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Escrevo, depois apago

Não fui eu, foi meu eu-lírico

mês

junho 2012

Não há noite longa que não encontre o dia

Dormiu o melhor dos sonhos. Caiu nos braços de Morfeu e este, desta vez, não era gostoso, não tinha os braços fortes ou o dorso torneado. Era mais como colo de vó ou edredom quentinho e macio numa noite de rigoroso inverno.

Ao deitar-se já não tinha mais nada em seus pensamentos.

Conversara consigo mesma de maneira rígida e decisiva. Dera bronca, xingara, chorara, sorrira, esclarecera. Entendera. Era a primeira vez que fazia terapia assim: só ela, uma taça de vinho chileno, um maço de Marlboro light intocado e a lua.

A noite era clara, o vento cessara e as estrelas pareciam chorar. O sereno era espesso, quase como uma garoa, porém sutil. O frio era acolhedor e dramático. Ela era dramática. Mas soube usar a razão. Decidira. Ficar sozinha sempre lhe agradava muito. Não por muito tempo. Afinal, começava a fazer falta uma segunda voz, um toque, uma opinião. Mas naquela noite não. A solidão lhe bastou. A TV incomodou e a escuridão não deu medo. Estava segura. Sozinha. Pensante. Falante. Quem a visse a taxaria maluca, falando com as paredes. Como pode?

A conversa era tão intensa, tão verdadeira, que a casa se desfez. Não havia mais nada materializado, só o vinho, apenas os gestos relaxados. Contara a si mesma segredos que nem ela sabia. Revelara o inconsciente, vomitara o sentimento em palavras. Nem sempre era belo ou fazia sentido. Mas simbolizava, tranquilizava, amparava. O começo foi difícil. Pensamentos difíceis demais de decifrar. Aí então veio o desespero, seguido de choro e consequente depressão. Depois veio o alívio, o respirar, o enxergar.

Quando deu-se por satisfeita, trocou o jeans pelo pijama velho. O cérebro recusava-se a pensar. Até aquele momento não sabia que era possível desligar-se assim. A sensação deveria ser de vazio, mas, estranhamente, não o era. Alguns podiam até chamar de meditação. Relaxou, fechou os olhos. (Ou já estavam fechados?) Dormiu o sono dos deuses. Morfeu era acolhedor e confortável. Desejou nunca mais acordar.

Mas o dia seguinte certamente seria mais fácil agora que era mesmo a pessoa que mais lhe conhecia.

Terapia de bar

– Não podíamos estar mais felizes por sentir tamanha dor!

– O quê? – espantou-se ao assoar o nariz molhado por incessantes lágrimas, o mais gay dos amigos gays devia estar louco – você só pode estar brincando, Salomão!

– Já parou para pensar o quão sortudos somos por ter uma história tão bela a ponto de doer tanto dizer tchau?

– Se não tivesse valido a pena, sairíamos dela saltitando e não chorando em posição fetal.

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