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Escrevo, depois apago

Não fui eu, foi meu eu-lírico

mês

julho 2012

Queria ser Frida Kahlo ou Margaret Thatcher

Queria ser uma daquelas mulheres fortes, daquelas que são tema de livros, biografias, músicas, filmes, seriados, tudo para mostrar às outras mulheres – que não são tão fortes – como as coisas têm que ser.

Mas não. Às vezes me faço forte por um ou dois meses, sabe como é…
E resolvo que vou mudar de ares, que vou mudar de vida, que vou mudar de cores. E mudo mesmo. A cor do cabelo, da parede, do lençol.
E mudo mesmo. De apartamento, de roommate, de roupas.
Mas o que fica mudo mesmo é o coração. Para que tudo isso aconteça, é ele que deixo de lado.

Mas só por um ou dois meses de fortaleza invencível, de muros inderrubáveis, de textos indecifráveis. Nesses um ou dois ou três, até, meses eu viro fera, grossa, chata e linda.

Incrível como os homens gostam de mulheres fortes. Que não se acham, se têm certeza. Que pensam, que leem, que escrevem, que discutem e que transam.

Mas continua sendo (ainda mais) incrível o poder do tempo e do vento que traz coisas velhas disfarçadas de novas. E passam esses um ou dois ou três meses. E passa a fortaleza e derrubam-me o concreto do muro e decifram-me em minhas frases tão comuns.

E a mulher forte e grossa e chata e briguenta e linda murcha. Dando espaço a uma menina fraca, besta, burra, encurvada, chorona e bem desinteressante. Que quase nunca transa. Uma idiota que aceita grosserias, que perde o apetite e vomita de nervoso, que coloca o som bem alto na playlist de fossa e sente pena de si mesma. Uma mocinha que aceita esperar, que acata a decisão do outro, que obedece, que omite o desejo mesmo quando borbulhando, que se acaba e que insiste na teimosia do erro que já acabou.

Ser forte, talvez, seja passar o que passa sem cometer suicídio ou perder o parafuso do equilíbrio. Sem chegar ao trabalho chorando, sem desistir do dia de amanhã. Ser forte, talvez, seja dar uma chance para o erro virar acerto e as lágrimas virarem afeto e o sofrimento virar amor. Talvez ser forte seja tentar de novo, seja levantar a cabeça humilhada, seja perder a dignidade por pura escolha racional, seja arcar com as consequências da própria inconsequência. Talvez seja continuar.

Mas talvez não, né? Talvez uma mulher forte mesmo seja aquela lá, do começo do texto, que tem livros e filmes e músicas, que não chora e nem vomita de nervoso, que pisa nos homens e decide quando, onde e porquê, que carrega uma fortaleza invencível, muros inderrubáveis e textos indecifráveis. Que não precisa mudar de cor de cabelo, lençol e paredes para mudar de vida. Que é linda porque sim e sabe disso.

E isso, talvez eu nunca seja.

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Da vida e suas tragicomédias

– Que graça teria nossa vida sem boas (leia-se trágicas, dramáticas e cômicas) histórias para contar e ouvir? – indaga meu amigo Salomão

Penso, por alguns silenciosos segundos.

Lembro da vez em que, a fim de paquerar o mocinho do terceiro colegial, espetei toda minha bunda de menininha da sétima série em um canteiro cheio de espinhos, fazendo com que, para sempre, associasse rosas ao menino que, na época, tinha o apelido de Vampirão.

Penso também em quando nos comunicávamos, eu e minhas amigas, por meio de recadinhos jogados pela janela com os meninos mais velhos do colégio. Foi assim que recebemos o apelido de Julietas de um querido e inesquecível professor. Seguimos buscando nossos Romeus.

