam a ficar atraentes.

Fase 7: percebemos que ele tinha suas falhas.

Fase 8: não conseguimos mais entender porque ‘aquilo’ nos encantava tanto.

Fase 9: pegamos ‘irc’ e não queremos vê-lo nem pintado de ouro.

Fase 10: caímos na mesma ladainha, só que dessa vez com outro.

Superamos o pé na bunda.

Segunda feira

O celular não vibra, o tempo não passa, a vontade não chega. O ânimo dorme, o sono se esconde, a pressão baixa. O trabalho não rende, a leitura não vinga, a programação só piora. O jornal não chegou, o rádio chiou, a internet pifou. A nuvem escondeu, o sol apareceu, na previsão não tem trégua. A roupa amassou, a calça rasgou, a camisa encolheu. O café esfriou, a coca esquentou, suco não tem. A vida desanimou, a esperança vingou, mas o choro cedeu. O cabelo ensebou, a ginástica transpirou e o banho acalmou. Em casa chegou, a cama chamou, a lua iluminou e o dia acabou. Ufa!

Baseado em fatos reais

E aí percebemos que a arte imita mais a vida do que a vida imita a arte. Infelizmente, nem todos os absurdos aos quais assistimos refere-se a uma ficção.

Descobrimos que o ator coadjuvante – aquele que tem que passar pelas merdas todas protagonizadas pelo ator principal –, não dorme por conta dos berros desesperados, desprovidos de qualquer motivo plausível aparente. Noites desperdiçadas pelo desespero de não entender o porquê.

O ignorado figurante, levanta no dia seguinte com a cara lavada, cansada. O pouco de maquiagem, para olheiras, esconde uma trama digna de filme.

Enquanto  o público deixa a sala escura para ir ao bar discutir sobre os absurdos abordados de maneira pesada no roteiro, o ator trabalha, sorri, aprende e conta piada. Vive uma vida que não é a sua, vive uma vida de filme – do protagonista que queria ser.

E ninguém desconfia. O espectador só vê aquilo que o roteiro estipula, deixa. Mas quem é diretor de seu próprio filme, nem sempre consegue esconder o making off.

E aquele que desfruta apenas do cinema, já não sabe se sabe lidar quando passa a assistir a fragmentos da vida real – sem pipoca, refrigerante ou qualquer possibilidade de deixar o espetáculo para ir ao banheiro.

Assustado, dorme assistindo a leves e graciosos desenhos, torcendo para que a história contada seja só mais um filme. Rezando, mesmo que sem fé, para que o drama não acabe em tragédia.

 

Bobagem

É vontade de dormir no sofá e sonhar com você. É nostalgia de ter tanta coisa para fazer e só conseguir concentrar em tua barba. (suspiro!)

Não é amor, porém, é só saudade. É só desculpa para resgatar a inspiração, é só motivo inventado para escrever, é só o escritor que habita em mim à procura de mais um drama. Mesma trama. É insistência, ilusão, teimosia. É minha escolha. É rebeldia. Coisa de criança e desejo de mulher. É quero porque quero. E só. É falso. E eu sei.

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