Recordo a vez em que agarrei um japonês em pleno metrô canadense. O vagão estava tão cheio que não conseguia me equilibrar. Na brecada que deu, não pensei duas vezes. Fui xingada de inúmeros palavrões japoneses que jamais entenderei. Mas nunca me esquecerei da sensação de conforto do paletó macio ou da intimidade que tinha com a amiga que ria compulsivamente de meu lapso e com quem, hoje, nem falo mais.

Lembro do dia em que cantei, em solo canadense, “um elefante incomoda muita gente”com uma amiga brasileira. Juntas, chegamos até o número 200 ao esperar pelo ônibus que nunca chegou. Na mesma tarde, sambamos em volta do guarda-chuva a fim de convencer o guarda do consulado que éramos, de fato, brasileiras, e que precisávamos de ajuda por termos perdido nossos passaportes.

Coro ao recordar o tombo que levei ao tentar impressionar, aos 16 anos, meu namorado mais velho, usando salto agulha de mais de 15 centímetros. Essa cicatriz, no joelho, eu tenho até hoje. O mesmo namorado me levou de moto (quase uma biz) até a praia e eu só me lembro de berrar, durante toda a descida da serra “eu vou morrer e minha mãe vai me matar!”. Sobrevivi. Mas voltei de ônibus.

Sorrio ao pensar na vez em que saí do novo apartamento correndo, com chaves, cadernos, livros, sapato, desodorante e bolsas nas mãos e dei de cara com o cara mais bonito da face da terra no elevador. Seria até despojado, não fosse o enorme pedaço de panetone sendo mastigado em minha boca, impedindo qualquer tipo de comunicação ou sorriso ou classe ou dignidade. Fiasco.

Dei em cima do professor de spinning, que era gay. Confessei meu amor bêbado a um garçom muito simpático e acordei com várias mensagens no meu celular. Bebi pinga achando ser água e água achando ser pinga (tamanha a bebedeira). Cantei no karaokê achando que arrasava na interpretação da Madonna, no primeiro encontro. Topei um encontro às cegas e passei a noite dobrando guardanapos ao ouvir as histórias de um lutador de jiu-jitsu que não sabia falar de mais nada, além dos próprios músculos. Sem contar a vez em que escorreguei no cocô de cachorro e sujei minha calça, minha bunda, minha bolsa e meu paquera, bem no meio da rua.  Fiz amizade com travestis e passei o ano novo numa balada gay muito louca. Cheguei atrasada em inúmeras sessões de cinema com uma amiga que consegue ser mais enrolada do que eu. Com ela, dou risada até cinco da manhã dentro do carro. De dramas meus, nossos e de nosso grupo de amigos – todos desajeitados.

Choro de rir sozinha e respondo, convicta:

– Nenhuma.

As simple as it gets

E aí a gente se desespera e liga pra tudo quanto é gente da já carimbada lista telefônica para ter certeza de que vai fazer alguma coisa diferente do que ir pra casa sozinha chorar as mágoas da decepção.

E aí a gente aceita convites de última hora e até se diverte, mas não consegue parar de pensar em como teria sido tão mais legal se fosse de outro jeito. Aquele, combinado. E aí a gente foca no trabalho e nos estudos que é pra tentar esquecer que se envolveu, mesmo sabendo que não podia, que não devia, que era errado. E aí a gente tenta se convencer de que é errado mesmo, que não daria certo, que não funciona. Mas aí a gente lembra que era bom, porque era mesmo. E aí a gente tenta se afastar, não demonstrar e em hipótese alguma ligar. E aí a gente mantém as mãos bem longe do telefone, mas vai até o céu quando este se manifesta. E aí a gente vai conferir, esperançosa, e descobre que é só mais uma mensagem sobre amor, daquele serviço que não foi comprado, mas insiste em comer os poucos créditos que ainda restam. E aí a gente lembra que tem que ligar pra TIM, pra cancelar essa porcaria que além de roubar uma fortuna de centavo em centavo, ainda é inconveniente, falando de decepções e dor de amor nos momentos em que estes são os únicos assuntos a serem evitados. E aí o coitado do moço do outro lado da linha não entende nada quando começamos a xingar a operadora de filha da puta, egoísta, insensível e enganadora.

– Mas, senhora, quando essas coisas de amor te perturbarem, é só responder com a palavra NÃO, que isso para – esclarece o paciente moço.

Como se a vida fosse assim tão simples.

E aí a gente desliga o telefone, estupefata de ver como alguém tão fora da situação conseguiu dar a luz que precisava. E aí tudo faz sentido e a gente consegue enxergar a situação. Some a vontade de trabalhar feito cão e focar nos estudos volta a ser difícil. Mas difícil mesmo vai ser, enfim, enviar a palavra NÃO.

Calúnia

Nota: da série ‘Cartas que, desesperada, não mandei’

Dar uma espairecida, tomar um ar. Essa ideia de errado, de “onde foi que eu me meti” me perturba cada vez mais e eu já não sei se quero de novo, se não quero mais. Hoje você tava chato e eu me pergunto se você é assim mesmo e eu não tinha percebido pela cegueira que a paixonite causa, se era meu estado muito alterado de consciência que me fazia admirá-lo tanto. Já não sei mais se é a situação ou se é você o errado. E tá acabando. O convívio, os trabalhos, a rotina, a gente. Talvez esteja na hora mesmo de alçar novos voos e achar meu lugar. Só meu, não com você ou por você ou para você. Meu. Para mim, comigo e por mim. Difícil essa coisa de pronome, né? Eu que sempre fui tão possessiva, abri mão de mim me doei a você. Não me resta nada. Já não me tenho mais e me iludo, achando que te tenho.
Mas você não é meu. Sabe que se não houvesse essa terceira pessoa, as coisas poderiam ser mais fáceis. Mas, espera aí, a terceira pessoa na verdade sou eu, eu que me meti onde não devia. Sabe que existir uma terceira – independentemente de ser eu ou ela – faz de você um filho da puta. E você cumpre tão bem este papel de canalha que nem me lembro de que sou a outra. Filho da puta. E eu aqui, dando uma de nora, preocupada com a sua mãe, tentando achar jeitos de te ajudar a fazer algo especial justo pra ela que te criou com tanto mimo de filho único que te fez pensar ser único mesmo. E é. Filho da puta. Bom de lábia, bom de piada, bom de cama. Eu caio na sua mesmo sabendo de tudo. Burra. Um filho da puta e uma menininha iludida, encantada, burra. Tenho dó de você, de quando for rejeitado, de quando não conseguir o que quer. Porque esse dia há de vir. Tenho dó de mim, do dia em que a realidade bater à porta e eu tiver que entender, na prática, que era brincadeira, que era aventura, que não tinha nada de amor. Mas tenho dó mesmo é de quem ama sem controle, acredita piamente e tira os dois pés do chão. Tenho dó de quem dorme com um filho da puta achando que acorda ao lado de um príncipe. Da dó de quem não só tira, mas lava e passa as roupas amassadas, traidoras. Da dó de quem tolera o Sr. Tudo Tem Que Ser Do Meu Jeito. Eu sofro, mas mando embora quando não o aguento. Tenho do é do terceiro elemento.

Sem prosa, nem verso

Achei pedaços seus na minha bagunça.
Uma agenda esquecida, um caderno em branco, um livro por ler, folhas rabiscadas de edição.
A lembrança de um sorriso, um afago, um pegar de mãos.
Foi arrumando o antigo quarto que badernei meu coração.
Sentimentos esquecidos derramados pelo chão.
O amor comprimido em uma caixinha, na ultima prateleira do armário, caiu derrubando memórias.
Lágrimas invisíveis – mais salgadas e impossíveis de secar.
Aquele tipo de dor que a gente tem que carregar.
Conformados.
Sem nada poder falar, sem forças a mais para lutar.
Uma batalha já perdida antes mesmo de começar.

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